quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Fevereiro (de Marcos Salvatore)


Cais. Tarde chuvosa, mas o sol, enfim, não se esquece de lembrar de nós, com suas sombras - e já um leve arco-íris. Posso escolher se desejo passar pela Estação e aproveitar o espetáculo. Menos bater palmas (não sou politizado o suficiente). Um gigabyte de som imaginário nos ouvidos. Gosto de criar climas e texturas sonoras para momentos sem importância, como fiz com aquele dia 22, também livros, andar sem pressa de mulher colorida, como reparar, de dentro de um ônibus qualquer, aquela folha de jornal dançando com o vento, pela rua, (pela rua, pela rua...) num sábado à tardezinha, de cidade vazia, de interior com praia e caminhada. Agradeço. Certas coisas tornam a vida mais simples, tão simples que quase não dá pra descrevê-las como são: Outro dia, minha cadela me encontrou deprimido, na mesa da cozinha (tenho bronca de dramalhão, de novela mexicana, mas era eu mesmo, confesso). Ela veio devagar (nunca fomos chegados), aconchegou primeiro as patas no meu colo, ficou roçando a cabeça no meu braço, pediu carinho com os olhos; era como se dissesse: - “Calma, calma. Vai ficar tudo bem”. Aquilo valeu muito. Valeu tudo. Mas não sei falar sobre isso. Não realmente. Tudo que sei é que olhando o rio tão calmo, de cheiro familiar, de cênica luz, senti uma vontade desmedida de molhar os pés. Por isso, tirei os fones dos ouvidos, continuando com a música na cabeça, como um mantra, tirei toda a roupa, sobrando só a minha velha cueca, sem elástico (seus pequeninos furos eram geniais), subi num antigo guindaste do porto – eu não ouvia as pessoas lá embaixo, era todo voz e coração, apenas isso e som imaginário. Contei até três, sabia que um mergulho daqueles poria fim a todos os momentos sem importância. Eu sabia. Mas, quer saber? Pisquei com um sorriso para uma mulher linda, que me olhava assustada lá de baixo; ela gritava, chamando os de dentro, para virem rápido. Gostei das sirenes, não da multidão indecisa. Barcos se aproximavam. Juro que notei um grupo de carimbó. Aquilo foi demais. Abri os braços, estilo “shine” e, antes de pular, berrei o mais alto que pude: - “Brisa! Brisa!”.

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