sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Talidomida Mon Amour (de Marcos Salvatore)


Num apartamento vazio, semi iluminado pelas luzes da noite que invadem a janela, um homem senta, encosta-se na parede, acende um cigarro, e, taciturno, olha para um telefone.
No andar de baixo, alguém deitado no chão da cozinha, olhando para o teto, ouve seu disco preferido dos Stereophonics:

No apartamento em frente, um casal faz amor no corredor entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Sussurram num diálogo só de diminutivos.
No décimo, uma jovem que chora, limpa a maquiagem borrada, sozinha. Ao seu redor, jogados com raiva no chão, pequenos pedaços de papel, rabiscados com pequenos poemas alados. Linhas, linhas.
Numa janela aberta para a noite, dois velhinhos juram, mais uma vez, amor eterno. Ela fecha os olhos e se enrubesce, aceita um beijo no peito do seu único e verdadeiro cavalheiro, se entregando de novo, de coração aberto.
Ao mesmo tempo, uma criança se diverte, assiste a um programa de TV, toma seus remedinhos de ninar nenê. Um a um pro dodói parar de doer.
Janta devagar pra não deixar de comer, faz dever com dedinhos lindos de morrer, brinca o pé com o cachorro e o cachorro com o seu pé.
Um telefone toca e do outro da linha uma voz de mulher, voz cheia de carne e sangue, num tom de quem chorou noites inteiras:
- Sou eu. Estou indo até aí pra te matar.
- Não se atrase. Os comprimidos logo vão fazer efeito.


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