segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

ARBOR (de Marcos Salvatore)



Abertura: Manga Verde, Nilson Chaves
I - O PALACETE BOLONHA

Trilha Sonora: O dizer das coisas, Iva Rothe
Não consegui ler, então sentei na cama pra tentar pensar em algo pra pensar. Meus pés no chão úmido e gelado me fizeram acordar de vez. Mas preciso dizer que não tinha cama, era apenas um colchão no chão e eu estava morando sozinho de novo.
Lá no Bolonha, como eu chamaria meu kit - net alugado no centro da cidade, na Vila Bolonha, ao lado de um palacete que impressionava pela beleza e pelo descaso com que o pintaram de branco, tudo parecia em seu lugar: minhas roupas espalhadas pelo quarto minúsculo (o banheiro parecia maior), a pia com as louças e restos de comida da semana inteira (meses), minhas coisas - chamo de coisas aquilo que guardamos dia após dia, sem exatamente saber o que fazer delas.
Estava mais magro do que o normal, menos confiante que o anormal. Quando penso no que ficou da mudança, não sei o porquê, mas só me lembro dela me acenando do lado de dentro do táxi. A gente devia ter tentado mais. Estava tudo em seu lugar, não é? Meu trabalho, meu pequeno frigobar com queijo, pão, presunto e várias garrafas de vinho semi-vazias.
Faltava algo, sim, faltava mesmo, faltava a mim.
II – NO BRASIL NINGUÉM PASSA FOME


Trilha Sonora: Veneza, A Euterpia.
- Me veja um misto-quente e um café com leite.
- Pão de forma ou pão francês?
- O que parecer mais demorado de comer. Não importa a nacionalidade.
- Pão francês.
- Mercy, tia.
Me deu o troco, um papelzinho e me mandou pro balcão. Enquanto eu esperava pelo café, ficava vendo as caras que atravessavam a esquina. Uma velhinha com a coluna encurvada talvez pela idade, talvez por preguiça de levantar, um cachorro dando um mijão no pé da árvore, uma morena par-de-rabo vindo, uma loirinha tetas-de-mel; comeria as duas juntas, a morena por trás, enquanto chupava vigorosamente a florzinha rosada da loirinha de uns dezoito anos, a morena tinha a idade certa: idade de dar depois tirar. Tive uma namorada que só gozava dando da bunda. Na hora H sempre dizia, sôfrega, maternal: - “Huummmmmm! Meu filho!”.
Atravessei a Rui Barbosa, atrasado como sempre. Acendi um cigarro meio atrapalhado (como sempre, porra!). Primeira esquina, segunda esquina, outro cigarro (eu fumo rápido, penso rápido), cruzo com pessoas que manjo de todos os dias.
Quase chegando na praça, perto da igreja, vejo um cara comendo rango amanhecido numa lata de lixo, passo adiante, mas volto:
- Tome aqui amigão, compra um café com pão, um misto-quente, tem o bastante até pra almoçar se você der uma regrada.
- Não preciso, eu tenho tudo aqui mesmo.
E coçando a barba suja de restos de macarrão e ovo me disse a primeira verdade daquele dia:
- No Brasil, ninguém passa fome. Tá tudo aí, é só pegar.
Achei graça.
A segunda verdade do dia foi que a Tia Berê me pegou bebendo água na boca da garrafa no trabalho, eu parei com a garrafa no ar, na boca e quase me engasguei quando ela disse:
- Tudo bem “Seu” Salvatore, eu também só sei beber assim.
A Tia só tem dois dentes na boca.
Dessa vez não teve graça.
III – CULTURA 

Trilha Sonora: Recreio, Suzana Flag
Um sol do caralho, um calor que puta que o pariu, sapato apertado dois números a menos, camisa de botão de alguém, calça dois números a mais, um kilômetro faltando: eu tô fodido.
Tudo menos voltar agora, não é à toa. Qualquer trampo já serve.
Acabaram-se as velas. Fiz um gato escondido da Celpa tão descarado que mais parece um tigre. Pra ligar a luz da sala tenho que desligar a da cozinha. Ainda bem que dá para ouvir o rádio. Canto sozinho, danço sozinho. Uso a vassoura velha como guitarra, pois vendi meu violão pra comprar um barbeador, um sabonete, um shampoo dois em um, meio quilo de mortadela e um pacote de sazzon pra misturar com água quente e fingir de caldo.
O gás terminou ontem, antes da fervura da borra de café de anteontem. Estou comendo a comida do cachorro (eu tenho uma cadela), roubei o pão que o diabo amassou. Joguei pedras na cruz que eu carrego todo dia. Em Marituba ninguém mora, só se esconde.
Aprendi a procurar guimbas e pedaços de madeira pro fogo quando não tem ninguém na rua. É um bom truque quando se está no rombo. Não amo nem odeio. Estou livre. Estou pronto.
IV – HORTO

Trilha Sonora: Eu só quero você, Lia Sophia
- Mais duas conversas como esta e eu me apaixono por você.
- Você não fala sério.
- Tem razão, se eu falasse sério já teria te pedido um beijo.
- Mas beijo não se pede, se dá.
- Perdi a minha chance dois segundos atrás.
- Você desiste muito fácil.

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