segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

INDIGNAS ONDAS (de Marcos Salvatore)

by Helmut Newton
Três horas. Depois que a Aninha Fortaleza me deixou em frente da TV Cultura (a gente vinha no carro improvisando um blues muito sacana, completamente bêbados), acendi um cigarro e olhei para as estrelas... depois, olhei para a esquerda e a direita. Só a noite lá fora, sozinha e do avesso.
Um casal de moças se aproximou para pedir um cigarro. Estavam vindo de uma festa ou coisa assim. Dei o careta e me lembro de ter achado tão lindo aquele amor. Ficaram dando uns quebras seguros encostadas num poste.
Do outro lado da rua, perto do posto, uma outra mulher me olhava, em contemplação estática. Como se eu fosse um acidente geográfico ou coisa parecida. Vestia uma roupa de frio em pleno calor.
Fui até o tiozinho dos bombons e pedi uma latinha, pensei na Celi – ela não sabe que pára o meu trânsito quando cita Cazuza, toda vez que eu jogo meu charme animal: - “Raspas e restos me interessam”.
- Me vê aí uma “Drama Trash”, ô Tio.
- “Trama” o quê?
- Deixa pra lá, deixa pra lá. Uma cerveja. Mas escuta, aquela dona está ali faz tempo? Não pára de olhar pra cá.
- Não reparei.
- Tá.
Do nada, aparece uma van com motorista e cobrador completamente chapados. Penso: “ô vidinha mais ou menos”. Jogo o cigarro no chão e pergunto:
- Vai pro Imperial, Mano?
- Não, não joga não, dá aqui, pega. Cata, cata. Passa pra cá esse vinte.
- Se eu arrumar mais um, vocês me deixam lá?
- O quê? Marituba? A gente já ia recolher, mas sobe aí.
Gente Boa os caras, em cinco minutos estávamos em plena BR 316 zoando e ouvindo Gonzagão. Comprei duas latinhas pros manos e seguimos no festival de arrotos mais podre que vocês possam imaginar. Arrotos impossíveis, dissonantes, acrobáticos concorreram ao grande prêmio que era uma outra latinha perto da Rua da Lama. Sacaram?
Perto da entrada do Águas Lindas o cara freia com tudo. E lá vamos nós. Um por cima do outro.
- Quê que foi. Tá maluco?
E o motorista aturdido:
- Ali.
Era um cachorro amarrado a uma cruz num canto da estrada. Quase o atropelamos. Quase.
- E então?
E eu:
- Então o quê, porra?
Cobrador:
- Vamos soltar ele. Senão ele vai morrer atropelado.
- Soltar... e depois? Que piada!
- Sei lá.
Fomos até lá e o soltamos. Mas o filho da puta do cobrador se engraçou e quis levar ele com a gente. O motorista até avisou:
- Problema teu.
Não deu outra: um pouco mais à frente o vira-lata estranhou o novo dono, o motorista e a mim, que estava quase cochilando na última poltrona, sonhando com a dona do sorriso:
- Auauauauauauauauau!
- Segura! Segura! Epa! Solta! Solta!
O motorista quase bate num caminhão na ultrapassagem quando o cachorro pôs a mim e o cobrador pra pular por cima das cadeiras. Vocês não têm idéia da cena:
- Amarra esse pulguento! Amarra esse diabo!
Descemos e o chamamos pra fora, assoviamos. E quando ele desceu foi só pra botar a gente pra correr em plena madrugada. Foi só risada.
A van arrancou pra nos salvar. Mas o motorista não alcançava. Estávamos correndo em zigue zague por causa do cachorro pronto pra morder. A van tentava chegar perto mas desistia porque o motorista também estava se cagando de medo.
Eu gritei:
- Passa por cima motora. Passa por cima que eu já estou pregando, Velho!
Foi assim que o motora atropelou aquele cão dos infernos, numa ré de filme B. Voltamos pra dentro da van e seguimos em frente.
Depois uma mulher entrou na van na entrada do Decouville e desapareceu num passe de mágica, deixando meus dois amigos “com a pulga atrás da ovelha”. Eu fui o único que ainda falou alguma coisa:
- Ulha! A dona escafedeu-se.
Pensei no meu Tio-Avô que era muito chegado em mulata e um dia saiu com uma muito curiosa que depois perguntou transpirante e assediosa, com voz de barítono:
- Tu tá saStifeito? Tu já tá saStisfeito?
- Rér, rêr, é.... eu tô.... já eu tô saStifeito.
- Então agora é a minha vez.
Quando o meu Tio descobriu que era um homem a porrada comeu legal. Mas isso não interessa, depois eu conto mais sobre a figura.
Mas, como o cobrador dizia:
- Não brinca com isso ô do Imperial. Não brinca não que eu tenho é medo de “esprito”. E aquilo era “esprito” do ruim, que pega ônibus e nem paga a passagem.
O motorista era o único pragmático:
- Amanhã eu peço demissão, ah, eu peço!
Uma amiga depois me explicou, numa boa, o que rolou. Mas quer saber? Vamos botar uma pedra que o negócio é sério.
Pois é... eles cumpriram a promessa de me deixar na porta de casa, mesmo se acabando de medo da mulher voltar. Entro e dou de cara com a lembrança daquele telefonema... outro dia de manhã. Preciso pensar em outra coisa.
O amor é uma questão de matemática. Jamais terá seus cem por cento. Apenas porcentagens aceitáveis. E a gente sempre esbarra em quem mereça um pouco de nós: nossos cinco minutos de fama.
O tesão está nas entrelinhas, nas pequenas deixas, nos pequenos silêncios. Mas deixamos a onda passar. Tipo da coisa normal... séria. E o Risco nunca corre um risco verdadeiro. Quanto a mim, estou do lado contrário: prefiro deitar na praia e curtir um bronze ao som de um rock antigo batendo nas ondas - indignas ondas.
Pego a primeira revista que vejo na sala e corro pro banheiro sem notar a falta de papel. Maldita dor de estômago. Sento na privada gelada, abro a revista, vejo a cara da Dilma e começo a pensar no Brasil.
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