quinta-feira, 31 de março de 2011

A REDENÇÃO DO PORTO RECÍPROCO – FIRMAMENTO (de Marcos Salvatore)

by Federico Fellini


Para: Juliana Calonico, com amor. “Minhas mãos são tuas. Minhas, suas luas nuas”.

AR
Quando eu era moleque, uma noite acordei com o barulho de discussão entre os vizinhos, ou melhor, não eram vizinhos, eram marido e mulher. Levantei e fui mijar na ponte – sempre que fico curioso ou com medo me dá uma tremenda vontade de cagar ou mijar, até hoje – a lua raiava gélida, repleta de pedaços de vidro. Foi quando ouvi o barulho de um tapa na cara de alguém e em seguida uma porta se abrindo no final da vila. Era o marido correndo da mulher. Ela carregava um caldeirão ainda fervente de caranguejos (o marido era peixeiro, pedófilo e covarde), ainda deu tempo dele dar dois pulos pra fora de casa, só para escorregar e se esborrachar de cara na vala. Ela se aproximou dando pulinhos frenéticos:
- Filho da puta!
Ele quase não conseguiu gritar quando ela derramou toda a água fervente de caranguejo em suas costas. Ainda tremendo ele a derrubou, alcançou o utensílio doméstico e arrebentou a cabeça da mulher a paneladas. O engraçado é que os dois desmaiaram quase ao mesmo tempo, completamente nus. Fico imaginando a razão da briga, da nudez intolerante a um tapa. Quanto a mim, voltei a dormir.
Não sei porque contei isso. Bom, o fato é que quando contei pra Mazzi ela se mijou todinha de tanto rir. Hum, a Mazzi: ótima fêmea, ótima amiga. Uma mulher de um cinismo machista, essa é a palavra, machista. Fã de Costinha e Ronald Golias. Mas acho que não sei falar sobre isso.
Gostava do meu peito largo e branco, dos sinais que o enfeitavam, minhas mãos. Dos meus ombros abertos e atentos, do meu jeito de mover o pescoço toda vez que me chamava a atenção, do meu sorriso quieto e indulgente. Disse que se tivesse nascido homem gostaria de ter um pau igual ao meu, ficava olhando pra ele enquanto eu dormia. Era comum me acordar com um “bola gato”. Tirou fotos minhas dormindo, das minhas pernas, da minha bunda que ela dizia ser a bunda de homem mais obscena que já tinha visto. Mas minha voz definitivamente era o seu objeto de maior desejo. Me ligava no trabalho só pra me ouvir dizer sacanagens, uma vez uma cliente do banco me pegou falando o seguinte: - “Me deixa enfiar só mais um dedinho, eu sei que cabe”.
Quando passei na prova para a turma de dramaturgia, me deu de presente um grampo de cabelo seu, um grampo simples, barato até, e me disse, banalizando: enquanto você enxergar valor nesse grampo velho, sempre será um homem maravilhoso e sempre fará qualquer mulher feliz.
- Pera lá, virou novela mexicana agora, porra? Um grampo? Faltou a choradeira, não faltou?
- Tem razão. Então enfia o grampo no cu.
Nabuco um dia foi buscá-la, ela desceu as escada com um pouco de porra pendurada o canto da boca. Ela apontou e disse, enquanto eu os observava do terraço: - “Ai amor, tira pra mim esse restinho de maionese?”. Mal pude olhar quando ela a beijou depois dizendo: - “Hum, eles fazem aqui mesmo? Precisa de mais sal.”
Ela nem sempre era esnobe ou cruel. Havia uma disparidade qualquer no seu temperamento, um ponto de fusão gradativo e totalmente fora de lógica. Uma vez eu me atrasei para um encontro na sala de aula. Ela queria fazer amor na mesa da professora, vestida de enfermeira e rabiscando desenhos obscenos. Eu cheguei meia hora depois do combinado e a encontrei aquela enfermeira chorando na última carteira, perdida: - “Fiquei preocupada, nunca mais me deixe assim seu filho da puta, eu... te amo pra cacete, seu merda”.
Foi a única vez que ouvi aquilo e acreditei.
Segurou meu rosto com as mãos e disse com lágrimas de raiva: - “Nunca use isso contra mim, senão eu corto o teu saco e jogo pros urubus comerem. É melhor você me amar, seu palerma”.
FOGO
Dava dinheiro pros meus livros, embora na época eu não precisasse de dinheiro, pois tinha um bom emprego. Ela me comprava roupas descoladas, me ensinava a falar e comer bem. Nabuco sempre soube. Ele a amava mais do que tudo. Eu ainda não sabia que ele era impotente. Nunca entendi muito bem o relacionamento dos dois, mas sempre o considerei um bom sujeito pra ela. Aprendi com a maturidade emocional do Nabuco que o amor é uma questão de matemática e flexibilidade moral.
Mazzi e eu fodíamos por prazer? Não sei. A felicidade nunca tem certeza, é simplesmente concepcional, fragmentada, derivada e original: temporal de chuva com sol. Talvez por não termos mais o que fazer, deixávamos que o dia seguinte decidisse.
- Escuta! A foda é a cura pro existencialismo, paranóia, neura, carência... política escrota.
- Isso é psicologia de banheiro. Não sei se me encaixo nisso, mas te acho cada dia mais gostosa.
- Faça amor, não faça guerra. Só o sexo conquista e se apodera. Guerra é para broxas. Quer conquistar? Então... ame. E enfia no rabo a carência, a culpa, a moral.
- E se eu não for correspondido?
- Bom, não existe esse negócio de amor por correspondência, existe?
Um dia me apaixonei pela Débora, uma aluna de bumbum em forma de coração; me apaixono o tempo inteiro, desde garoto. Mazzi sabia disso. Quando tentei terminar ela sorriu meio assim, mas me deu boa sorte.
- Você é quem sabe, belo. Hã?
Capaz. Estava passando por um corredor com a Débora e a vi subindo as escadas com outro garoto. Levei correndo a Débora para um ponto de ônibus qualquer e voltei como um foguete para o sótão do teatro, ele estava quase em cima dela quando o empurrei e o pus pra correr abaixo de porrada. Ela riu, disse: - “Eu sabia”.
- Você é uma cobra. Eu devia era te dar na cara até sangrar.
- Então vem. Eu quero ver moleque, ou será que ainda não tem um homem aí dentro só pra mim?
A peguei pelos cabelos, dobrei seus ombros e fizemos amor por trás com tanta intensidade que depois ela me agarrou pelas pernas e prometeu nunca mais tentar me fazer ciúmes. Larguei da Débora no dia seguinte.
Uma noite colocamos remédio pra dormir no uísque do Nabuco e ele apagou. Ela queria foder em cima dele, na mesma cama que ele, raspou os pentelhos da boceta e do rabo pra ocasião. Arrastamos o Nabuco da cozinha para o segundo andar da casa. Ela dizia: - “Nós matamos ele, vamos comer ele também”. Foi a única vez que dormimos juntos - eu, ela e o Nabuco claro.
Não contei que ela era viciada em antidepressivos. Na verdade ela nunca ligou para teatro, mas seu psiquiatra os receitou para aliviar o estresse. Ela dizia que o seu remédio era eu.
Gostava de me ouvir lendo pra ela enquanto esperava pela próxima ereção com o meu pau na boca, fazendo trejeitos de cinema mudo, olhinhos de boneca.
Odiava contos eróticos. Preferia os policiais; dizia que sexo é apenas um pau, um cu e uma boceta: - “Pronto, aí está o de sempre”. Contos policiais tinham trama e sexo por todos os lados, morte.
Sempre vidrei em músicas de streep tese. Pedia e ela que tirasse a roupa devagar, muito devagar, queria ficar olhando, curtindo sua pele morena, suas coxas torneadas e sua bunda de mulata que me deixavam sem palavras enquanto dançava pra mim. Seus peitos tinham um quê de pornografia barata, de aluna boqueteira, de secretária cuzeira. Marrons. Brincava com a fartura deles, me sentia um rei.
Mazzi não tinha amigos, nem amigas, apenas a mim e ao Nabuco. Um casal de três: a mulher, o marido complacente e um amante com uma energia agressiva. Uma harmonia perfeita em sua imperfeição. Naquele período eu nem escrevia mais. Estava absorvido por ela. Envolvido naquele trem, naquele troço.
Uma vez me deu um tapa, a sério, quando eu disse que precisava de um tempo só pra mim. Eu não reagi procurei entendê-la e ela disse: - “Você não gosta de mim, só me usa como uma prostitutazinha, se me amasse não me deixaria te humilhar, deveria me dar na cara também. Homem tem que se impor”. Foi aí que começou o fim.
Em relação a violência nunca conheci mulher mais masoquista que a Mazzi. Pedia pra apanhar com desejo e paixão: - “Me dá-lhe, me dá porrada, cara. Soca esse bocetão quente”. E eu comecei a gostar daquilo. Seus hematomas começaram a aparecer e os meus também, pois nossa dependência estava em estágio muito avançado. Ligávamos para prostitutas que topavam e Mazzi era especialmente cruel com elas. Dava de cinto, chinelo, chicote, o que doece com mais intensidade. Humilhava as garotas e até obrigou uma a mijar na sua cara, famosa chuva de ouro, se não quisesse apanhar mais.
Pedi a ela que parasse com aquilo, que pra mim já bastava, mas ela não ouviu, como sempre. Fiquei puto. A menina saiu de lá e tomou providências.
Um dia a polícia apareceu. Foi o Nabuco que me tirou da cadeia. Abafou-se o caso.
Eu era menor de idade e eles se responsabilizaram por mim. Soube depois que o delegado a obrigou a felação para me soltar senão todo mundo ia em cana.
Depois daquilo eu sumi por uns tempos, fugi, tentei viver uma vida normal, mas Mazzi me perseguia aonde eu fosse.
Me procurava pelos bares, fazia escândalos. Envelhecíamos em praça pública.
Meses se passaram. Quase um ano. Eu sabia que ela voltaria aos comprimidos e talvez para a bebida seu vício mais antigo. Imagino aquela mulher lindíssima entrando e saindo de bares e boates, acompanhada por vagabundos de todas as idades, apanhando de cafetões e cafetinas. Sendo roubada. A cocaína foi um próximo degrau.
Fiquei desempregado e mergulhei nas apresentações, passei a morar com o grupo em quitinetes apertados e mal cheirosos, sem água, sem banheiro. Minhas economias me diziam que eu teria que voltar para casa: três mil quilômetros de tudo que eu não queria mais. Quando voltei de algumas apresentações por comida em praças e shoppings alguém me esperava na porta do teatro.
ÁGUA
Nabuco me procurou pra pedir que voltasse senão ela se mataria. Eu disse que não. Ela quando soube fez a única coisa que achou mais digna: tomou vários comprimidos com vodca pra dormir e só acordou no hospital.
- Amor, me perdoa amor. Eu não faço mais, eu juro, mas volta pra mim, não vai embora, senão eu faço uma besteira.
Dizia isso e parava de vez em quando para vomitar num balde ao lado da cama.
- Fico com você, depois volto pra casa.
- Você não tem casa menino. Nunca vai sair de Jundiaí, seu besta. Vai sempre estar aqui.
Olhei pra ela e senti pena, não era nem de longe aquela mulher maravilhosa e cheia de cor que eu conhecera.
Seu estado piorou, pois seus excessos a condenaram. Seu corpo cansou de tantos vícios e abusos. Apenas seus belos olhos castanhos continuavam a lutar pela vida. Até hoje penso que olhos castanhos são subestimados.
Ia ao hospital e lia pra ela. Gostava de histórias de redenção, de honra na luta, de amor recíproco. Gostava de Humberto Eco e me disse que o nome de um de seus personagens me daria sorte um dia se eu voltasse a escrever.
Na noite em que morreu me fez seu último pedido: queria me chupar pela última vez. Me queria dentro dela de novo. Fizemos amor chorando juntos, muito delicadamente. Foi o melhor orgasmo da minha vida.
Atendi a seu pedido, não queria ser lavada depois de morta, queria morrer com meu cheiro em sua pele, com um pouco de mim ainda dentro dela. Me pediu que recitasse “Voz e Coração”, um poema que tinha feito pra ela nos velhos tempos e que adorava o final: - “...eu ando sim, eu ando assim, tão voz e coração”.
Eu o escrevi de presente pra ela na noite em que me apresentei pela primeira vez, na noite do grampo de cabelo. Consegui o papel depois que um garoto se matou. O pai jogou fora sua coleção de Raul Seixas, então ele pirou e bebeu veneno de rato.
Esse poema se perdeu, nunca mais o encontrei, só me lembro do final. Gosto de acreditar que foi ela quem o roubou naquela tarde.
- Seu emburrado, eu sempre te amei, sempre... Baby.
- Não roube a minha fala, Mazzi.
- Está chovendo. (...) Qual o peso da chuva lá fora?
- É o peso que damos a ela.
Tomei sua mão esquerda e disse em seu ouvido o que levei anos e anos para dizer novamente a uma mulher: - “Adeus meu amor, obrigado”.
TERRA
Desço a rua, uma alameda com ladrilhos cor de merda no sereno. Atravesso o carnaval incolor com as mãos nos bolsos da jaqueta jeans, caminho aquilo que chamo de lar, suas ruas estreitas, suas esquinas, longos horizontes de carrinhos de cachorro-quente com batata, pastelarias e caldos de cana, pequenos cinemas, pequenos teatros, sebos, percebo os velhinhos das praças, dos pombos...
Não pude deixar de me sentir um coadjuvante do que vivi. Nunca chorei por ela, só por mim. E o que a vida me ensinou daqueles anos foi a sempre ter um mínimo de fé no ser humano, em qualquer ser humano, que tudo pinta e perde a cor na hora certa. Que sonhar demais atrofia os sentidos. E que a felicidade não é para otários.
Lá fora, pessoas trancando suas portas, olhando pela fresta da janela. Masturbadores do ego, sempre tão preocupados com atenção e afirmação. A embriaguês e a prostituição são reações naturais do viver alquebrado. Aqui fora todos se consomem fora do prazo de validade.
Nabuco, pobre Nabuco. Fechou o teatro e nunca mais alugou o prédio. Nunca mais o vi. Acho que ela também o amava, mas do seu jeito, pois ele cuidava dela, mimava, protegia. Só não pôde protegê-la de si mesma. Ela foi a única mulher de verdade que eu conheci. Não quis menos do que isso. Não quis passar o resto da vida amando mal.
Paguei minhas contas e voltei pra casa com três moedas no bolso. Não produzi nada além de mim mesmo. Embarquei e durante a viagem me senti cada vez mais e mais longe do meu porto seguro, sendo levado em direção ao mar, ao alto mar, depois...
Olhei para o farol e me perguntei: O que viria agora?
Hum, é óbvio. Talvez o infinito. Talvez um cigarro. (...) Ficar na minha e soprar, até a espera terminar.
Então abraço o infinito. Dou um trago depois de gozar na boca de cada reticência. Mas a pergunta continua lá:
- O que vem depois da terra?
FIM.


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