quinta-feira, 25 de agosto de 2011

VERMUTE - 1º Quadro (de Marcos Salvatore)


Trilha Sonora: O Dizer das coisas, Iva Rothe, Não vale a pena, Maria Rita; Me deixas louca, Elis Regina.
In Memorian: Perfídia
Peça em um ato e sete quadros

Personagens:
Jacqueline (27 anos) interpretada por um homem
Caio (37 anos) interpretado por uma mulher

1º QUADRO

Cenário: Quarto destruído - uma cama, um criado mudo, um abajur, um aparelho de som, discos em vinil, livros pelo chão, uma privada e uma banheira, mini bar.

Jacqueline embaixo do abajur olha fixamente para a plateia, inexpressiva. Liga e desliga o abajur sobre ela. Sobre a cama o corpo violentado e sem vida de Caio. Ações lentas, palavras bem pronunciadas, embora ela manque um pouco. Rigidez cênica. Exercício da sexualidade na estrutura de dança. Excentricidade, excesso delicado.
Olha para os lados, tranquila, distante. Espreguiça-se com um sorriso infantil. Levanta-se para preparar um Dry Martini. Antes põe na vitrola, “Me deixas louca”. Depois da bebida pronta, olha sinistramente para a plateia, aproxima-se da ribalta e diz tremendo, com um olhar afetuoso:

JACQUELINE - Saúde.

Murmurando, quase num cochicho.

JACQUELINE - Devem estar se perguntando por que a peça está começando pelo final, né?

Tímida, como uma criança se sentindo culpada.

JACQUELINE - Não queria que pensassem mal de mim. Não queria fazer isso – aponta para o corpo de Caio, eu juro – subitamente violenta, mas quando me tiram do sério, eu.... fico meio louca, não sei. (carinhosa, atenciosa, conselheira) Acho que toda mulher é meio louca, meio assassina de si mesma. Todas dizem: -”Tá pensando que eu sou doida?”. Eu também dizia isso... mas agora.... cala-te boca.

Vira a bebida de uma só vez.

JACQUELINE - Opa, acho que eu preciso de outro. (ao passar pelo corpo de Caio faz uma transição inatural para a plateia) Estou começando pelo final (ao mesmo tempo que fala encanta-se com a música) porque quero ter o prazer de (sofrida e eufórica, quase assustada) matar esse filho da puta uma segunda vez. (contemplativa) Não me chupava mais, não me beijava mais, só me fodia por trás, sempre por trás, (rancorosa) bêbado e gemia grosso, grosso, como um boi. (ofegante) Até uma prostituta merece mais do que isso. (erguendo a bebida como se fosse a cabeça de João Batista) Depois saia de cima e mandava eu pegar um Dry Martini. (abandono) Nem me abraçava, nem me cobria, nem me... chamava pelo nome. (sussurrando como que para outra mulher) Mas na rua eu sei, ah como eu sei, que ele fazia de tudo.

Sai dançando pelo palco, se assusta com a presença do criado mudo. Volta para baixo do abajur. Continua a ligar e desligar a luz. Volta a se tornar inexpressível.

JACQUELINE - A morte não separa, só o desamor. O sexo é apenas um atalho. (espantada) Acho que foi ontem à noite que ele chegou fedendo a bebiba, com aquele bafo de buceta azeda. Virou pra mim e disse, com aquela cara de rato, dele:

Atores falam juntos, inexpressivelmente.

JACQUELINE - Faz olhinho de boneca, faz?

Olhar diabólico de Jaqueline para a plateia, final da música, sorriso nervoso, silêncio por dois segundos, falsidade preguiçosa, erótica, felina.

JACQUELINE - Ai, amor.

FIM DO PRIMEIRO QUADRO
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