segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A BAIXA DA ÉGUA – Farsa agridoce (de Marcos Salvatore)

by Helmut Newton

Voltou do banheiro tropeçando nas cadeiras: enfiava a camisa pra dentro da calça, arrastava os pés e gemia:
- Mato-fino, essa mulher bagunçou meu coração!
Mato-fino sou eu, meu apelido – não vou entrar em detalhes. O fato é que o Gado de vez em quando entrava pelo cano com mulher. Dessa vez foi a Roma: morena de olhos castanhos claros e o bumbum mais durinho do bairro. Eles se amavam com loucura, mas, de vez em quando ele pegava a Roma com outra mulher. Deu pra sacar o problema?
Palavras amargas me encantam - Sempre vem do coração (presumo que sim): Você sai pra encontrar alguém e acaba se encontrando por engano. Então desabafa. Foi assim com o Gado e a Roma, ou por extenso, Gundisalvo e Romualda.
Conheci o Gado na época em que ele se encontrava às escondidas com uma coroa com problemas de visão. A galera suspeitava, bisbilhotava, mas ninguém provava. Uma noite resolvi espionar de cima da árvore que ficava em frente ao portão do quintal. Toda noite o sabido entrava sorrateiro pelos fundos, passava lá uma, duas horas e depois ia embora com a cara toda lambida. Uma noite, eu esperei um pouco mais e quando ele saiu com aquela cara de rato, eu disse, bem baixinho:
- Ei, pxi! Fala Gado-enraba-cega!
Quase pego porrada do Gado. Mas era um sujeito de bom coração, caímos na risada. E toda vez que o via dizia: “Fala Gado”. Ficou sendo o nosso segredo de irmãos. E foi assim que eu descobri o quanto era complicada a vida amorosa do meu amigo. Seus desejos e gostos beiravam o animalesco. Até que conheceu a Roma, que também era uma figura e tanto: tinha sido vendedora de q-boa, frentista, enfermeira, professora, massagista, hippie e por aí vai. Seu último emprego tinha sido de vendedora de perfume. Nunca ficava nos empregos porque acabava sempre quebrando um nariz, um braço, uma perna de alguém. Uma Billie Holliday, com melhores modos.
O Gado conta que estava em casa quando bateram na porta, digo, num apartamento alugado no centro da cidade. Era um domingo. Hora do jogo. Nessa época não dava mais pra disfarçar. Toda vez que se jogava de cabeça no amor, invariavelmente cruzava com as figuras mais estranhas: neuróticas, coisinhas fofas, coroas enxutas, engomadas, professoras, funcionárias públicas, ninfetas arrasadas, loucas por festas e proteção material. Imaterial era o sentimento sem laços que oferecia a elas, tinha um papo que puta que o pariu... e dava certo:
- Acho que amanhã à noite entraremos num desses bares cheios de fumaça partidária, ficaremos o suficiente para se desembaraçar do embaraço de ter que decidir ser de esquerda ou de direita... Pergunto apenas: onde tomaremos o café, pela manhã?
Conheceram-se assim, numa festa, numa boate. Ficaram juntos por pura falta do que fazer. Fim de semana fraco, acho. Ninguém lembra direito, afinal, o sexo é uma questão de múltipla escolha. Sempre cai quando não estamos preparados para provar do amor. E estava por toda a parte, não significava nada. O amor é um inferno com brisa. Competimos para ver quem se joga com mais força. E condenamos para que não saibam que estamos condenados.
Eu estava lá, ouvindo calado (como sempre) as atrocidades de uma amiga que é doida pra me amar, mas não tem coragem de admitir. Por isso, se sente melhor me ferindo. Mas isso é outra história. Sou um alvo fácil por que só penso em sacanagem, o tempo todo.
- Por que não vai pra casa? Está um trapo.
- E deixar o purgatório só pra vocês? Não, sou um bom cristão, me sacrifico pelas almas alheias que sempre pagam a “saidera”.
Como as pessoas conseguiriam se ver com todo essa fumaça na frente?
E, aqui estamos. E, música, bebida. E, você não liga, não manda mensagens, nem posta novos comentários nas redes sociais: tudo tão previsível, infalível. É tudo tão rápido. Tão descartável. Sabemos dizer quando algo nos faz falta, nunca quando temos tudo o que se precisa ter.
Cada um tem seu momento, e estar no momento é tudo na vida. Foi o caso deles, que se amaram tanto (até hoje). No último telefonema (que não seria o último) sua voz, já sem expressão apenas reprisava na tentativa de enrolar a figura:
- Pra cada centavo que você ganha, alguém tem que pagar. Não me procure mais, sou mau negócio pra você. Preciso de espaço. Você foi a melhor coisa que eu tive. Um dia escreverei sobre os seus olhos e tal.
Não queria realmente se ver livre dela, só não queria se sentir tão preso a ela. Escolheu o caminho mais prático. Repetia frases decoradas. Uma coletânea dos clichês utilizados nos piores foras da sua vida. Aquele atrevimento deveria dar certo.
- Se a saúde mental do mundo dependesse de nós, haveria uma outra proposta, cacete. Posso te visitar? Não vai ter problema. Se fizer qualquer coisa que te chateie, pode me sentar a mão. Sou uma mulher madura, sei exatamente o que fazer para ser presa nesse país. Sei até como iniciar uma passeata. Se chupar um pau ou uma boceta, engulo a porra toda. Enrolar baseado é comigo mesma.
- A promessa é o sexo. Não é? Não bateria em você, não mais. Só quer o meu pau pra se completar. Você tem buracos demais. Não quero perder nosso tempo me perdendo de propósito. Sei que gosta quando fervo a noite na mesma colher do café de amanhã.
E os papos eram assim. Quero que entendam que, desde o início, o lance nunca teve muito sentido. Era tudo muito irreal entre esses dois. Mas sei que sempre se amarraram. Eles se subentendiam por códigos. Era um olhar, um frisar de sobrancelhas, um suspiro mais ralo, mais fundo. Até que um dia o Gado se cansou e resolveu dar um pé na bunda da Roma. Ela não gostou nem um pouco. Aprontou vários escândalos pelos bares da cidade.
Novo e-mail, baby. Propaganda, sem comentários. Não perca tempo na fila para comprar uma nova blusinha na promoção, compre com cartão, virtualmente.
- Não era eu. Até pensei em escrever, mas, pensar em você me faz rimar tudo errado. Não paga a noite mal dormida, nem a merenda da tarde.
- Eu fico se você também ficar. Estaria de pau duro, se também tivesse um pau. Sou sua, não me jogue fora, por favor, senão eu vou até aí e jogo uma bomba no teu prédio. Eu sou louca, hein? Louca!
O Gado sempre gostou de colocar as gatas prenhas no meio dos pombos e ratos. Então se saiu com esta:
- Está blefando, como sempre.
- É? Lavei meu rosto com a mesma água que limpei suas feridas e agora você me vem com essa?
Ela foi. Precisava pagar pela saída do blefe. Mas não levou uma bomba. Consigo trouxe uma lata de tinta vermelha. Entrou no bloco B, elevador, corredor. Limitou-se a mijar nos vasos de planta e pintar nas paredes frases de agressão passional: “frouxo”, “covarde”, “broxeiro” e etc, etc, e, é claro, etc.
Os vizinhos, ao vê-la chorando, saíram em sua defesa antes de chamarem a polícia.
- Culpa desse filho da puta, senhora. Sou uma mulher seduzida e abandonada, não conheço ninguém, não tenho onde ficar. Ele quer que eu faça um aborto. Quero voltar pro interior. – tudo mentira, tudo mentira.
- Minha filha! Coitadiha.
- Diz pra ele sair, tia, diz. Só quero falar com ele.
Chega um policial.
Bate na porta com o cano do trinta e oito.
- Ô, cidadão. Como é? “Vamo” lá. Se não abrir, vou ter que arrombar.
E o corredor se entupiu com vizinhos de todas as idades, profissões, credos e cores. Estava rolando até um sambinha no 1707. Mandaram buscar meia grade de cervejas, pizzas. Dona Bacia do 1708 prometeu até fazer um sopão pra moçada de plantão. Mais gente chegava, subia, descia. Um senhor aproveitou para distribuir umas bíblias do Novo Testamento. Teve até briga por causa de uma mulata e uma loira de parar o trânsito, que se estranharam por causa do policial.
Dona Joinha, que viajava fiado com todos os taxistas, fazia a unha e o cabelo quando soube da “fuzaca” no vigésimo andar. Não pensou duas vezes: subiu de escadas mesmo, com algodão entre os dedos e já pegou um lugar na arquibancada. Os elevadores estavam congestionados.
Dentro do apartamento, o Gado se limitava a roer as unhas até tirar sangue e pensar no quanto a Roma era doida varrida. Seu medo era o de ser linchado. Fumava um cigarro atrás do outro. Ouvia os insultos do lado de fora, indignado. Seu estômago resolveu tomar uma atitude e o repreendeu com uma violenta diarreia moral. Correu para a privada.
Seu Natal, flamenguista doente, sai do 1705 de sandálias, reclamando, meias, short sem cueca e camisa do time, muito invocado porque não conseguia ouvir o jogo pelo radinho AM. Tenta improvisar ofensas perfeitas para a ocasião:
- Esse tricolor sempre apronta. Tem mulher diferente toda semana, aí. É gigolô, um cachorro sem vergonha.
Sua mulher, dona Berna, evangélica e fluminense categórica, sai em defesa do vizinho, companheiro de torcida. Era daquelas que põe tudo dentro do sutiã: dinheiro, cigarros, fósforos, chaves...
- Entra “pá” dentro, Natal. “Num” te mete, senão eu conto, já, já, das tuas “impigi” no saco.
Seu Natal pega o jornal e sai de cabeça baixa, ao som de “Coisinha do Pai”. O policial, que já estava aborrecido, resolve dar uma última oportunidade para o rapaz.
- É o seguinte, meu filho. Melhor abrir e resolver essa merda, senão vou ter que pedir reforço e invadir. Vou contar até três. Um... dois...
A porta se abre e os dois pombinhos, de uma forma espetacular e imprevisível, caem nos braços um do outro. Rama só faltou fazer uma gulosa no Gado ali mesmo, na frente de todos. Os vizinhos iam vaiar, mas taparam os narizes por causa do cheiro; maior correria pra dentro de casa:
- Uhhhishibuuuu!!!!!
Dona Berna, sem entender nada, só conseguiu gemer baixinho: - “puta que pariu”. Sentado num degrau das escadas, seu Natal, grita, gargalhando: - Num falei? Eu disse que era só cachorrada desses dois. “Mas quando? Deixa de pavulagem, porcaria”.
Não digo que viveram felizes para sempre por uma questão de artifício, mas acho que nenhum dos dois estava pronto para enfrentar uma nova rejeição, então, resolveram daquela forma. Acho que souberam lidar com aquilo. Estão por aí, cruzo com eles de vez em quando, sempre quebrando o pau. Resolveram não esperar pela alma gêmea que sempre promete vir mais tarde... não é?
(...)
Não é?


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...