quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

NO BRASIL NINGUÉM PASSA FOME (de Marcos Salvatore)

by Arthur Fellig Weegee
- Me veja um misto-quente e um café com leite.
- Pão de forma ou pão francês?
- O que parecer mais demorado de comer. Não importa a nacionalidade.
- Pão francês.
- Mercy, tia.
Me deu o troco, um papelzinho e me mandou pro balcão. Enquanto eu esperava pelo café, ficava vendo as caras que atravessavam a esquina da Rui com Zé Malcher. Uma velhinha com a coluna encurvada, talvez pela idade, talvez por preguiça de levantar, um cachorro dando um mijão no pé da árvore, uma morena par-de-rabo vindo, uma loirinha tetas-de-mel; comeria as duas juntas, a morena por trás, enquanto chupava vigorosamente a florzinha rosada da loirinha de uns dezoito anos, a morena tinha a idade certa: idade de dar depois tirar. Ah, meu irmão, a mulherada de hoje já nasce sabendo... mas depois esquece, e é aí que a gente entra. Tive uma namorada que só gozava dando da bunda. Na hora H sempre dizia, sôfrega, maternal: - “Huummmmmm! Meu filho!”.
Encontros e desencontros nas esquinas escorregadias de Belém fazem parte do nosso cotidiano; segundas intenções, lembranças da Radio Cidade e a perda de identidade, claro. É pena, pois esta é uma gente que luta dia após dia por um lugar ao sol, antes ou depois da chuva. Uma maniçoba só não mata nunca a nossa fome.
Atravessei a Rui Barbosa, atrasado como sempre. Acendi um cigarro meio atrapalhado (como sempre, porra!). Primeira esquina, segunda esquina, outro cigarro (eu fumo rápido, penso rápido), cruzo com pessoas que manjo de todos os dias. Uma magrela de óculos passa por mim, olha para o volume do meu pau na calça, depois para os meus olhos, sua bundinha seca vira a cara, toda metidinha e faz: - "Hum, eu hein!". Essa com certeza deve ser daquelas que pagaria tranquilamente uns mil contos para ver um show do Chico só para dizer, serelepe, depois: - "Eu vi um show do Chico".
Quase chegando no Can, perto da igreja, vejo um cara comendo rango amanhecido numa lata de lixo, passo adiante, mas volto. Somente um homem de coração em estado bruto faria aquilo. Pensei no Carnaval, na magrelinha altiva que me negou um sorriso, na anti subversão de uma geração inteira de enlatados, nos meus probleminhas masturbantes... pensei em tanta coisa. Uma vontade absurda de me juntar àquele sujeito e rachar um pedaço de pizza mofada pareceu uma boa idéia no momento. Não tive chance de me defender e minha única saída foi me tornar um igual. Cheguei junto e apenas disse:
- Tome aqui amigão, compra um café com pão, um misto-quente... tem o bastante até pra almoçar se você der uma regrada.
- Não preciso, eu tenho tudo aqui mesmo.
E coçando a barba suja dos restos de macarrão e ovo me disse a primeira verdade daquele dia:
- No Brasil, ninguém passa fome. Tá tudo aí, é só pegar.
Achei uma graça verde  e amarela da teoria do sujeito..
- Tá, mas, pega, aí. É só uma forcinha, Brother. Você faria o mesmo por mim.
- O Sehor é quem sabe, mas, fique sabendo que vou acabar comprando muita cachaça com essa onça (um cavalheiro, não acham?).
- Eu também.
Caminhei para o trabalho sem perceber, durante todo o percurso, o chuvisco carinhoso que caía. Formava pequenos arco-íris em contato com os lampejos de sol dos meus cílios castanhos. Já não estava mais triste pela magrela ter me esnobado - ela que se foda com o osso do pescoço!
A segunda verdade do dia foi que a Tia Berê, que só tem dois dentinhos na boca e é um amor de pessoa (me pediu para incluí-la no texto dando pulinhos), me pegou bebendo água na boca da garrafa quando entrou na cozinha do trabalho. Eu parei com a garrafa no ar, na boca e quase me engasguei quando ela disse:
- Tudo bem “Seu” Salvatore, eu também só sei beber assim.
Dessa vez não teve graça.
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