segunda-feira, 16 de abril de 2012

COMO A CHUVA MOLHA (de Marcos Salvatore)


O primeiro beijo os impressionou. Lembravam-se disso quando acordavam assustados e procuravam o corpo um do outro para se agarrar. Não havia música de fundo, nem paisagem de filme. Tudo que existia era um ônibus lotado numa avenida congestionada e a necessidade de se encontrar um melhor lugar para suportar as próximas duas horas de lento percurso.
O úmido calor o fez cochilar enquanto ouvia um senhor, que estava em pé, contar uma pequena história de infância à sua filha, que estava sentada e segurava alguns embrulhos:
- Seu Baiano, quando bebia, voltava para casa com os bolsos cheios de bombons para a molecada da rua. Lá vinha ele cantando o hino da bandeira: - “Salve o lindo pendor da esperança...”.
Antes de pegar no sono, ainda houve a garotinha rindo. Aquilo fez a ele um bem enorme.
A grande beleza das pequenas coisas, falamos delas sem contar com os sorrisos de alegria alheia. É como se nossas tristezas ocupassem todos os pontos de partida das possibilidades transformadoras.
O ponto mais alto até este momento foi quando, pouco antes, um grupo de bolivianos entrou no ônibus para tocar algumas músicas folclóricas. Passaram o chapéu e desceram uns dois ou três pontos adiante. Foi quando ela entrou.
Atravessou, com um sorriso discreto, todo o corredor lotado e apesar do olhar austero, poderia se notar nela um tipo muito raro de sobriedade feminina, algo que somente uma mulher madura traria no semblante, a beleza.
Ele estava na janela, onde sempre ficava, pois gostava de janelas molhadas de chuva, mal notou quando ela, num movimento ágil, se sentou ao seu lado, passando à frente de um senhor que olhou para ela com um ódio impotente. Carregava consigo um exemplar amarelado de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Fechou os olhos sem notar o olhar atencioso que ela deu ao seu Menina Sem Estrela, de Nelson Rodrigues, livro predileto, daqueles que fazia questão de assinar com nome e telefone para o caso de esquecê-lo em algum lugar.
Sonhou primeiro com o cheiro de café com pão e manteiga e com o som da rádio AM que sua avó ouvia todos os dias de manhã, era a deixa para se levantar e se arrumar ouvindo o horóscopo diário:
- Levanta! Te esperta que já tá em Libra. Desconjuro!
Entre um signo e outro entrava o Manolo Otero cantando Vuevo a Ti.
Acordou como o choro da moça ao seu lado, falando ao telefone:
- Bebi demais. Passei a noite inteira pedindo cigarro pra todo mundo. No final da noite tinha uma carteira cheia deles, de diversas marcas. Não consegui fumar nem um e agora tudo que eu queria era dar uma tragada, um tapinha só. Meu Deus, eu preciso, eu preciso... aquele filho da puta!
Uma senhora de pernas cabeludas, que estava em pé e dava o peito generoso para o filho de uns cinco anos, comenta com o marido constrangido: - “Hum, mas assim...”.
Novamente ele adormece e automaticamente sente o gosto de vinho preferido, vinho com Beethoven e sexo tântrico. Permanece assim até a entrada do seu pior pesadelo: desde pequeno sonhava com cães o perseguindo para destroçar o seu corpo. Corria, corria...
Acordou mergulhado num suor gelado e com a respiração aos rasgos. Assim que olhou para ela, seus olhares se encontraram e ele teve medo, medo de correr para sempre.
Foi então que, muito decididamente, agarrou o rosto daquela desconhecida com poder e a beijou como se sua vida dependesse disso, sem preparação de saber o que revolve ou arrebenta um coração. Apertou suas coxas muito delicadamente, deslizando os dedos em direção ao joelho depois no caminho inverso, isso fez com que ela desse um suspiro nervoso e cravasse algumas unhas em seu braço.
Entre comovida e indignada ela não teve reação ao vê-lo levantar e, subitamente consciente, correr em direção à saída, fugindo com mais de mil palavras não ditas, deixando seu livro estrelado para trás.

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