sexta-feira, 22 de junho de 2012

ACORDE MAIOR (de Marcos Salvatore)


by Irving Penn

Precisava de um som. Então, abri a janela e olhei para a cidade. Ainda estava lá. Não se esqueceu de estar.  Vigésimo andar. No playground alguém toca gaita, “almost blue”, do Chet Baker. Num tom completamente estranho. Não resisto, desço. Ninguém lá. A música continua, atravessa a rua. Sobe a Carlos Gomes. Insiste que eu a acompanhe. Maior toró em pleno corredor verde. Corro. Quase escorrego numa casca de manga. Existia um coreto em plena Praça Santuário, penso nisso antes do sinal da cruz. Às vezes também sou um agnóstico não praticante, coisa de avó.
Belém é uma cidade delirante no Círio: tem hotéis, motéis, templos, puteiros, ensino médio, botecos, passeatas, boates, carnaval e... igrejas, com seus padres e freiras famintos de amor para dar. Ah, também (aqui entraria um trompete) tem outdoors espalhados por toda a cidade parabenizando seus políticos pelo aniversário (aqui, palmas). Ou seja: estamos aqui, não estamos? Quase dezenove horas.
Sabe, a gente olha esse lugar e pensa: - Belém são as pessoas. E é isso, cara. Ficamos por causa das pessoas. Até as mangueiras são como pessoas que nós conhecemos, sabemos. E a chuva é... o nosso jazz. Toda lembrança é nossa última casa.
E eu estava lá, na Basílica, esperando a chuva passar. Olhava para o céu, para o Centro Arquitetônico, assoviando os primeiros acordes de “New York, New York”, pensando nos olhos tristonhos da Liza Minelli, quando olho pra dentro e vejo o Toronagá, sentadinho, todo piedoso, batucando seu sambinha no banco da igreja. Vou até ele e pergunto, na maior: - “Como é, Toronagá? Tá aí, na reza, mesmo?”.
Preciso dar um parágrafo pro amigo. Eu conheci o Toronagá no mesmo dia em que vi sua mulher quebrando uma cadeira nas costas do infeliz. Ele era dono de um restaurante, e era casado com uma maranhense “boca de ferro”, chamada Roxita, mas ele só chamava ela de Micomi. Puro xodó de cu do japonês. O fato é que a Micomi o destratava de todas as maneiras possíveis (e impossíveis), na frente de todos e por qualquer coisa. Uma noite ele pegou a cabocla “fazendo a barba” de um taxista baixinho e barbudo que tinha um apelido engraçado de “Puí”, só era conhecido como “Puí”. E não deu outra: deu umas boas “cabomgadas” no chofeur e partiu pra cima da Micomi que nessa hora se alterou - pegou um banco velho e saiu correndo atrás do Toronagá, praticamente pelada, (seus peitos caídos batiam em seu queixo enquanto corria). Correu atrás dele até, mais ou menos, os fundos da basílica. Chegando lá aconteceu o seguinte: Toronagá, de costas para Micomi, ainda corria quando ela lançou a cadeira e a câmera lenta fez o resto. Ele ficou ali mesmo estirado na escadaria, todo quebrado, por um bom tempo. Depois teve polícia e o escambau. Mas o fato é que quando recobrou os sentidos, Toronagá não era mais o mesmo. Dispensou o boletim de ocorrência, dispensou a polícia e voltou para casa, chegando lá (nisso todos estávamos lá, é claro, inclusive eu, que sou pouco fofoqueiro) ele chamou por ela três vezes. Nada. Provavelmente tinha fugido com o Puí. Ele então se vira para todos e diz triunfante: - Tô livre. O restaurante é de vocês. De hoje em diante eu moro na rua.
Foi a maior boca livre da paróquia, acho que até o padre da basílica apareceu pra comer um suchi com uísque paraguaio. No dia seguinte procuraram a embalagem de maionese e não encontraram.
Quanto ao Toronagá, pobre Toronagá, vagou um pouco por aí. Hoje vive de bicos, favores, uns aqui, outros ali. Nunca mais foi o mesmo. Virou cachaceiro mal amado. Sempre chora quando ouve “Xapuri do Amazonas”, da Nazaré Pereira. Caso sério, brôu.
- Tô esperando uma dona que vai me pagar trinta reais por segurar o lugar dela pra novena. Tô a fim de tomar uma. Te convido, tu. Mas aquela filha da puta parece que não vem.
- Fala direito, porra. Não, obrigado, meu grande. Toma aqui uns dez pelo sambinha pé-de-chinelo. Vê se reza um pouco. - Esqueci que o Toronagá era budista. Imagina, um budista manguaceiro e chorão.
Bom, a chuva passou e do lado de fora sinto alguém me tocar a perna direita com um guarda chuva. Era o Seu Zézinho, o ceguinho. Na sua placa estava escrito “Deus ceja lovado”. Gostei do erro. Tinha um quê de ingenuidade proposital, de anárquico-religioso; lembrava cerveja.
- Qual é a de hoje, Seu Zézinho?
- A “par de rabo” veio hoje, mas já foi embora. Uma freira com aquele rabo tem muito que confessar, não acha?
- Não acho nada, Seu Zé. Só acho que o senhor anda enxergando demais. Toma aqui, ainda tem uns dez cigarros.
- E o do troco? Tenho rezado pelo senhor. Vai ser hoje.
- É “mermo”, é? Tó, seu ceguinho morto de safado. Eh, eh, eh...
- Te abençoe, meu filho.
Seu Zézinho nem sempre foi cego. Era galanteador, lírico, recitava versos pras meninas. Uma das tantas versões que conta é que ficou cego por causa de uma puta que ele enamorava e um dia cismou em “xixar” na cara do velho. Ela tinha bebido o dia inteiro e então o jato quente e ácido proveniente de tanta cerveja, vinho e cachaça, cegou o pobre definitivamente.
Aquele “te abençoe”, me fez um bem do cacete. O velho sempre me emocionou e eu nunca soube dizer o por quê. Nossas conversas são sempre assim, meio sem noção, rápidas. Divertidas. Imagino aquele velhinho sacana como um rei, sim, um maldito rei destronado. Pai de todos, irmão de todos, mas vagabundo por opção, desejo e vocação. Do seu reino só sobraram a hemorroida fiel e aquele guarda-chuva fedido. Mas se Deus existir, e eu acredito, se ele existir, espero que olhe por aquele filho-da-mãe genial, pelo amor da puta merda. Seu Zézinho.
Ponto de ônibus. Sinto falta de algo. Era o meu cigarro. Fico aflito, incomodado, chateado. A ansiedade não me dá escolha, então compro uma pipoca com bastante sal e manteiga. Foi jogo rápido: mastigava e pensava no tesão que eu sentia toda vez que encontrava uma mulher de óculos. Lá vem o Canudos-Praça Amazonas. Entro, pago com meia. O cobrador fica puto quando vê a minha cara de pilantra. Sento perto da janela. Uns dois pontos depois, sobe a Deusamor: coroa “par de rabo”, cheia de sei-lá-o-quê que toda mulher devia ter, evangélica, casada com pastor, contralto de coral, e etc., etc. e é claro, todos os outros eteceteras que uma mulher maravilhosa deve ter debaixo daquele vestidinho colado na pele. Olha pra mim, sorri pra mim e eu me arrepio todo, cabeça, tronco e membro grosso. Senta ao meu lado e eu fico que nem uma égua. (cê tá pensando que eu sou loki, bicho?)
- Quanto tempo am?
Não, não escrevi errado, não. Ela falava sempre assim comigo. Dizia tudo terminando em “am”. Falava e depois olhava pra mim... por cima dos óculos. (calma, homem!)
- Pois é. Que loucura, né? (ô animal!!)
- Ando tão triste am, Éder am. (meu nome é Eder, mas ela pode me chamar do que quiser que eu vou)
- Mas o que houve, me conta? Se abre, faz bem se abrir. (ô besta quadrada!)
- Meu marido am, está com câncer vai morrer am. O médico diz am que não passa de tantas semanas am – Pega o lencinho e começa a se assuar. A coriza era evidente, amarela, eloquente.
Tenho medo que ela me pegue olhando pro decote, ou me suje com um espirro. Fico mudo. Conhecia o marido. Quantas vezes não tinha comparecido para o culto só pra ver aquela mulher deliciosa cantar? Acontece que nesse minuto uma ventania invade o ônibus e um cisco entra no meu olho. Tentando tirar o dito cujo do olho eu coço os olhos e acabo piorando a situação pois minhas mãos estavam sujas de sal e manteiga. Foi uma merda. O sal nos olhos, associado ao cisco, me fizeram chorar que nem um filho do caralho. As lágrimas caíam e ela se compadeceu de mim. Tadinho de mim. (hum, i love your pussy, baby!) Parecia o início de um filme pornô dos anos 70.
- Éder am, eu não sabia am que você gostava dele tanto assim am. Calma am, calma am, vem cá am.
Aí é que eu chorava mais (mau caráter!!), caprichava cada vez que a Deusamor me abraçava e encostava aqueles peitinhos cantantes em mim. Ficamos lá, chorando juntos a futura morte do marido.
Não me lembro de tudo, só sei que a história terminou no Motel, espero não ficar cego.


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