domingo, 13 de janeiro de 2013

LIXO FOI UM DIA... (de Marcos Salvatore)



Correndo na Almirante, atrás de um telefone público que funcionasse. Todos quebrados. Ele corre um pouco mais antes de se abrigar da chuva no ponto do Instituto Evandro Chagas. Madrugada de segunda para terça. Foi quando ela saiu detrás de qualquer coisa. Usava um lenço florido no cabelo. Sapatos ouro velho. Camisola de Cleópatra.

- Sei de um telefone que funciona. Não fica longe. Posso te levar.

Apontou para um fusca azul, conversível, parado mais adiante.

- O quê?

- Te vi correndo, louco, atrás de um orelhão que prestasse. Mas estão todos quebrados não é?

- Ainda tem aquele, perto do portão.

- Também não vai adiantar. Quebrei antes de tu chegares aqui.

- Por que fizeste isto?

- Tu não adivinhas?

(...)

Algumas horas depois, enquanto aquela vadia passava por uma lavagem estomacal, antes do seu depoimento sobre o estado do corpo do marido, que se enforcou com o fio do ferro elétrico, depois de pagar para ficar olhando, encontrou um telefone público que ligava de graça – no Pronto Socorro. Quis acreditar que, dessa vez, alguém atenderia.
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