quarta-feira, 8 de julho de 2015

NEM SOU MAIS ZEUS



"Tarde à beça", ele pensou, ao dobrar a esquina de Quintino e Zé Malcher. Não tinha medo de ladrões, nem de assombrações. Pela noite, à caminho de casa, só lhe doíam os pés. Sua pesada cabeça martelava uma canção lateral que se estendia sem cortes. Tossiu mais umas duas ou três vezes: -"Sangue, meu sangue!". Mais alguns passos até se deitar sobre aquele papelão encontrado por sorte - muita sorte -, após a mudança de alguém. Precisava de perdão para morrer. A própria fome não doía mais. Entre os dois havia se estabelecido uma triste amizade (conversava com ela). Um caminhão de lixo. O embalo pela descida até a República. Correu o mais que pode. Não sentiria. Continuou até a frente do Palacete Bolonha. Sem testemunhas. Não sentiria nada. Restava uma dúvida: "Me jogo de frente ou de costas?". Não olharia para o motorista. Sua timidez o impediria. O caminhão. A descida da rua. Lembrou do filme Corrida Contra o Destino. "Ah, um último cigarro...". Mas não aconteceu nada. Escorregou sobre a sola do sapato, que se descolou repentinamente. Rolou, ladeira abaixo, indo parar, de cara, numa sacola de supermercado aberta, cheia de panos de bode. Um cachorro, que mastigava, entusiasmado, um dos ditos absorventes, não gostou nada daquilo.
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