quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O SOPRO DO LOBO DOS PORCOS (de Marcos Salvatore)



J.P. Witkin

O primeiro canto do galo me encontrou já saciado de amor primal, já satisfeito de gozo antropofágico. A culpa é do perdão. Eu existo abandonado pela matilha, sem irmão, sem nenhum.
Sexta-feira, 21 horas. Concluo que as chances de ter dado meia volta, se perderam logo na entrada, quando percebi que uma mulher como aquela só poderia ser o presságio de uma noite deliciosa. Seu jeito vulgar e visivelmente cruel me dava água na boca, me deixava faminto. Posso até garantir que olhar para ela já era um pouco do seu sabor.
Minha auto-indulgência faz de mim alguém parecido comigo, caído sobre mim. Meus distúrbios já me fizeram dormir em diversos tipos de chão e camas; aninhado em meus próprios pêlos, perdido em pensamentos coagulados. Por outro lado, eu sou o que sou. A capacidade ou maldição de ser o que se é nos retorna para a certeza principal: a fome é a vida real.
Quando entrou, ela tocou no meu ombro e pediu um cigarro, senti o perfume de seus peitos influentes em contraste com camadas de outras mãos de odores. Seus cabelos, cor de framboesa, me faziam lembrar coisas que gostaria de não pensar naquele momento delicado.
- Essa marca é meio vagabunda, por que não compra outra? A diferença de preço deve ser pequena.
- Não ligo pra diferenças, contanto que me permitam soprar a fumaça.
- Espere, vamos acender como num filme. Ponha o seu cigarro na boca.
Aproximou-se do meu rosto, acendeu seu cigarro no meu, que ainda estava na boca. Cigarro no cigarro, boca com boca. Meu coração batia forte, foi como um primeiro beijo filtrado por impurezas que te deixam careca antes de morrer.
Afastou-se, brincou com a fumaça no ar. Gostou das pinturas nas paredes, da música, da bebida. Sempre falava após um trago.
- Sabe quem me ensinou a fumar? Ninguém. Aos dezessete eu não dizia nem palavrão, mas fumava apaixonadamente, aprendi sozinha, com os filmes. Fumava escondido. Puxava, puxava, depois soprava. Ah, meu primeiro trago foi como um orgasmo, como um baseado antes de um baseado.
- A primeira a gente nunca esquece. Certo?
- Humhum. Reconheci sua voz no telefone, sabia que era você. Torcia pra que fosse.
- Mas, eu nunca digo nada quando ligo. Precisei tomar coragem, ter certeza. Não queria perder a chance de ter você para o jantar.
- Que romântico, viu só? Descobri, pronto. Tenho uma intuição para pessoas, todo tipo de pessoa. Minha mãe dizia que um dia minha percepção seria finalmente reconhecida e eu seria famosa, todos lembrariam o meu nome, de uma forma ou de outra. Faria qualquer coisa, passaria por cima de qualquer pessoa para ter meus cinco minutos de fama.
- Já pensou em engravidar de jogador de futebol? Goleiro está na moda.
- Hum, é uma idéia. Mas enquanto não rolar, prefiro coisas mais seguras.
- Sabe, já faz tempo que eu percorro os classificados à procura de algo, alguma coisa que me desse o ponto, que me resgatasse a natureza, que me fosse familiar. Foi quando cruzei com o seu anúncio, gostei da senha: “o sopro da loba dos porcos”.
- Questão de mistério, amor. Faz o preço aumentar. Qualquer uma pode transar, eu, por outro lado, me vejo como uma artista. Gosto de pensar que é uma reflexão sobre a caça e o caçador, sobre o que nos torna lobos ou porcos. Sobre uma casa de palha ou de madeira destruída. Sobre nossos tijolos de segurança. A violência não vende jornal, não dá ibope?
- Tem razão, também vende carros, sabão em pó, pasta de dente, refrigerante. E qual é a sua especialidade? O custo é o mesmo?
- Ah, o de sempre: anal, oral, masoquismo. Sou uma mulher de classe, mas dizem que eu sou boa mesmo é em humilhar. Adoro humilhar, homens e mulheres. Tem gente que paga alto por isso sabia? Outro dia mesmo, uma médica pediatra me implorou pra cagar na boca dela; antes me fez comer umas papinhas de nenen. Teve também um padre que me pedia pra rezar o credo enquanto raspava a minha totota. Toda terça, pagava bem, adiantado. Me chamava de “minha filha”.
- Você cobra caro? Quer dizer, não que eu não possa pagar; isso não é problema, mas é que eu gostaria que você me sugerisse alguma coisa.
- Olha, esse lance de preço é complicado. Mas vou simplificar: achei você muito fofo, por isso, vai morrer nos quinhentos.
- Parece ótimo. Me dê só um minuto. Vou te pagar adiantado.
- Poderia me dar trocado em notas de vinte e cinqüenta? Para o táxi.
- Sem problema.
Enfim, depois de lhe pagar, enfiei um punhal de prata no seu pescoço. E enquanto o sangue jorrava, manchando o carpete da sala, fizemos amor como animais. Seus gemidos de prazer me deram vontade de uivar para a lua ao mesmo tempo em que ejaculávamos juntos, fecundando sangue e esperma pelo chão.
Achei muito natural a conjugação suculenta do tempero e a sua carne. Sou uma pessoa cheia de vocações, mas sem nenhum talento natural para a cozinha, por isso, peço licença para confessar que pouco aproveitei das miudezas.
Antes disso, puxei-a pelos pés até o quintal e, depois de amarrados os pés e as mãos, como sempre, fiz uma fogueira bem grande no quintal, estava com tanta fome que para avivar o fogo precisei soprar, soprar e soprar.
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