sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Como a Chuva Molha (para Giovanna Azevedo)


O primeiro beijo os impressionou. Lembravam-se disso quando acordavam assustados e procuravam o corpo um do outro para se agarrar. Não havia música de fundo, nem paisagem de filme. Tudo que existia era um ônibus lotado numa avenida congestionada e a necessidade de se encontrar um melhor lugar para suportar as próximas duas horas de lento percurso.
O úmido calor o fez cochilar enquanto ouvia um senhor, que estava em pé, contar uma pequena história de infância à sua filha, que estava sentada e segurava alguns embrulhos:
- Seu Baiano, quando bebia, voltava para casa com os bolsos cheios de bombons para a molecada da rua. Lá vinha ele cantando o hino da bandeira: - “Salve o lindo pendor da esperança...”.
Antes de pegar no sono, ainda houve a garotinha rindo. Aquilo fez a ele um bem enorme.
Há grande beleza nas pequenas coisas... Falamos delas sem contar com os sorrisos de alegria alheia. É como se nossas tristezas ocupassem todos os pontos de partida das possibilidades transformadoras.
O ponto mais alto até este momento foi quando, pouco antes, um grupo de bolivianos entrar no ônibus para tocar algumas músicas folclóricas. Passaram o chapéu e desceram uns dois ou três pontos adiante. Foi quando ela entrou.
Atravessou, com um sorriso discreto, todo o corredor lotado e apesar do olhar austero, poderia se notar nela um tipo muito raro de sobriedade feminina, algo que somente uma mulher madura traria no semblante: a beleza.
Ele estava na janela, onde sempre ficava, pois gostava de janelas molhadas de chuva, mal notou quando ela, num movimento ágil, se sentou ao seu lado, passando à frente de um senhor que olhou para ela com um ódio impotente. Carregava consigo um exemplar amarelado de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Fechou os olhos sem notar o olhar atencioso que ela deu ao seu Menina Sem Estrela, de Nelson Rodrigues, livro predileto, daqueles que fazia questão de assinar com nome e telefone para o caso de esquecê-lo em algum lugar.
Sonhou primeiro com o cheiro de café com pão e manteiga e com o som da rádio AM que sua avó ouvia todos os dias de manhã, era a deixa para se levantar e se arrumar ouvindo o horóscopo diário:
- Levanta! Te esperta que já tá em Libra. Desconjuro!
Entre um signo e outro entrava o Manolo Otero cantando Vuevo a Ti.
Acordou como o choro da moça ao seu lado, falando ao telefone:
- Bebi demais. Passei a noite inteira pedindo cigarro pra todo mundo. No final da noite tinha uma carteira cheia deles, de diversas marcas. Não consegui fumar nem um e agora tudo que eu queria era dar uma tragada, um tapinha só. Meu Deus, eu preciso, eu preciso... aquele filho da puta!
Uma senhora de pernas cabeludas, que estava em pé e dava o peito generoso para o filho de uns cinco anos, comenta com o marido constrangido: - “Hum, mas assim...”.
Novamente ele adormece e automaticamente sente o gosto de vinho preferido, vinho com Beethoven e sexo tântrico. Permanece assim até a entrada do seu pior pesadelo: desde pequeno sonhava com cães o perseguindo para destroçar o seu corpo. Corria, corria...
Acordou mergulhado num suor gelado e com a respiração aos rasgos. Assim que olhou para ela, seus olhares se encontraram e ele teve medo, medo de correr para sempre.
Foi então que, muito decididamente, agarrou o rosto daquela desconhecida com poder e a beijou como se sua vida dependesse disso, sem preparação de saber o que revolve ou arrebenta um coração. Apertou suas coxas muito delicadamente, deslizando os dedos em direção ao joelho depois no caminho inverso, isso fez com que ela desse um suspiro nervoso e cravasse algumas unhas em seu braço.
Entre comovida e indignada ela não teve reação ao vê-lo levantar e, subitamente consciente, correr em direção à saída, fugindo com mais de mil palavras não ditas, deixando seu livro estrelado para trás.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Insônia n. 2

Gosto de me comunicar com respeito e clareza.
Tudo bem saber que a perda é menos de tempo do que de aprendizado.
Estou sempre aprendendo? Não.
Me embriagava por mim, não por lunáticos.
"Puta só, ladrão só", diria o meu tio, debochando. Cada um por si.
É intríseco a se contentar.
Mas eu preciso fazer, mesmo, de tudo para não perder os dentes.
Pois serão  necessários quando pintar uma grana e eu puder levar a minha gata pra rangar bem suculento.
Tenho lido sobre violência, injustiça, covardia...
Musica, livros, fotografias...
Companhia.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Regabofe

Paradigmas...
Espero que uma das opções seja uma festa.
Ódio, revolta...
Protesto, sem manifestações.
Só há Beleza.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Insônia n. 1

Algumas coisas são o qie dizem que elas são. 
Não prefiro Drummond, por exemplo.
Mas é claro que se eu disser isso para a Posteridade, posso acabar muito mal.
Mas o José Régio e o Vinicius são sensacionais.
Drummond, não.
Penso assim.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Tira gordura do fígado

Como a pele dos dedos murchando, depois de muito tempo na água.
No fundo, eu entendo essa eterna Noite das Garrafadas.
Como Amor, Felicidade... Lá, no raio contrastante que os parta.
Modorra à base de auto engano, eu penso.
Meu Deus, só que eu não consigo.
Crendice pecuniária, superstição virtual, farsa...
Também empurro, calado, essa carroça.
Mas, ficar esperto sempre é bom.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Verve

Charles-François Daubigny

Suspeito ou desconfio de que é bem melhor amar (ou odiar) ás cegas.
Gosto assim.

terça-feira, 23 de junho de 2020

"Quer chip, Meu Amor?"


- Quero apenas que repita isso.
- Repetir o quê?
Foi quando percebi que, o que quer que tenha sido dito, havia passado por mim, não por ela.
Ela ainda me olha, uma vez mais, antes de perguntar: - "Chip?" -, e, por fim, sou arrastado por ela para fora da estrada imaginária, como um gato atropelado, com as tripas-coração à mostra, atrapalhando o caminho.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Debalde

Vou tentar despejar os resíduos da produção pós pandemia devagar, muito lentamente.
Não estou certo de que estas ideias se tornem contos ou poemas, aliás, minha poesia, deixo claro, não deve ser levada a sério; é uma coleção de boas palavras para se falar ou cantar em gravidade - poesia deve ser como aquele último cigarro encontrado no bolso, a ser partilhado pelo prazer de soprar.
Acho frescura demais querer chorar com poesia.
Conto é boa história. Você se lembra e passa adiante.
Gosto assim.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Boudoir

Entre uma sala vazia, um corredor assombrado e o quarto, há o vampirismo cotidiano e voluntário.
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