sábado, 25 de fevereiro de 2012

UMA MÚSICA, AQUI (de Marcos Salvatore)


- Pediu uma música, aqui

E eu vou tocar.

Qual é mesmo o nome da música?

- “Ela me deu um beijo na boca”.

- É sobre algum beijo especial?

- A respeito de um caso mal resolvido, estilo Woody Allen.

Parecido com um vazio,

Daqueles cheios de falta de culpa da libido.

- Está difícil para cachorro essa passagem.

- Nem tanto. Só precisa de improviso e vontade própria.

- O que você já tem escrito?

- Só o estribilho. O refrão.

- Só a monotonia.

- Sim. Se repete toda vez que alguém se apavora.

- Sobre o quê fala?

- De mim, de você, de tudo que está aí.

- Não sei tocar assim.

- Pode tentar, está quase pronto.

- Qual é o tom?

- Sol.

- Sustenido, bemol?

- Não. Inteiro.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

MEIGA ADORARIA ESSA (de Marcos Salvatore)

by Oliviero Toscani

Isto é uma alegoria disfuncional. Não vale um Carnaval. Mas, gostei da proposta dada pelos amigos do Recanto das Letras "Como não dizer nada em duas ou três páginas".

Penumbra acelerada: algumas taças de vinho; alguns maços de free; fósforos (isqueiros são puro baixo astral); 1001 discos; transe de xamã vagabundo... e a psicografia começa para ver nascer uma coisa nova - sem árvores de natal, nem carnaval enlatado: apenas o prazer de me deitar com umas tantas palavras sem valor.

“Tínhamos o acordo de nunca foder com carinho”: Começo assim? (...) Tudo bem, vamos lá.

- Eu te amo

- Então não use isso contra mim. Não consigo respirar sabendo disso.

Preciso conter a vontade de contar a verdade de acender um atrás do outro. Ou melhor: preciso perder o medo de fumar maconha. Continua assim:

- Às vezes sei quem você é... ou, nem sempre...

Não quis terminar a frase com o puro propósito de irritá-la. Não conseguia tirar daquela mulher uma única palavra que não fosse de uma impessoalidade brutal. Não conseguiu. Mas a amava.

Olhou para ele sem transição, mascando um chiclete para tirar o hálito de gala deixado pelo clímax das duas horas e pouco de massagem corporal. Levantou as mãos como se fosse reger uma orquestra imaginária de filhos-da-puta, depois escreveu um “E o Kiko?” no ar. Com a esquerda, em um movimento corretivo, limpou um pouco de batom em seu pescoço.

Péra, lá. (...) Depois dessa ele tinha a obrigação de reagir. Mas, com ela o buraco era mais embaixo: Devia-lhe obediência como diretora. Conteve-se, afinal. Limitou-se a apontar para a porta.

Já sei: Está me pedindo para ir embora, certo?

(...) Vou dar um mijão e já volto com o final...

(...)

Meia-noite. Meu celular diz que minha ex mulher me ligou, minha filha me ligou, meus sobrinhos me ligaram, minha irmã chegou de viajei e também está na minha captura. Por que ninguém me liga pra dizer: - Escuta aqui, ganhaste mil fodas grátis na Locô! Tens até o final das férias para resgatar o prêmio.

Férias é o c..., ainda estou me procurando, pedaços de pessoa espalhados pelo quarto... “por aí” quer dizer a porta de entrada para todas as saídas.

Em seguida ele foi, pelado, até a geladeira e sentiu o frio encolher seu saco de bagos. Bebeu na boca da garrafa o pouco de champagne que restara das preliminares:

- Me desculpe, só queria te fazer sorrir. (Mentira!) Você me perdoa?

- Tal e tal. Precisa aprender a chupar melhor. Sua língua fica procurando o quê afinal de contas?

Meu passado e meu futuro sempre vão estar no rosto de uma mulher – ele pensou. Era um cara do tipo fleumático, cardíaco, tudo o emocionava, levava à sério até um bom dia meio atravessado.

Tinha uma necessidade absurda de dizer coisas do tipo “Você tem uma nudez inquietante”, ou “meu nome não está longe da sua boca”.

Pobre rapaz.

Uma semana antes de mata-la...

(...) Perdão, estou me adiantando.

O caso é que, apesar de ser uma amante sedutora e viril, e de deixa-lo cada vez mais dependente, sua independência o humilhava de uma forma insuportável.

Quando saiam e ela simplesmente tirava a nota da bolsa (na frente de todos) e passava para ele pagar a despesa do restaurante, cinema, teatro, o que fosse, ele se consumia em uma vergonha demoníaca. Fantasiava sua própria morte nos poucos momentos de solidão que ela lhe dava. Seu sonho mais recorrente era o de que se matava e acordava dentro do caixão, sendo enterrado, ouvindo o impacto das várias camadas de terra sobre ele, e...

- Seu Salvatorê?

(Opa, só um instante que minha vizinha está na janela me pedindo para desentupir sua pia. Volto num minuto. Deixo vocês com a Senhora Edith Piaf, versão ao vivo, sem overdubs).

(...)

Agora.Depois desse luxuoso interlúdio musical preciso dizer que ele sempre acordava chorando depois de tantos pesadelos. Sentia-se cada vez pior.

Um dia, enquanto ela dormia, não sei se a primeira coisa que notou foi sua maquiagem borrada ou se foi o profundo cheiro de sangue podre que exalava dela.

(Porra. Esse não era o tipo de história que eu queria: queria algo mais admirável e sério. Palavra. Porém, é assim que algumas coisas são. Existe nudez em tudo que escrevo)

Disse em seu ouvido: - Quer saber como me sinto?

- Não perguntei, mas, vai lá.

- Por que diria a você?

(Uma mulher distribuindo bíblias acabou de me deixar duas. Gostei da tia. Podia jurar que ela estava esperando que eu a convidasse para entrar).

Sua resposta foi provocativa, desconcertante:

- Traz o prestobarba que enquanto eu durmo quero que você me raspe. Mas não me acorda.

Diabólico, não?

Queria entrar nos pormenores do crime, talvez um pouco mais do julgamento e de como ele se safou de trinta anos de cadeia, mas, não vale à pena. Vale?




domingo, 12 de fevereiro de 2012

TOMARA QUE CHOVA (de Marcos Salvatore)


by Arthur Fellig Weegee

Ih, rapaz! Fevereiro!

Ontem, eu falando disso, lembrei do inferno. Faço trinta e cinco próximo dia vinte e dois. Férias forçadas, em protesto.

E eu nasci num pé d’água, sumano! Ia pra rua pegar chuva e mulher (quem me dera dançar). Não posso deixar de gostar da folia, embora ache, sinceramente, de um baixo teor energético desgraçado.

Nasci numa manhã de desfile chuvoso, na cozinha da casa da Vó, no bairro do Telégrafo sem fio (sempre achei a parte do “sem fio” genial), entre a margarina e o chibé. A Beija Flor assumia a avenida. Ganhou.

A história é quase um samba de terreiro:

Rua cheia até o joelho, tiveram que chamar um estudante de medicina para fazer o parto: o Vavá (saca só o nome do “elemento”). Dois tios, que vararam a madrugada na farra, foram chamados às pressas para comprar uma injeção de sei lá o quê, estavam vestidos como Dzi Croquettes e voltaram horas depois mais bêbados do que antes, tropeçando um por cima do outro, pois paravam de bar em bar comemorando. Ao passar pela Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não deixaram de fazer um bom e velho sinalzinho da cruz.

Família nervosa e eterna, chegada em farras com consequências diabéticas, mas nasci e cresci na boa, rodeado por figuras raras. Moleque tímido e romântico (punheta pra burro), não demorei para perceber que os corpos femininos eram delicadamente intrigantes, e sangravam, por isso me apaixonava por todas as mulheres que cruzavam meu caminho (ainda hoje é assim: toda mulher está nua). Aprendi a ler e escrever com gibis e revistas pornográficas (um dos meus tios era hippie). Brechava minhas vizinhas tomando banho, mas já falei sobre isso.

Primeira foda com uma balzaquiana abusada, adivinhona; foi cedo, doze para treze: meu primeiro par de rabo. E ela adorava me ouvir falar de sacanagem: - “Sei porque me deixa te lamber todinha, porque sempre volta”.

- Soca, soca! Dá-lhe nesse bucetão quente!

Isso não é nada. Gostava mesmo era de ensinar (me ensinou a ensinar), e me mostrou quase tudo sobre diminutivos e maiúsculos. Sobre como assediar por entrelinhas, sem ninguém perceber. A enfiar o pau com paciência e movimento. A como valorizar uma fêmea, vivendo um por um dos seus gemidos inventados. Vizinhas sempre fodem com mais raiva. Sabe Deus o porquê.

Curso intensivo, sabe como é: o serviço tem que ser completo mais o de ganho, depois ó... melhor tirar o time de campo e pegar o beco que o bode é tremendo.

Sou alcoólatra (ou penso ser), viciado em nicotina, viciado em roer as unhas (corniocófago), viciado em cafeína e tenho uma neura tão filha da puta, que chego a quebrar espelhos sem medo de crendices.

Odeio discussões berrantes, mas alguns amigos precisam sempre se afirmar, então, a gente perdoa. Acho bem melhor ficar sempre de boa.

Não escrevo nada há vários dias. Ou pior: escrevi, mas aquilo não vinha de mim – vinha de outro lugar. Vinha da rua, que não tá brincadeira.

- Vinho é para o frio, minha filha. Sua chegada demorou e agora eu tô de novo por aí.

Sinto que cada pessoa que mato em meu coração leva com ela para o purgatório um pouco da paz das quartas-feiras de cinza. Pouco me importa, o amor é o que foi feito por ele.

Pois é, e, hoje eu tô aqui no Bornal para escrever com um pouco de truque. Tô publicando meus lances, aí. Me faz bem, me dá uma liga e ajuda na diminuição das paranoias da vida.

Hum. Não era nada disso que eu queria dizer. Em todo caso, os contatos afetivos andam em promoção. Calor humano é um luxo, mas tem roupa na corda. Só espero que o tempo lá fora melhore.

domingo, 29 de janeiro de 2012

BESTIÁRIO (de Marcos Salvatore)

by James Ensor

A experiência do amor
Ardia
Pedia ao mesmo tempo
Em que se
Perdia na noção surpreendente
De ter mais para dar
E encontrar seu plural
Dentro de tantos singulares sem valor
Perdia concílio entre os demônios,
Pedia cama para realizar os sonhos
Pedia chão para os joelhos trabalhosos
Ou seja,
Certeza de problemas
E
Fotografias
Lembranças de um tempo bom
Até virar
Corações super postos
De um mesmo pedaço de plástico
Quente e maleável
Ou barco de papel à dois
Boiando em contra mão
Num período de lampejo
E
um coração hesitante
Se jogar escorregante
Finalmente
sobre o suor de outro que chegou
e completar o refrão
de suas batidas

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

NO INTERIOR DE UM BEM MAIOR ou ÁREA DA BAÍA (de Marcos Salvatore)

by Namio Harukawa

SOBRE O INTERMINÁVEL SISTEMA DE APELOS EMOCIONAIS

Um homem e uma mulher...
Gritam à procura de seus verdadeiros nomes
Pelas noites  do bairro do Comércio


Bateria de blues, por favor

Mas existem motivos insuspeitos (amargos?)
Para que relacionamentos existam:
O cinema dos anos 70 é um deles (...)


Mas as separações levam meses.


Terminam em filas de cinema, corredores de teatros
Elevadores, em esquinas ladrilhadas
Dentro de carros
Estacionamentos por hora
Ameaças de gravidez
e-mails não enviados, ou lidos
redes sociais


ESTA É A CIDADE DE BELÉM. NÃO MEXA COM NINGUÉM!

Acordei chorando e com o pau vermelho, ardido
Penso: - “Outra briga”.
Havia algo quebrado na cama, porque eu não conseguia levantar
Talvez fosse o amor me aleijando de vez.

Amor?
(...) – “Está falando daquilo que sentimos pouco antes de percebermos que gostamos de alguém?”
Mas o amor é o ganha pão de muita gente.

Bandas de axé, pagode e forró geram dor de cotovelo em massa
Por causa de sexo e dinheiro
Definem um tipo certo de bunda, de seio, de cor de pele
(...) de preço na lata
Atitude jamais, cruz em credo, existe o Círio, pagam bem

SUPONHO QUE O CARNAVAL SEJA MAIS ATRAENTE

Olho para aquele tamanho suculento e cansado de bunda
E penso, altruísta, comigo:
- “Continua gostosa!”
Mas me senti numa piada do Costinha:

“Me cantou três meses para...”

Ela me percebe acordado
Vira-se
Seus vinte e dois anos me flagram tendo medo
Diz, jocosa:

- “Pega minha bolsa. Pega.”
Ali, naquela coisinha, em cima daquela coisinha.
Penso: - “Coisinha é o caralho!”
Minto: - “Não te comi por dinheiro.”

- “Achou minha buceta uma bosta?”
Minto: - “Não tenho raiva de você.
Apenas não tenho mais nada a dizer.”
- “Toma. O dinheiro do aluguel” – ela diz.

Ouço um pouco de choro tenaz enquanto visto a calça amarrotada:
- “Você nem me beijou” – ela se queixa, detalhista, como sempre.

O resto veio num estalo:
Começando pela guerra dos sexos e os direitos civis.

Penso em Augusto dos Anjos,
Penso no movimento feminista mundial,
Penso nas dietas, no voto secreto, rock’n’roll psicodélico,
No esperança socialista e boa praça,

No povo brasileiro, violento por natureza (nas novelas, não).
(...)
Mas não entendo nada disso.

Portanto,
e pela primeira vez,
respondo sem temor,
coçando o braço direito:

- Fiado só amanhã.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

FÓSFOROS (de Marcos Salvatore)





(...)

Onde ouvi isso? Não sei. Pode ter sido um truque auditivo, resquício selvagem dos sucessivos pesadelos daquela semana. (...) Não sei falar sobre isso, mas ando sem casa; esse texto também. Quero apenas que vocês se lembrem dos primeiros acordes de Summertime. Apenas pensem neles e não precisarão ler tudo.
Não percebi a cerveja fazendo efeito. Talvez tenha coincidido com uma vontade lasciva de fumar, somada à constatação confusa de que já passavam das duas - minha mochila estava escondida atrás de um freezer, para secar, tinha pego muita chuva da tarde, também com o fato de que minha grana dava selado para uma van, acompanhada de um completo da tia Roxita, na rodoviária.
Uma mensagem:
- Sal, se não me ligar não te dou mais nenhum tostão. Vai ter que se humilhar. Você não sabe com quem mexeu.
Respondo:
- Acredite, ou não, Baby, isso faz sentido pra mim.
Boiúna lotado. É possível lembrar de uma música, sem lembrar da letra, ou da melodia? Apenas vejo o sorriso da Rosa começando o show com um som fabuloso, mas não identifico aquilo, sentado na janela da frente, apenas quero. Antes do sol nascer exasperado e me flagrar ainda esperando, ainda.
Lá fora, dois flanelinhas tentam se matar com paus e pedras - Belém é a cidade mais violenta do Brasil, mas em todo caso teremos a Ivete no aniversário da cidade (a Gaby no dia seguinte), onde será consumida perigosamente mais e mais da nossa própria cumplicidade.
Um tiozinho, whiskeado, se vira e me diz: - “Ih, uh. Ó, tu queres saber da verdade?”
- Pelo amor da puta merda. Me diga que dá pra comprar parcelado.
- Ontem foi a mesma coisa. Ah, ah, ah, ah.
Preciso botar o pau para escorrer. Algum animal jogou um copo na privada (suspeitei do tio fumadaço). Aponto o jato quente e ácido para a parede, atirar, demarco território desenhando a letra M, de “mó deprê”: “a mesma coisa”.
Na porta do banheiro feminino uma mulher chora com as mãos espalmadas sobre o rosto. As amigas consolavam. Jamais saberei. Seus olhos me lembraram de alguém e de todas as conversas difíceis, de todos os ombros dados em detrimento da suposta liquidez da razão. Tarde demais para entender como é bom, às vezes aceitar o engano cometido e assumido. Sem querer, me lembro de roer as unhas, mas desisto ofegante, me pego mentindo numa intimidade terrível. Não quis entender que não deveria estar ali.
O celular:
- Oi, Amor. Você já vem?
- Daqui à pouco.
- Mentira. Você não chega. Não me liga nem pra saber se eu morri.
- Baby, eu sei que você não morreu, mas precisa parar com esse negócio de TV. Choradeira é coisa de novela mexicana.
Chegam Ageu e Hipátia. Abraço meus amigos como irmãos – gosto pra c.. deles. Automaticamente procuro por uma conhecida dos dois: ando louco por suas fotografias coloridas, suas artistagens combinariam maravilhosamente bem com meu jeito de escrever em preto e branco. Quando minha cachorrinha (um Rottweiler) morreu, desabafei com ela pelo face. Deve ter me achado inevitavelmente sem noção.
Rosa canta Gonzaguinha, depois, Vento de maio, mulheres de Touro me fascinam com seu inverso atraente, de beleza organizada e séria. Sexo. Os opostos só se atraem quando o dia seguinte for de paz.
Alguém me pergunta se eu tenho algo contra os anarquistas:- “Sim, eu tenho!”
Todos se viram, quase o bar inteiro: - “O que?”
- Bom, acho que eles não lançam nenhum disco faz um tempo.
Muita gente dançando, se abraçando: - Oiiiiiii!
- Fabio, de quem é essa música? – Vila, me arruma um careta. Tem fósforos? – Isqueiro.
Lá fora eu sinto a noite. Um casal atravessa a rua brigando, chegam a calçada, ela o empurra, ele abre os braços pra o céu estrelado, grita alguma coisa, ri, não para de rir, ela se enfurece e avança para ele... o final vocês já sabem. Voltam, passam por mim e ouço: - “Você é mau pra mim.”
- Sabe quem é aquele? É o fulano de tal!!!
- É?
Conhecidos e desconhecidos por metro quadrado se atropelam em confissões sócio-econômicas. Batatas fritas, adoro batatas fritas, mas a porção é quinze contos. Dá pra tomar um porre com quinze contos. Dá para tantos maços de cigarro. Tantos x-eggs-presunto, no Oficina. Uma hora de sexo escroto no Vermelhinho de São Braz, ou talvez, quem sabe, um táxi até a casa da Cilla: eu bateria na porta, pediria para ficar... e depois, ela chorando mansinho, chorando, enquanto arranco suas pétalas.
Uma mensagem:
- Vai te foder!!!!!!!!!!!!
Respondo:
- Acredite, ou não, isso faz sentido pra mim.
Sou um bom sujeito, mas também um tímido de obtusidade agressiva, me apaixono rápido por raparigas de sexualidade objetiva, portanto, meio cigarro depois abro demanda para uma concorrência imparcial entre o Cosanostra e a Locô, meu amigo Febre, que se diz cigano, tem desconto em ambos, quase usucapião do canto esquerdo dos balcões.
Meio trago depois concluo que o porquê de tantos bares espalhados em pontos estratégicos é apenas o fato de que algumas pessoas odeiam voltar para casa, mas adoram bares espalhados em pontos estratégicos.
Numa conversa alheia, um eleitor inscrito pergunta para outro eleitor inscrito: - “Tu vistes a minha fêmea? Cadê a minha fêmea?”
E o outro: - Tá logo ali, atrás daquela árvore.
E segundo ele: - É melhor que ela esteja mijando ou não vai ter ninguém pra pagar a conta.
Não que eu seja politizado, mas estupro combinado em rede nacional gera opinião pública e um comandante é o primeiro a abandonar o navio. A polícia está em greve. Percebo um corpo sem calcinha embaixo de vestido colado na pele suada. O corpo se aproxima, e talvez um sorriso, mas desiste ao notar a ausência pendurada das chaves do meu carro.
Lá dentro, o orgasmo, a glória e o prestígio dançam em busca de resposta, assim como eu.
O celular:
- Amor, não briga comigo, mas acho que tem alguém no quintal. Tem alguém brincando com o cachorro lá fora. Sei que está brincando por que o cachorro sempre chora quando está feliz, e ele não para de chorar. Aí, ele ganha a confiança do cachorro, dá um jeito de entrar e me come na marra. Consegue imaginar? E eu estou praticamente nua: sem calcinha, bucetinha depilada, cheirosa, biquinhos do peito durinhos. Amor? Se você não vier eu acho que vou deixara a porta encostada. A noite está tão linda lá fora, podia sair pra dar um passeio também. Por que você não vem pra casa? Amor? Amor?
Um tremor soluçado e humano me domina os olhos apertados. Respondo apenas isso:
- Baby? Seu quitinete não tem quintal. (...) Nem cachorro.


Atenciosamente,

Sal.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O PONTO CRUZ (de Marcos Salvatore)


É assim que eu sou
Você não é

Nem vou ficar te alugando
Ando desapegado
Não é assim, que se diz?

Abnegação
Altruísmo
Desambição
- Deveria ser mais fácil

Lá de não sei das quantas “nunca é tarde demais para começar tudo de novo”
Detesto fazer citações sem nome do autor
Mas não o conheço

Lá na rede todo mundo tá feliz
Tantas Bad trips,
Altas presenças suculentas
“Não sei das quantas”

Cosmogonia luxuosa
Cama pobre e tosca
Catre intenso de acordos escusos
- De que noite dessas eu saí?

E a cidade está confusa lá embaixo
Fascinada pelos detalhes sórdidos
Ponto cruz insipiente
Circo social, indigesto

Me assusta
A mim,
Forte no amor
Protegido sem querer

(...)
Mas só consigo dizer isto, agora, digo mesmo:

Estou em casa
Que é onde você devia estar
Não é longe, quase outro país BR adentro
Venha, se quiser

Porque somos o mesmo tipo de pessoa largada
Tenho vinho...
Alguns enlatados, macarrão no alho e óleo
Instantâneo

Eu tô aqui
Venha mais tarde


 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

NADA DEU CERTO (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek

Quero te beijar um dia.
Um dia.
Um dia.
Um único beijo, insano.
Depois...
Depois...
Uma única noite
Única, sim.
Depois de amanhã
Outro dia.
Outro dia.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

CHUTANDO MANGA (de Marcos Salvatore)

Eu tiro sarro, mas amo essa cidade. Amo minha família, meus amigos, as mangas que eu chuto madrugada adentro. Todo dia eu penso em cair fora, mas então me lembro da Dona Raimundinha, cabocla negra, minha vó, me catando as lêndeas urbanas. (...) Aí, é f..., bicho.
 

sábado, 31 de dezembro de 2011

UMA PÁGINA (de Marcos Salvatore)

Marcos Sávio Souza Leal
É fim de ano, e ano que vem é amanhã. Por isso, quero atacar de saudosista e dizer que ela teclava comigo todas as noites. Nos conhecemos numa dessas madrugadas da vida e no dia seguinte fomos para um Motel, insones. O sono era tanto que não transamos logo de cara, primeiro dormimos, depois, é claro que a gente caiu na cornada.
Era meiga, atenciosa, divertida, tiradora de onda genial. Queria muito que todos vocês tivessem conhecido sua beleza brejeira. Nunca comprava cigarro, roubava dos meus, sem saber que eu adorava isso. Suas mensagens pelo celular me fascinavam. No hospital, antes de chorarmos abraçados, ela não me disse que estava com medo:
- “2010 vai começar com dez anos de atraso, meu querido, você vai ver, mas, em todo caso, marque na folhinha que eu te amo.”
Numa quarta-feira de Falu X Flu, eu, no maior “scapole, bole, bole”; olha o que ela me manda: - “Psica, psica, psica!!!!”
Falo mais dela depois, porque me lembrei agora do Seu Hamilton. Vigia da Praça Amazonas. Todas as sextas-feiras me pedia para dar um tempo na bebida e no fumo:
- “Essa diversão ‘inda’ vai te matar!”
Mal sabia ele que não era diversão, que não chegava nem perto disso. Era um pouco do bom e velho masoquismo “período bíblico”, e dos lutos mais subjetivos (a vocação do óbvio é ser a grande novidade, pena que ele não toque uma nota, assim como o Sid Vicious).
Uma vez, o Mirtola (r de Jundiaí) prometeu que tomaria uns tragos comigo se eu decidisse nunca mais beber. Seria meu último fogo e seu primeiro e último porre. Toda vez que eu contava alguma “potoca” das madrugadas e madrugadas de vadiagem da vida ele se virava, e dava aquela risadinha jocosa seguida de: - “Hum, ‘dá mentira’!”
“Dá mentira”, vejam só... (peraí, que eu vou dar ma respirada, ou não vai rolar escrever).
Seu Hamilton me salvou de ser surrado numa noite em que saí do The Beatles completamente bêbado e louco de amor por uma certa moça que hoje é quase uma irmã para mim.
- “Ô, tio. Valeu pela ajuda, mas eu dava conta daqueles panacas.”
- “Eh, eh, eh. Dá mentira! Tu ia era levar o destempero, sumano. Toma vergonha, rapaz!”
Ele era ótimo. Tinha sessenta anos e estava sempre apaixonado por alguma manicure. Sempre com aquela mania de ser fofoqueiro (conhecia o Jurunas inteiro), era padrinho de não sei quantos afilhados e ao mesmo tempo católico, espírita e macumbeiro.
- “Puta só, ladrão só!” – ele dizia. “De uma mulher se faz uma puta e de uma puta se faz uma mulher.”
Nunca tentei investigar suas verdades, até deveria, mas, nem precisei. 2011 se encarregou de desfragmentar meus valores: Em novembro de 2011 fui assaltado e agredido violentamente. Era madrugada, três e pouco da manhã. Meu atrevimento piscianíco perdera sua hegemonia. E, enquanto apanhava, pensava na proposta do Seu “Mirtola” (sotaque paulista, de Jundiaí) de tomar a última dose. A ressaca e os hematomas morais se dissiparam em uma semana. Vou atrás do velho e descubro que Seu Mirtola havia sido assassinado por engano de um policial. Ele nunca me disse que estava com medo. Aliás, medo é o que eu sinto toda vez que ligo a TV, porque o Brasil anda mal pra caralho.
Quero acreditar que aquela pedicure da feirinha, cheia de corpo, tenha topado dar um trato no tio. Um dia antes, me disseram, ele tinha ido no barbeiro da galeria Presidente Vargas e feito barba, cabelo e bigode no capricho.
Eu não vou ficar aqui dando detalhes, mas a morte do meu amigo me ligou a todas as mortes não choradas por mim; ao todo: cinco, de dois anos para cá. Sempre achei choradeira “um boi”, perda de tempo. Também nunca fui nada atencioso a datas importantes. Porém, preciso abrir uma exceção para 2011, que foi foda.
Abro mão de falar de saudade para perceber esta página: como sai do lugar, como mudei de assunto. Uma gafe necessária, de uma forma ou de outra. São apenas confissões de um anti herói.
Talvez um dia eu fale dessa princesa e de como saíamos para cheirar o vento juntos. Mas, por enquanto, dou meu primeiro passo em direção a 2012 sem pedir nada em troca, apenas agradecendo, e esperando acordar amanhã e, pela primeira vez na vida, não torcer para que o ano termine depressa. É isso, aí.
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