quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Anorexa, Tu! - 3ª Parte (de Marcos Salvatore)


by Helmut Newton



Eu matei. Sim, talvez eu tenha: eu, assassino do que sinto falta. Surpreendo-me com a naturalidade com que me deixo esquecer. Fecho os olhos e ainda vejo, distante, brilhante sobre um fundo preto, o rosto de uma mulher. Lembro-me de amar quando amado, de odiar quando odiado. E cada minuto tem uma profundidade imprevisível, irresponsável. Sou um engodo inusitado, uma isca do mirante do Forte até aqui. Só esqueço de perguntar pelo seu nome, o nome dela.

DEMÉTRIO: O POODLE Nº 0

Os carros pararam em esquinas distantes: Vila, Castro, Aloísio e Sávio. Aguinaldo e Wanderley já estavam a caminho. Seu Iraque, digo, Eráclito; Bocage e dona Aldenora no banco de trás na maior farra riam até de sinal fechado:
- Minha pombinha, dá uma emboladinha aqui, isso devagar com os dentes senão eu não me concentro na materialidade da ocorrência. Cuidado que esse caso é de grande jurisprudência.
- Ai, só gosto de homem que fala difícil. Homens de substância.
Era verdade. Dona Aldenora sentia um atração inominável, desde pequena, menina que subia de saia sem calcinha no açaizeiro, por homens que falavam alto, mais velhos, desembaraçados. Bocage a conheceu durante uma de suas palestras: lá estava ela com seu caderninho de anotações e a cada termo jurídico Bocage percebia que aquela morena de peitos fartos e quadris de “aluna em recuperação” se torcia e retorcia em mil e uma danações. Depois de muitos “datavenias” e “deveras”, soube que tinha encontrado a assistente perfeita para as horas extras.
- Seus imorais. (...) Se a dica do garoto estiver certa, nosso elemento deve estar até o pescoço envolvido com o corpo estirado lá naquela cama – “Oito horas: já vi que vou dormir de novo no sofá”.
- Se Vossa Senhoria me permite, chegando lá, peçamos uma garrafa do melhor whisky e um balde de Red Bull que as Plocs vão “cair matando”.
Entram disfarçados numa boate aparentemente normal, não fosse por um corredor estreito com um poodle minúsculo de guarda.
Aloísio com seu chapéu dos intocáveis (versão em preto e branco) tenta fazer festinha no canino, mas o mutante fica em duas pernas e se transforma num gremlin feroz, botando todos pra pular uns por cima dos outros. Bocage, vestido de motorista de caminhão, acha uma graça infinita e chama dona Aldenora, que estava vestida de mulher que finge que é homem, que finge que é travesti, que finge que é Violeta Parra, para apaziguar a fera.
- Vem cá, bonitinho, não liga pra esses mauzinhos.
Passam todos: Vila de sandálias havaianas, bermudão e camiseta do Iron Maiden e Castro de hare krishna Prêt-à-porter, que antes de entrar dá um chutão no Nº 0: - Por quê essa pavulagem com cachorro? Está quase dando de mamar pra esse pulguento.
O delegado que estava vestido de ator pornô dos anos 70, olha por cima dos óculos ray ban e pergunta para Bocage:
- Ô Bocage, tu ainda tem desconto nesse antro?
- Mas é claro, camarada: cinquenta por cento. Quer ver só? – para o “leão-de-chácara” da entrada: - Nossa amizade, eu sou amigo do fulano de tal, que é dono daqui e gostaria de um abatimento nas entradas, meu nome é Doutor Bocage, mas pode dizer que aqui é o Sabá.
- Por quê Sabá? – pergunta Aloísio, coçando o cavanhaque – Puta nome tosco, anárquico-carnavalesco.
- Ganhei esse apelido quando frequentava o “Nas Coxas”. Só ia no sábado, nada demais. Minha reputação me precede.
O funcionário entra e volta no mesmo instante com uma voz nasalada que deu o que pensar:
- O patrão falou que fiado só amanhã.
Depois de muita conversa vencida há uma coleta e todos entram. Castro ainda pergunta se aceitam Meia Entrada, mas leva um puxão de braço de Vila que a tudo desconfiava no lugar.
E que lugar: padres, freiras, pastores, rabinos, bicheiros, reitores, funcionários públicos, políticos de todas as raças negociando o amor de meninas e meninos de no máximo 17 anos. O maior circo de parafilias nervosas (e influentes) já visto. Puro Ensino Médio em flor, das melhores famílias e escolas da cidade. A surpresa de todos foi tanta, que Seu Iraque, digo, Eráclito, conclui severo: - “Essa é a verdadeira “Corda do Círio”, o resto é piada. O verdadeiro significado das ações... é o significado das ações”.
Desconcertado, Vila pensa: - “Será que vai dar tempo de pegar o segundo tempo do jogo? Aposto que a idéia do plebiscito saiu de um buraco como esse”.
Bocage, lúdico: - “E pensar que é assim que se constrói um país. É por isso que o perdão custa caro: pra financiar o pecado”.
Castro faz as contas e resume para todos: - “Se esse é o Nível Médio, como será o Superior?”.
- Provavelmente mais caro – diz Aloysio que até desliga o celular para ver e ouvir melhor aquela cena grotesca de puro Satyricon. Satyricon não: Sallon Kitty. Dona Aldenora começa a sentir uma coisa, uma coisa.

DZI BIGODES

- Vamos nos espalhar – diz Seu Iraque, digo, Eráclito, cauteloso. Já sabem a quem procuramos. Agora, só tem uma coisa, hein? Se eu pegar alguém de relaxação, vai pro xilindró. Vila, cuida do garoto. Vê se ele lembra de mais alguma coisa.
- Sávio, o que você fazia aqui?
- Procurava por alguém, eu acho.
- Acha? É melhor ter logo certeza de algo, senão, eu acho que vou te largar uns cascudos. Lugarzinho estranho esse, não é? Cadê o sujeito? Cadê o velho que levou a menina?
Um pastor, desses de gelatina milagrosa, brincava de cavalinho com uma ninfetinha de no máximo quinze aninhos, que o chicoteava nas nádegas, dizia: “Opera, minha filha, opera”.
Bocage, aproveitando a oportunidade de tantas autoridades juntas sai distribuindo seus cartões, enxerga de longe o procurado. No palco, o caçado: um padre - ou seria abade? - dançava chupando um picolé de taperebá, agarrado a um índio de vestido cor de rosa e tênis futsal.
É impressionante como a concorrência para catequização de pagãos ainda está na moda. Todos os caminhos levam a Roma, não é “vero”?
- Isso, isso, isso! Vai lá, Pai.
Aloísio tranca a porta, enquanto Castro saca sua Magnum 44 e dá dois tiros numa caixa de som – “Porra, de tecnobrega!”.
- Epa, epa! Que é isso? Que é isso?
O delegado sobe numa mesa e comunica:
- Seus depravados! “Vamo” acabar com essa cornada, porra! (...) Calma, minha senhora, pode continuar com o seu boquete. Nosso assunto é com um único “pó de broca”: aquele ali. Queira se apresentar, por favor. (...) A sua “bença” padre, sabe que o senhor é mais simpático ao vivo que na TV?
O eclesiástico toca de leve os dedos do delegado e diz, afetadíssimo: - “Barazer, Abatezza Zibody. Hoje é beu dia de folda”.
- Ih, mais essa, agora: o velho é tatibitate, “homem-rapaz”! Que marmota é essa? Vamos precisar de tradutor. Tenho uma missa pro senhor rezar. (...) Vila, tá na hora do confessor se confessar. Pode levar. (...) Porra, Castro, eu disse pra não trazer arma nenhuma, cacete!
- Tá aqui no cu deles que eu vinha pra cá desarmado.
Um brutamontes da segurança pega no ombro de Vila e diz:
- Perdeu, perdeu!
Vila calmamente olha para aquela mão em seu ombro e nota que sua camiseta do IRON MAIDEN amassou um pouco:
- Eu perdi e tu achou. Toma o do Natal!
Vila dá um murro que quebra o nariz do segurança e a porrada geral começa bem na hora que Aguinaldo e Wanderley aparecem segurando o poodle nº 0. Wanderley, vestido de Cowboy Fora da Lei, dá o comando: - “Pega Demétrio, pega”!
A gremlin avança em todas as bundas. Aguinaldo, que estava vestido de punk, derruba logo uns três, virando uma mesa cheia de pênis e xoxotas de plástico, sopa de merda e suco de mijo e vômito, pro banho romano – verdadeiro bufê parafilítico.
Como muita gente ali estava amarrada por gostar de bondage, acabaram levando umas lambadas também. Meninas (Duca! Duca!) que vestiam seus uniformes (com os pais presentes), na pressa de correr do flagrante, esqueciam seus cadernos e carteirinhas de meia-passagem.
Peço aos leitores para imaginarem, em câmera lenta, o caso de amor à primeira vista entre o investigador Wanderley e o sistema de som dolby sunrround do recinto que foi possuído por ele ali mesmo, na frente de todos.
No meio de tudo, além do som das cadeiras e mesas se quebrando, além dos latidos assassinos do cachorro, era possível ouvir claramente a risada de Bocage e dona Aldenora dando umazinha atrás da cortina. Todo mundo aproveitando pra tirar umas casquinhas. Putaria, sacanagem e violência. A moçada do “arroz com mel” (enemas) tentava inutilmente correr com aquela coisa enfiada na bunda.
Quando tentaram sair, outros seguranças aparecem no corredor. A porta é trancada e eles ficam sem saída. É quando Sávio puxa o delegado e dá a solução:
- Tem uma porta atrás daquele quarto que vai dar num outro quarto que vai dar nos camarins da boate.
- No, no. Então é isso mesmo. Por aqui, todo mundo.
Antes de sair pela fuga, Castro ainda volta pra chamar todo mundo de bunda mole:
- Seus “gala seca”, bando de frouxos. Agora eu me invoquei, chega todo mundo que eu meto é bala!
É puxado pela camisa por Aloísio e Vila enquanto Wanderley calmamente termina o seu drink, curtindo um som do Uriah Heep que acabara de colocar no volume máximo.
- “Bora”, porra, que a gente roubou umas garrafas de whisky tantos anos.
- A “Abadessa”, protestava: - “Calba, calba! Bor vavor, zim, Bem? Dão be gombrometa. Bor vavor, Negron!”.
- Essa égua tá falando que nem apresentador de telejornal empolgado. Arrasta!
No camarim a única saída era pelo palco e o único jeito de saírem sem ser reconhecidos era o de se travestir e sair dançando (o padre gostou).
E foi isso, quando “Relance”, da Gal Costa começou a tocar, aquelas figuras andróginas deram um show tão bacana que duas mocinhas chamadas Ivone e Marta, invadiram o palco enlouquecidas para agarrar os dançarinos. O jeito foi leva-las com eles.
Antes de correrem para os carros, Sávio teve a impressão de ter visto alguém. Alguém que não poderia estar vivo. É repentinamente tocado no ombro por uma mulher, alguém que parecia reconhecê-lo:
- Veio cumprir seu juramento?
- O quê?
- Não se lembra mais de mim? (...) Talvez disso você lembre.
Agarra-o pelos cabelos e lhe dá um beijo apaixonado, sem fim; depois morde seu lábio inferior até sair sangue. Diz sorrindo, com uma tristeza terna, doce:
- Me leva com você.
- Então vem.
Aloísio acha muito louco, e puxa os dois pra dentro do carro, para junto dos outros. O carro não pega e o jeito é descer todo mundo para empurrar correndo (e vestidos de mulher) ladeira abaixo. Chegando no declive o plano dá errado e Wanderley perde o freio e o controle do carro que está prestes a cair no canal da Ponte do Galo. Os seguranças da boate atirando enquanto o carro de Bocage e Aguinaldo, levando as meninas, diminui a velocidade para que o padre e o delegado entrem pela janela. Wanderley se joga do carro, antes que este mergulhe das margens barrentas, salvando-se. O som do carro, que estava no máximo, ainda tocava os últimos acordes do maior sucesso do Alice in Chains.
Dentro do outro carro, enquanto dirige, Aguinaldo pergunta preocupado, para o delegado:
- Pra onde, Chefe?
- No, no. Só tem um lugar pra levar essa santa: para a igreja das Novenas. Não se preocupe com os outros. Eles chegam até lá de alguma forma e antes do final do jogo.
Bocage ainda teve cabeça para organizar uma porrinha com o whisky roubado e embebedar de vez as meninas. Ivone e Marta já estavam na quinta rodada.
O grupo se divide ao atravessar a ponte: Vila, Castro, Aloísio, Wanderley, Sávio e a garota tem que atravessar, do Telégrafo até a Cidade Velha a pé, destino igreja das Novenas.
Os seguranças retornam. Mas isso não vai ficar assim.
Do lado de fora da boate, num cartaz com a foto da mulher mais estupidamente gostosa que vocês puderem imaginar, estava escrito:

DESSE NAIPE VOCÊ SÓ PEGA AQUI!

CONTINUA...

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