terça-feira, 31 de julho de 2012

PORRE DE ONTEM BLUES (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek




minimize
minimize a cada dia,
mês e ano
a sua fome, a sua carne

muitos bares não são raros
nos dão a elza e o Raul
ficam os calos
uns leves trocados

agora eu pago o preço
daquela falta que a gente marcou
hum, meu bem, um bocado
você bem que tentou me passar tantas pernas

quero aquele gozo de volta,
que rolava firmeza, bem no começo
as gírias, os backs, as pipas
um tcc baseado nas carreiras de tosco desejo

cantando um som de obcecado, de louco
música do avesso, ilegal
as estrofes e as rimas berradas
nesse famigerado blues, refestivo

baixo astral
reticente recomeço
madrugadas e esquinas
nenhum amigo

é claro, é claro
eu sei bem disso que eu já sou
estou tentando me largar, sem levantar, sem reagir
pra você tropeçar, me ferir

jogar um trocado


segunda-feira, 30 de julho de 2012

O LARGO DA PÓLVORA (de Marcos Salvatore)

by unknown




perdão pela confissão...
mas eu precisava disso para relaxar,
já não me sinto tão sufocado.
o problema é que eu não consegui me conter,
mas já ficou tudo bem,
tô relaxado,
é que às vezes as coisas se perdem na minha cabeça
e isso parece que quer me devorar,
sinto sensações mais fortes do que eu,
talvez seja culpa dessa coisa "religiosa" que faço:
andar corajoso e sem rumo por aí
na cama com a pouca sorte
talvez eu sinta necessidade de me sentir um vadio
de vez em quando

reparo numa jovem que esperava alguém
sei lá se esperava mesmo
mas gosto de pensar que ela aguardou por essa pessoa
durante muito, muito tempo
não me parecia diferente de outras daqui
mocinhas com suas bucetinhas aborrecidas da
brasileira família cristã
lírio mimoso
todas casadas com fantasmas de turistas

ela puxa um cigarro de piteira
ascende e quase imediatamente
começa a dançar naquela bruma
enquanto a brisa do pós chuva da tarde lhe soprava o dia
do outro lado da rua
não adivinhava o quê do propósito de tantas mangueiras
tantas sombras ao vento
ainda mais com a água de chuva secando em seu único vestido
colado no corpo

uma vontade de também fumar...
um gostar macio de varrer terra, sentir vento de luz, soprar fumaça
conto as moedas e compro um mais barato... bem mais em conta
depois do primeiro trago descubro o porquê da promoção
fumei mesmo assim, numa turbulência que não deixa estragos
e lá estava eu...
testemunha ocular e auditiva do acidente voluntário

nossos olhares se cruzaram o quê?
uns dois segundos, no máximo
de não deixar em paz
que continuaram sendo
e ela não virou o rosto
nem mesmo quando aquele “Tamoios – UFPA” a colheu pela raiz

quase na encruzilhada do IEP com Manoel Pinto.

ah, Morte
me fala toda essa gente de um jeito...
insegura anfitriã,
que eu entenda

- “atravessou a rua cantando”, alguns dizem.

em Belém não há esgotos, apenas céus abertos.
por isso não demorou para as moscas se juntarem
falavam em morte, em destino, experiências espíritas no fundo de seu quintal etc..
gente linda me dá nojo
como amam, necessitam de detalhes sórdidos
sacrifícios populares

um calafrio de costelas,
como uma lavagem estomacal,
me calou os ouvidos em tempo de resistir contra a cor dos seus cabelos colados ao sangue no asfalto.
limpou meu interior, toda a grama do largo
correu pelas esquinas da praça em ereção involuntária
acordou mendigos em diarreia pré-agônica
gritando, ameaçando abatidos transeuntes
religiosos, cativantes amigos de ombros e copos

todos juntos aqui,
longe de casa

sexta-feira, 27 de julho de 2012

CIDADE, VELHA AMIGA (de Marcos Salvatore)

by Andre Kertesz




Estou jogando ideias fora, escrevendo pra mim, por isso, não me levem tão à sério.

“Belém é o abismo de um inferno letárgico” - Minha caligrafia é péssima - mal entendo; mas consigo me lembrar da caneta atrás da orelha: Tinha acabado de usá-la antes de atender a última porta. Amigas de foda sempre querem na hora, bem quando você pode estar “marromeno” ou “impinimado” com a saudade de ter mais uma chance.
Pensamentos ao portador para um feliz desaniversário. Dia criado para venda de selos e equilíbrio dos perdões. Durante a chuva nem parece julho. Observo formigas lá embaixo e tento rir das mesmas piadas, gostar das mesmas músicas, decorar os mesmos pontos de vista da pequena tribo – é foda, Padre.
No papel também estava escrito “Não perca tempo tentando me perdoar... nunca mais”. E assim começa mais uma insidiosa sexta-feira 13. Festival de um fugitivo no verão. Esquina de praça centenária.
Bloco do Canalha lá fora, mais tarde, mulheres líquidas, greve das universidades e escolas técnicas federais. Fotos antigas da cidade me fazem muito bem. Histórias antigas. Sinto falta da máquina de escrever, dos cinemas de rua: sobrou apenas um. Sinto a falta daquela garota - a gente mal conversou, depois de tantos meses de saborosa ambiguidade.
Minha Caixa de Entrada não traz muitas novidades e o calor me fez tomar dois banhos a mais. Não saí de casa; a musa de Fellini foi a culpada: Giulietta Masina; Gelsomina – tão sem saber o que dizer ou o que pensar. Tão como...
Não sei o porquê, mas comparo este sobrado com um tipo de masmorra. Mas pensar assim simplifica demais e me torna uma pessoa impulsiva. Não sou assim e vou indo. A fome é um luxo de quem só tem uma janela.
The Hissing Of Summer Lawns – obrigado, Joni. Bati uma pra ti mais cedo, mas antes de esporrar lembrei de outra pessoa. Acho que a fatalidade me pegou de jeito hoje e eu juro que não há ninguém em quem posso descontar.

domingo, 22 de julho de 2012

POR MAIS TEMPO (de Marcos Salvatore)

by Francesca Woodman

Uma voz feminina, no andar de baixo, toca Andrea Doria ao violão. Um homem de sua varanda olha para baixo, coça o cu, desconfiado, enquanto canta baixo, junto com a canção. Dez da manhã. O porteiro grita, interrompendo meu julgamento do mundo.

- Uma moça aqui em baixo. Posso mandar subir?

- Uma moça? E como ela é? – e já um calafrio insuspeito e inesperado.

- Vinte e poucos anos. Bate um bolão.

- Manda subir, digo sem pensar.

Volto para a varanda. A voz agora canta Beechwood Park. Sua voz parece triste. Trilhas sonoras são difíceis de bolar. A música brasileira vive muito no passado. É por isso que ninguém fode ouvindo Chico, nem Milton. Mas Elis Regina é duca: Me deixas louca...

Quem será? Deve ser alguém vendendo bíblias, uma Testemunha de Jeová ou auditiva ou ocular. A campainha toca. Olho pelo olho mágico embaçado e não vejo ninguém. Abro a porta.

(...)

- Como me achou?

- Oiiiii! Antes de tudo, eu tenho uma boa e uma má notícia pra te dar. Qual tu queres primeiro? Seja sincero.

- Deixa ver. Acho que é melhor saber da má. É. Pode falar. Manda ver. Manda bala.

- Como adivinhou?

Mal consegui sentir medo ao ver a arma que ela tira rapidamente da bolsa. Também o tiro que me atingiu de raspão no ombro não me assustou. Só senti temor quando minha ex-noiva, evangélica, cantora de gospel, calmamente entra e fecha a porta atrás de si, assoviando, enquanto eu me contorço no chão.

- Agora a boa notícia, Amore: Eu não te amo mais. E, se eu não te amo mais, posso perfeitamente te esquartejar ainda vivo, depois pegar teu saco cortado e jogar pros urubus comerem. Hein? Que tal?

- Baby, escuta, Baby. Olha. Vamos falar sério.

- Como é bom te ver aí, rastejando igual a uma lesma. Seu micróbio nojento!

Ela caminha calmamente e se senta no sofá. Olha pra mim de uma forma que, de um jeito que...

- Hum. Vamos ver. Por onde eu começo? Ah, já sei. Tu ainda tens daqueles cigarros de cravinho? Oh, não consegue falar. Não se preocupe, eu trouxe uma carteira pra mim, e não te dou, que faz mal. Talvez uma musiquinha leve para este reencontro, ui, tão esperado.

Vai até o quarto e volta com um cigarro já aceso - ainda penso em pedir um, mas lembrei que um homem baleado dificilmente fuma, a não ser em filmes B. Tira os sapatos e senta bem perto de mim. Chuta meu ferimento, eu grito, grito muito e ela senta a mão na minha cara.

- Cala a boca, merda! Quer que o prédio inteiro saiba? Não era pra eu te estabefar, mas foi bem feito, quem manda gritar, aí, que nem criança?

- Saiba do quê? Au, au...

- Isso. Late seu cachorro, fedorento.

- Por quê? Por quê? O que foi que eu fiz? Escuta, me escuta. Eu juro que ia te procurar.

- Sabe a impressão que eu sempre tive de ti? A de que o fracasso te faz feliz. É. Tu és um parasita. (...) Sei que não devia mais fumar. Mas eu adoro esse de cravinho. Hum?

- Eu tô sangrando (isso é importante de lembrar: geralmente antes de morrer, sangramos).

Ela me ouvia. Nenhuma reação. Seus olhos virados para a varanda. Parecia intrigada com algo.

- Escuta. Que música é essa, hein? Essa, que vem aqui de baixo. Parece a nossa música.

A dor era tão grande que, antes de desmaiar pela dor, só consegui balbuciar:

- Parece...

Sonho com uma rua da Cidade Velha, lá embaixo. Estou baleado e entro e saio de portas de plástico, até ter acesso a um banheiro com uma vitrola tocando um tango vagabundo, tão gostoso de ouvir que me sento no bidê e a vontade de cagar se apresenta sem cerimônia. Até que dois velhinhos negros, muito idosos mesmo, entram e começam a dançar lascivamente. Sinto um cheiro de rosas e imagino que é o meu cocô, descendo feliz. Mas não era.

Acordo e o meu ferimento está medicado. Tinha esquecido que Eulampia era enfermeira formada, e das melhores. Os pacientes viviam me dizendo que ela tinha mãos de fada. Penso: - Mãos e boca de fada; cada boquete..., mas me lembro de odiá-la novamente pelo tiro.

Estou amarrado com punhos de rede; mãos e pés separados, no chão da sala. O pai dela, que era marinheiro, fez questão de ensinar uma porção de truques para a garotada. Não era um pai nada tedioso o Seu Bona.

- Baby!

Volta da cozinha, de avental.

- Sim, amor?

- Poderia me desamarrar? Preciso ir ao banheiro.

- Ô, amor. Desculpa, mas não posso... ainda não.

- Mas é número dois. Número dois, porra!

- Olha o palavrão. A cera ainda está no fogo.

- Que cera? Pergunto e me lembro da Mãe dizendo: - “Passa de novo que ainda não tá brilhando. Passa. Vai.”

- Tu vais ver, ou melhor, sentir. Agora dorme mais um pouquinho, tá, amore? Tenho uma idéia pra tu dormires rapidinho.

Me dá um chute no saco e no estômago tão grande que me mijo e me peido todo antes de desmaiar outra vez.

Sonho com o dia em que nos conhecemos.

Eu estava voltando de uma putada no Bazar do Rock, e os amigos me deixaram na rodoviária. Estava tão cansado e bêbado que acabei usando meu exemplar de O Nome da Rosa (que eu nunca li) como travesseiro e adormeci. Acordo com aquela coisinha fofa em pé, bem na minha frente, toda de branco, com aquela marca de calcinha me olhando. Levanto e chego, bem por trás, apalpando sua bundinha durinha, dedo do meio em riste. Não deu outra, ela se virou e sentou a bolsa pesada na minha cara, quebrando o meu nariz, merecidamente.

- Ai, me perdoa, eu não queria. Achei que fosse ladrão, ai, meu Deus. Eu quebrei teu nariz!

- Oh... Oh... Eu só ia perguntar as horas e tropecei, moça. Oh... Oh...

Pegou um táxi e me levou para o hospital onde trabalhava. No caminho, colocou minha cabeça em seu colo, sujando toda a sua roupa de sangue. Sentia o perfume dos seus peitos, sentia seu calor roçando a minha ressaca banhada em suor.

Depois dos curativos me levou para o sua quitinete, sob os protestos das colegas de trabalho:

- Mas, o que é isso? Pra quê isso? Tá doida?

- Ele não tem pra onde ir desse jeito, mora longe. E a culpa foi minha, mesmo.

- Sua tonta. Não tá vendo que isso é vagabundo profissional? Só quer um pezinho para se encostar.

- Vão cuidar da vida.

Ela sempre dizia que se apaixonou quando sentiu o cheiro do meu café, levantou e viu toda a louça lavada, todo o cômodo arrumado com janelas abertas. Pensou que eu tivesse ido embora, mas logo em seguida eu chegava com pão, “mortandela”, margarina com sal. Não era o pedaço de bosta que as companheiras de trabalho pintaram, afinal.

- Obrigado, eu disse. – Daqui a pouco eu vou embora.

Se aproximou de mim com os dedos enrolados na gola da camisola. Olhou para a mesa posta e me perguntou:

- Tu não ias perguntar as horas, não é?

- Não.

(...)

Na primeira foda os seus peitos batiam e batiam no meu nariz. Meus gemidos de dor lhe davam mais tesão enquanto ela pulava e pulava. Acho até que aquela mulher não trepava há muito tempo. Nunca perguntei. Fica a dúvida. Ela era demais.

- Acorda, Amor. Acorda?

- Oi, estava sonhando contigo. Com a primeira vez que a gente...

- Ah, é? Que lindo. – Disse isso e puxou o primeiro retângulo de pelos das minhas pernas.

- UAAAAHHAHAHAHAHAHAH!

Minha pernas estavam remeladas com cera quente de depilação e ela colava e puxava, colava e puxava.

- Sabe, amor. Lembra quando tu me dizias: - Pra quê tanto cuidado com beleza se a tua cara é a mesma? – Pois é, eu me lembro de tudinho. Lembra quando me deixava sozinha e chegava de manhã? Lembra de quando nunca mais voltou?

A tortura durou uma hora, mais ou menos. A dor foi tanta que quando ela depilou todos os pelos do meu saco eu quase, quase miei.

Depois, o peito. Em seguida o sovaco.

- Pronto. Ficou lindo. Que nem um pato prestes a enfrentar o tucupi. (?) Ah, mas falta o principal.

Ainda consegui balbuciar: - O quê, pelo amor da puta merda está faltando?

- Ué, a bundinha claro!

- Não, Pia (seu apelido era Pia). O meu cu, não! O meu cu, não! Pia, não! Como uma crente pode pensar numa coisa dessas?

- Não sou mais religiosa. Um estágio no inferno faz maravilhas, Neto (apelido: meu nome é Minervino, muito prazer).

Esperneei o quanto pude, mas ela finalmente tirou um líquido da bolsa e derramou num lencinho de linho. Enfiou aquilo na minha cara e eu apaguei, completamente. Acordei com o cu pelado.

Mais tarde, o cheiro de esmalte vermelho me lembrou de quando eu, realmente, caçoava dela. Tudo besteira de macho. Eu não sabia como amar uma mulher tão legal, então fingia que ela não era pra mim. Brigava por nada, dei uma de nojento total com ela, implicava com tudo. Não queria que ela me amasse mais. O seu caráter generoso me fazia lembrar do quanto eu era imperfeito.

Ela me pintou as unhas com tanta delicadeza, com tanto carinho que cheguei a ter uma ereção involuntária.

Notou e me olhou, um pouco surpresa, enquanto uma lágrima, também involuntária caia do meu olho esquerdo, me fazendo lembrar que talvez ainda a amasse demais. Mas, não disse nada. Apenas voltou ao serviço, um pouco perturbada, talvez pensativa (ou arrependida).

Também fez chapinha no meu cabelo crespo de branco neto de negro. Aquilo dói pra caralho. Mas, eu não reclamava mais. Queria que aquilo terminasse logo. Mesmo quando ela, com uma pinça, habilidosamente, fez a minha sobrancelha, eu não gemi, nem reclamei.
Aquilo também dói que nem o cão.

Foi quando estava me fazendo a maquiagem que finalmente me explicou.

- Tu me usaste. E eu te amava. Isso não se faz com alguém que nos ama. Me traiu, me explorou. Me enganou, me abandonou. Eu enlouqueci, perdi meu emprego por faltar todos os dias te procurando  em necrotérios. Até que um dia encontrei um dos teus amigos de farra e ele me disse que tu estavas aqui, nesse penico, escondido. Seu fujão. Se não me amava mais bastava ter dito.

- Pia, eu nunca te trai. Só estava com medo.

- Medo é o caralho! Não, não diz mais nada. Seu puto. Depois que eu terminar te dou um tiro e depois me mato. Vamos apodrecer juntos aqui.

- Pia.

Ela estava de calcinha transparente, peladinha por baixo. Os biquinhos dos seus peitos se eriçaram, eu pude perceber, quando ela me pegou olhando, examinando.

- Que foi? Não me faz chorar agora com mentiras, senão eu erro aqui o traçado. Para de me olhar. Quer parar?

- Pia. Tu não queres fazer isso. Por que não me dá uma surra com cabo de vassoura, me quebra todo na porrada e vai embora? Tens a vida inteira pela frente. O lixo é o meu lugar, não o teu.

- Agora, sim. Só falta o vestido.

- Que história é essa de vestido, Pia? Não vou vestir porra nenhuma! Isso já é demais.

- Vai sim, senão eu atiro nos teus culhões e a morte vai ser bem mais lenta. Bora logo! Eu vou te soltar. E quando eu te soltar vai me obedecer.

Coloquei o vestido tremendo de raiva. E os sapatos número quarenta que ela descolou em algum marreteiro da João Alfredo. Trouxe o espelho e eu parecia um calouro dos Dzi Croquettes. Pensei em pular pela janela, mas pensei nela sendo presa. Ao invés disso, avancei e a agarrei com o pouco de força que eu ainda tinha, jogo sua arma longe e a seguro no chão, por cima dela, seguro suas mãos. A gente se olha e ela começa a chorar. Um choro que faria o próprio diabo voltar atrás. Uma vontade de beijar seus lábios entreabertos e sofridos...

(...)

Eu a solto. Me levanto e dou três passos para trás com as mãos para trás e os dedões para cima.

Ela me olhou de cima a baixo. Meu mudo consentimento a fez enxugar as lágrimas com as costas da mão. Foi buscar o revólver. Deteve-se a dizer apenas:

- Agora preciso te amarrar uma última vez.

- Pra quê? Já não conseguiu o que queria? Pode me matar agora. Minha vida não vale mais nada.

- Calado, cachorro. A única pessoa com moral aqui sou eu.

Me amarrou na cama, de par em par. Depois começou a tirar a roupa: o vestido, as meias, soltou os cabelos loiros, depois do sutiã aqueles lindos seios rosados apareceram, de olhos abertos pontiagudos pra mim; depois da calcinha pude sentir o ar de sua buceta carnuda. Ela foi sistemática: ao perceber meu pau quase rachando de duro, levantou meu vestido, rasgou minha calcinha com os dentes e o tomou entre os dedos para o maior boquete que um homem poderia esperar de uma assassina em potencial, me chupou tanto como se sua vida dependesse disso, depois se posicionou de forma que eu sentisse a presença dos seus lábios vaginais em contato com minhas pernas, recém depiladas. Seus mamilos faziam círculos, como um compasso nas minhas coxas, desenhavam planetas. Eu estava quase gozando, meu Deus, eu estava quase gozando um universo pelos poros. Foi então que ela subiu e montou em mim. Soltou minhas mãos e meus pés para chegarmos juntos. Sua bunda tremia ao se encaixar nos boleros apaixonados do meu pau, minhas mãos se agarraram famintas em seus quadris que velejavam a todo pano. Vários orgasmos depois, ela, ainda suspirando delícias, me abraça e diz chorosa: - Não vim aqui pra te matar. Eu vim te buscar, meu amor.

Horas depois, enquanto eu vigiava o seu sono, lutando contra o cansaço, lutando por mais tempo abraçado a ela, acordado finalmente, só conseguia pensar na época em que andava por aí, perdido do caminho de casa, procurando uma surpresa.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

INVISÍVEL BLUES (de Marcos Salvatore)


by Mary Ellen Mark



então tá meu irmão, é isso aí, bicho
não precisa contar com conversa ou tristeza
com o ovo no cu da galinha

de manhã vem pra casa
e esquenta a sobra do almoço na lata do lixo
mistura tudo num engulho de choro e sardinha

restos de farofa, porrada e garapa
descaminho desnudo de cheirar ou fumar

de esquina em esquina uma criança num sinal
enquanto isso a gente espera o carnaval

eu mal sei direito o que devo ser ou fazer
se sou marginal, invisível
a que preço me vender

- ei, tio, me arruma um trocado em troca de uns órgãos?
aqui tem chiclete, palavras cruzadas
um coração embriagado de fome
minha idade e o meu indigno rabo

um pouco de brinquedo, de história
talhada em madeira molhada, modesta ou sucata

de esquina em esquina


terça-feira, 17 de julho de 2012

O MARCO DA LÉGUA (de Marcos Salvatore)

by Bill Brandt




Entro no Mauro’s, mais cedo que o de costume - nove horas. Chaco com Paulo II.
Vinte contos no bolso: três e setenta e cinco, o cigarro; cinquenta centavos, o fósforo, quatro contos a cerveja; um real para o Bill – acho que sobra dois para a van (não aceitam meia depois da meia-noite). Há tempos não escrevo nada.
Seu Bacana me serve. Conta em detalhes das experiências com cogumelos fertilizados por estrume de vaca – telepatia, gênio etc..
- Sabia que alguns estudiosos dizem que uma pessoa pode levitar naturalmente alguns centímetros? Só depende da motivação.
Apenas ouvi como de costume. Daquilo guardei a palavra “levitar”.
Ele também me contou sobre uma samaumeira gigantesca que existia atrás do Souza Franco. Numa determinada época do ano ela soltava um pólen parecido com neve. Neve.
Meu pen drive traz canções que só me fazem pensar nela. Não posso pensar nela com pouco dinheiro no bolso. Dor de cotovelo dá um sede dos diabos. Ela era a minha borboleta – mas isso é uma outra história para um outro bar, outro balcão.
Horas depois das notícias (acidentes na estrada, mortes, overdoses, voto nulo e futebol) o bar estava cheio, agindo e reagindo como em toda sexta-feira, como em toda rede “anti” social - não vou entrar em detalhes.
Às vezes penso que nossos vínculos com a inevitável inércia coletiva ao redor da mesa do bar têm relação com uns tantos ressentimentos insuspeitos: perdidos da matilha procuramos uma colina qualquer para uivar a perda do que um dia foi querido ou caro. Mas, ninguém vai confessar, muito menos eu.
Chega o Tiozinho “cospe-fogo”. Um senil dragão, conhecido por todos os seus caqueados com vidro quebrado, contorcionismo e etc, etc, e, é claro, etc..
Faz uma apresentação no meio da rua, com cegas e mudas, reverências. Sempre diz coisas que ninguém entende, nem liga por não entender. Eu presto atenção, não perco um detalhe sequer (confesso que também não saco porra nenhuma).
Todos estão surdos, como diria o Roberto, bajulando ouvintes cheios de pavulagem e conselhos altivos, enquanto aquele senhor cria um clima circense para o seu rompante pirofágico.
Pausa para um vendedor de estatísticas:
- Esse bairro, rapaz, esse bairro já foi interior dessa metrópole. Aqui tinha sítio desse lado, daquele lado. O Bosque era um quintal, porra. Limite da cidade. Tuna, Remo e Paysandu também estão aí.
- Vai dormir que tu estás é porre.
Eu estava no balcão, esperando o dinheiro acabar, mais uma vez. Tentando descobrir o motivo de estar ali, curtindo o show; foi, então, que começou a chover.
Vejo o desespero do mestre, juntando suas coisas na certeza de que sairia dali sem o pão do dia seguinte, sem nada desta vez.
- Égua, desconjuro!
Ao meu lado alguém pede a terceira música do lado B do disco tal do IRON MAIDEN. Acolá alguém fala o mais alto possível sobre quantas vezes foi em Algodoal. Outro diz que é amigo de fulano e sicrano, candidato. Seu Bacana discute o valor da conta com um terceiro indignado. Alguém desidratando a namorada de alguém, banheiro lotado, uma rebelde vontade de mijar, uma morena estilo pornô-amador me faz assim, “mmm”, com os lábios e... – bom, depois termino essa.
Reparo no tiozinho, quieto, encostado num canto de fora do Templo do Rock, esperando o toró passar. Mãos recolhidas, olhar inexpressivo.
A chuva injustiçosa passa. Belém é mulher das mais furiosas, tem mesmo dessas coisas lindas e climáticas, quase meteorológicas no humor.
- Lá vai o Tio, de novo – alguém diz, sem expressão.
Ele retoma o seu lugar no lado de fora do Bazar. Prepara-se e, um segundo antes do um novo aguaceiro descer com o cacete, desiste, dessa vez, sob o olhar imediato de todos.
Arruma suas coisas, cabisbaixo. Suspira antes do primeiro passo; antes da primeira moeda cair... depois mais uma, e outra... moedas de um real, cinquenta centavos, juro ter notado aviõezinhos de cinco, dez reais.
E enquanto durou aquela chuva de trocados, o tiozinho sorria e sorrindo, parecia estar pensando em alguém... parecia levitar.




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