segunda-feira, 29 de agosto de 2011

MÉNAGE ATROZ (de Marcos Salvatore)

"Ménage à trois", de Hernan Bas


Não vou perder tempo com detalhes inacabados. Não saberia falar deles, por isso, vou direto ao último capítulo.
“A escolha foi sua. Só queria te poupar”
Depois de meses de sexo alternativo, marcamos um encontro decisivo. A tão esperada noite. Antigamente a gente só vivia uma vez.
“O amor é puro entusiasmo e raiz”.
Ela me fez valorizar e saborear os lábios vaginais de cada pétala não desabrochada de sua flor. Sua crueldade sodomita em me cultivar com promessas, me aniquilava... me nutria.
“Deriva do ópio o que sinto quando te ouço dizer, distraída: - “Não””.
E o tempo aumentou minha obsessão por seu amor, também fez o que devia: apenas deixou-se passar, como um sinal da cruz.
“Resumo: minha loucura sou eu”.
Um dia fomos surpreendidos em casa, descobertos, confrontados, mas negamos, foi o que fizemos, sim. Negamos.
“Fizemos coisas questionáveis”.
Uma barata voadora interrompeu nossa tensão para pousar dentro da xícara de café, mas não morreu imediatamente, parecia nadar naquele morno suicídio involuntário. Ela então toma coragem emprestada do seu hímen intocado e o desafia.
“Sociedade anônima do tato”.
Ainda intacta, se ofereceu para um reconhecimento: noivo e amante presentes e ativos – uma arma dava a ele garantia de êxito: a ordem dos membros não altera o orgasmo, mas nesse caso alteraria.
“Inocentes, até que se sangre ao contrário”.
Uma vez assisti a um filme em que um morto-vivo, antes de devorar o cérebro de uma velhinha, disse: - “Dói estar morto”.
“Por favor, não me machuque agora”.
Empatamos, pois também acho que às vezes dói estar vivo – valeria mais que a inusitada lua que ri e chora seus minguantes e crescentes.
“Mato os dois, agora, e pego o que deveria ser meu”.
E bem na minha frente deflorou a futura esposa apressadamente. E enquanto a penetrava apontava a arma para mim.
“Não me importo, mas me culpo por não te culpar”.
Desvirginada pelo futuro marido, não o amante, a este dedicou as ancas. Seus olhos se abriam... fechavam... se abriam...
“Vem, que o único armado é você, meu amor”.
Se sentia inocente por amar aos dois. Entendeu ali seu futuro.
“Não sei me atrever, mas me atrevo, não o quanto”.
Assim: Tríplice colheita pagã - Duvido essa teia ao arranhar dois céus. Duvido que tece essa fonte. Duvido que tece. Duvido sua flor ao invadir seu portão dividido.
Foi tudo tão... feio.
“Mas sigo vivo”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Matilde nº 02 (de Marcos Salvatore)

by Mariel Clayton


Boa noite, Matilde
Obrigado pela altitude
Nosso ascendente é igual, é vadio
Se completam, se lançam, se não

Um cão late lá fora, real
concepcional injetável
nos perdoa o crime
Só o creme latir, gritar, rosnar, sibiliar

Aprecio o seu silêncio
Matilde
Esta noite, tava por aí
Estava aqui pensando...

Não sei explicar,
Talvez nem queira
Realmente a gente taí
Gosto da sua companhia.

Me faz sentir melhor...
Eu acho, eu sabia
Billie Holiday me deixa inexpressivo, você
Tão desmascarado, cara amarrada

Meu pau quer ser amigo
Quer te ouvir falar em seu ouvido

Descolei um lugar só pra nós
Nas internas, na boa
Pra gente se gravar num corpo a corpo
Acenando pro tempo passar

Disco voador depois da chuva sem lua
Ando escrevendo um monte de bobagens...
Poemas e histórias legalmente inadimplentes
Verdadeiras infelizes.

Estou exumando meus mortos,
Ultimamente é inevitável,
Acontece o tempo todo
Você faz.

Quem sabe um louco?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

RESTOS DO NAUFRÁGIO (de Marcos Salvatore)




Todos os deuses não podem nos salvar
E, assim, caminhamos a esmo
Esbarrando em paredes de vidro ou concreto
Em avançado estado de recomposição

Não dizemos nada
E só.
Basta!
É fato.

Vemos fotos de desastres todos os dias.

Os amantes se suicidam e julgam um mundo
Sem julgar o fato.
Sempre o fato
E eu me pergunto:

Vai despedaçar meu coração, na próxima esquina?

Se deixar eu juro que estarei de bom grado,
Nem tatuarei seu nome no meu braço.

MINGUANTE (de Marcos Salvatore)

by Namio Harukawa
Aconteceu no Bar da Toca, mas poderia ter acontecido em qualquer lugar. Eu estava lá, perfeito anti-herói, costumava tomar uma ou duas doses e ir embora, como sempre. Chegava cedo, quando tudo ainda estava meio vazio, ia até o freezer e pegava uma gelada (era amigo do dono), dessa vez estava mesmo “no osso”. Sobre mim, o peso de um alcoolismo indulgente, ainda em formação.
Então, aquela mulher maravilhosa entrou no bar, num híbrido de Carla Camurati com jazz, blues e Hard Rock Café; pediu uma dose de uísque e disse:
- Está fazendo um lindo dia. Mas não é pra qualquer um. (...) Já perdi as contas das vezes que repeti isso, e chego sempre a conclusão de que qualquer um pode ter um lindo dia... pelo menos um dia desses – será que hoje é o meu? Será que vou estar preparada para possuir, mesmo que por pouco tempo, algo que seja lindo?
Seu senso comum esmagador me espantou logo de cara. Falava pausadamente como se tentasse não se repetir. Sua voz era meio rouca, um embalo de voz de alguém que chora de propósito, por querer, pelo gosto de estar com a voz cega, fumada. Fiz de conta que entendi perfeitamente, e dei corda, meio cínico:
- Não está simplificando demais? Lembre-se que as noites também são contadas como dias, afinal, falamos de vinte e quatro horas, certo? – A certeza de nunca me dar bem com mulheres como ela me relaxou, me naturalizou.
Alguém dormia sozinho na primeira mesa à esquerda, depois da entrada; uma mulher. Às vezes acho que a escolha da mesa influi muito no que pode acontecer depois da primeira dose, do primeiro cigarro. Neste caso influiu, porque eu sempre preferi beber no balcão – é menos comprometedor.
Pensei: “Belíssima. Mas deve ser só isso”. Ela me olhou, fez uma pausa inesperada e sorriu – preciso dizer uma coisa que pode parecer até bobagem, mas para mim não é; nem a tiro: eu só confio de cara em pessoas que fazem o que ela fez. Como posso explicar? A ausência de neura te dá uma empatia inesgotável, não vou entrar em detalhes; o fato é que a gente se deu bem desde o início:
- Podemos beber juntos ou separados. Talvez estejamos aqui pelo mesmo motivo. Então, por que não compartilhar futilidades egoístas?
Noto em sua mão um bom exemplar do meu autor preferido: - “E esse livro, aí? Também é fútil?”.
- Sempre tenho um livro, para criar meu próprio tédio. Eu e a embriaguez seguimos caminhos diferentes... opostos. Bebo o suficiente para pensar em mim de outra forma. Ultrapassar a barreira do corpo e encontrar um lugar.
Suas concepções eram meio furadas, mas existia alguma coisa no seu carisma que subvertia as palavras de uma forma muito delicada, irresistível, que me fazia lembrar, não sei por que, de uma das fases da lua... ainda hoje.
- Que lugar?
- Eu não sei. Você poderia me falar de algum enquanto dançamos. Mas primeiro eu preciso ir ao banheiro, quer vir comigo?
- Está brincando?
- Deixa de graça. Vem logo, antes que eu resolva flertar com a mulher da outra mesa.
Já disse que o bar estava vazio? Vazio. Estávamos sozinhos, ou praticamente sozinhos. Entramos no toalete feminino. Ela apagou a luz e disse: - E se eu fosse um travesti e quisesse te enrrabar agora mesmo?
Foi automático. No mesmo instante tentei abrir a porta, acender a luz, qualquer coisa pra sair dali, mas ela se colocava na frente, me atrapalhando. Não tive escolha, então sentei a mão por cima da cara. Ela começou a rir, se levantou e acendeu a luz.
- Olha pra mim.
- Me dá essa chave, porra. Que história é essa, “ô rapá”? Se não me der a chave eu te quebro a cara. Seu filho da puta.
- Quer pelo menos me olhar, uma “vezinha” só. Eu abro essa, merda.
Virei de olhos fechados e fui abrindo devagar, bem devagar. Ela estava sentada, completamente nua, na bancada de mármore da pia. Sua buceta era a “bacurinha” cor de rosa mais suculenta que eu já tinha visto na vida. Abriu a torneira e começou a se lavar, começou pelo cuzinho – meu coração parecia querer sair do peito, como um Alien. Seus peitos tinham uma particularidade afrodisíaca: enquanto um tinha o biquinho bastante saliente, o outro se escondia, se tornando quase superficial e eram sardentos como se tivessem sido salpicados por canela. Sua nudez me olhou, atinada, e disse:
- Só vai gozar quando eu mandar.
Sentia meu corpo se partindo à medida que o pau tomava partido na situação. Com uma ingenuidade quase homicida, pensei: - “E se alguém abre a porta e nos pega? Talvez um broto estilo “abadá”. Poderia se juntar a nós.”.
Sempre tive um temperamento meio nervoso. Estar deprimido para mim sempre foi uma espécie de fatalidade kármica, de ante sala para supervalorizar e dramatizar qualquer coisa, como fazer amor com uma deusa como aquela, por exemplo. Seu orgasmo foi tão intenso que ela parecia estar miando. Miando, porra!
Ficamos lá uns vinte minutos infinitos. E no final, quando ela ordenou que eu esporrasse, eu esporrei... entre os seios. Ela espalhou meu sêmen pelo seu corpo como se fosse leite de aveia:
- Faz bem para a pele. (...) Vamos que eu preciso dançar.
Enquanto dançávamos, eu sentia meu cheiro no seu rosto, seu pescoço.
Dizem que não existe felicidade, apenas momentos felizes. Mas isso é papo furado, tudo que é verdadeiro dura para sempre:
- Você tem cara de mulher casada. Digo isso porque as mulheres casadas que rodam botecos como este, sempre chamam atenção. Com a maior frequência são cultas, viajadas, bem sucedidas no trabalho e mal fodidas em casa.
- Sou muito bem casada. Meu marido tem um bom emprego, um bom carro, viajamos em julhos, em feriados, em dias enforcados. Em datas importantes ele me dá presentes: sempre uma jóia, sempre. Às vezes acho que meu marido me paga; que está sempre me pagando por algo que eu lhe daria de graça. Mas, o que existe pra ser dado de graça, não é mesmo?
Dobrava as pernas em minha direção toda vez que terminava uma frase, dava um trago no cigarro de cravinho e esperava sorrindo por uma resposta minha:
- Uma resposta longa, não acha? – Minhas curtas observações, gaguejadas praticamente, eram impulsivas e desastradas.
- É verdade. Gosto de falar pra não me sentir sozinha. Anos de prática. E, olha, vou te contar um segredo: ninguém houve ninguém.
- Nem os padres no confessionário?
- Muito menos eles. Têm o poder do perdão. Considerados demais.
- O que você faria se tivesse esse poder?
- Cobraria caro pela hora. Como uma puta de luxo, chique trambique, meu apelido seria “Dez Quilos de Buceta”. Profissional liberal. Meus dez mandamentos estariam numa tabela de preços. Mas perdoaria pessoas gentis, como você.
- E por que acha que eu pediria o seu perdão?
- Me pediria perdão por me amar. Tenho certeza. (...) Aí, alguém te diz: - já nem precisa botar fé, tem muitos anos pela frente, mas se esquece dos anos que temos para trás. Eles também são nossos: recorrentes, assombrosos. São como bolas de ferro, presas a sua perna por grossas correntes.
- Deve ser desconfortável. Desculpe eu não falar muito. Geralmente só falo quando me perguntam alguma coisa.
- Não se preocupe, você diz tudo que precisa ser dito. Sua atenção me faz sentir especial. Gosto do seu respeito, embora não tenha a mínima idéia do que respeitar.
- Sua verdade.
De repente entra um sujeito mal encarado, visivelmente alterado, parecia enfurecido, vidrado. Ela se levanta e vai falar com ele. Ele diz alguma coisa e os dois se sentam numa mesa, longe de mim. Fingia não me conhecer. Meu amigo, dono do bar, leva uma grade vazia de cervejas e coloca embaixo da mesa. Os momentos viraram minutos, que logo se tornaram horas.
- Ei, Tonho. Como é que é isso? Dá pra explicar?
- Esse é o marido dela. Aposentado, viciado: vive ligado, aplicado, o cacete. Faz vexames, arruma brigas, fica chamando os outros de imbecil quando bebe e cheira demais, apanha dos outros pela rua. Ela sai pelos bares procurando por ele, pagando suas contas penduradas, seus estragos. E ela é tão bacana, cara. Não sei o que ela está fazendo com um “figura” como esse. Deve ser pena. Às vezes acho que a doida é ela, não ele.
- Nem me fale. Espero que ainda dê tempo de esquecer que acreditei... por um instante...
Esperei que o trapo humano fosse até o banheiro. Paguei minha conta, e antes de sair passei por ela, que estava de cabeça baixa. Segui em frente, mas alguns passos depois do portão, antes de voltar ao meu estado normal, alguém tocou o meu ombro.
Ela não disse nada, apenas me pegou pelo rosto e deu um beijo shakespeariano, de tirar sangue, de desidratar. Algo naquilo me dizia: - “Me perdoe, mas eu sou assim”. Depois de uma pausa suspirada, antes de voltar para o marido, olhou para mim, fez uma pausa inesperada e sorriu novamente.

Criado Mudo nº 08 (de Marcos Salvatore)

Sou incapaz de não exergar a beleza.
Vivo numa cidade que me habita por inteiro.
E a medida do amor é, isoladamente ou em conjunto, equivalente ao que sabemos ter para dar e receber; nem um cigarro a mais, nem um cigarro a menos.

E é preciso aproveitar o tempo antes que ele se aproveite de nós.

E é tarde "paca", meu velho.
Já roubamos, já matamos.
Nos perdemos.
Mas se perder é perda de tempo.

O falso testemunho é perdoado por antecipação.
E a cobiça te espera,
Ela está lá, entre a privada e o chuveiro,
Pronta para te ferrar,
Como um escorpião, cauteloso dono
Da cozinha, do quarto, da sala e do banheiro.

ÍMPAR (de Marcos Salvatore)

by Sara Saudkova

Ando envolvido
Estou a par

E sei
Que tudo que ela fez pra conquistar meu coração
Captura

Lama Curativa (de Marcos Salvatore)


Na esquina tem o sol desta manhã
Enquanto o percurso diário se imita
Busco no dia um motivo que me deixe exausto
Pra dormir afinal
Eu faço as contas e os motivos brigam entre si
Justificam-se aos tapas
Suicídio é viver
Sujando a cama de lama curativa
Vontade de cumprimentar alguém na rua quando saio
Passo por todos, olho para os rostos
Agora que estou sozinho
Posso te amar melhor, você
Que me confundiu com seu destino
Mas quando volto tem a lua
E no caminho tem a casa
Aquela que um dia foi minha, foi sua.

VERMUTE - 2º Quadro (de Marcos Salvatore)

Trilha Sonora: O Dizer das coisas, Iva Rothe
In memorian: Perfídia
Peça em um ato e sete quadros

Personagens:
Jacqueline (27 anos) interpretada por um homem
Caio (37 anos) interpretado por uma mulher

2º QUADRO

Cenário: Quarto destruído - uma cama, um criado mudo, um abajur, um aparelho de som, discos em vinil, livros pelo chão, uma privada, uma banheira, um mini bare um penico embaixo da cama.

Entra Caio. Caminha devagar em direção ao mini bar, visivelmente cansado. Suas atitudes transparecem uma angustia interior, uma perturbação exaustiva. Prepara um dry Martini e antes do primeiro gole, dá um suspiro profundo enquanto toca seus lábios sensualmente. Puxa uma cadeira e senta-se em frente a Jaqueline. Olha pra ela com espanto, medo e um pouco de pena. Trágico-humorístico.
CAIO – (puxa um cigarro, acende, dá um trago) Jaque, há quanto tempo estamos casados? (mais um trago sem tirar os olhos da resposta).
JAQUELINE – (serrando as unhas, com graça, feminina, de menina fingida) Sete anos, amor. Sete? (aponta a serrinha para ele, faz um coração no ar, pisca e manda beijinho).
CAIO – Exato. Sete. (levanta-se, mais um trago, suas mãos tremem) Completamos hoje. Estou errado? Não, não estou errado. (contorna a cama, olha para ela de lado) Lembra o que eu te disse ano passado, (pausa cruel) nesta mesma data?
JAQUELINE – (irresponsável) Eu? (naturalidade vulgar) Não, eu não me lembro de nada.
CAIO – (sorriso nervoso) É, Perfeitamente. Foi exatamente isso que você disse ano passado, quando eu fiz a mesma pergunta. (vai até o mini bar pegar mais gelo) Quando te falei pela terceira vez que queria ir embora. (virando-se, toma mais um gole com as mãos tremendo).
JAQUELINE – Me desculpe, amor. Eu ando meio sem noção, sei lá. (aflita) Por um momento achei que você, assim, um bocadinho, não ia mais voltar, (sonhadora) que talvez tivesse sido atropelado, sem identidade, que seria enterrado como indigente e... (romântica) que eu não te veria nunca mais. Não poderia nem velar o corpo antes de te cremar. Tão lindo uma mulher chorar por um marido morto, ninguém sabe se chora de tristeza ou alegria. (volta ao normal e continua a serrar a unha).
Ao ouvir a palavra “morto”, Caio parece se convencer de que deve dizer tudo.
CAIO – (parece não estar certo do que vai dizer) Eu já disse hoje que não te amo mais? Te contei?
JAQUELINE – (para de cuidar das unhas por um segundo interminável, informativa) Pela manhã, enquanto calçava os sapatos. (levanta-se, aproxima-se dele, corajosa) Você parou no pé esquerdo, como sempre, e disse, (ríspida) como sempre: - (imitando voz de homem) “Eu não te amo mais”.
CAIO – (quase gaguejando) E você?
JAQUELINE – (faceira, joga-se na cama, amorosa) Eu ri, como sempre.
Aproxima-se dela como se fosse agredi-la.
CAIO – (desafiador) E se eu te dissesse que é verdade? Que há muito tempo não te amo mais? (contrariado) Naturalmente, o culpado sou eu. (reflexivo) Meu remorso é você. Às vezes acho que não tenho mais coração, nem poder sobre mim. Meu maior medo é descobrir um dia que meu coração é você. (novamente desafiador) O que diria se eu dissesse que vou deixar essa casa ainda hoje? (como se apunhalasse cada palavra) E que acabo de chupar a sua irmã até ela gozar uma, duas, três vezes?
Jaqueline se levanta da cama em direção ao mini bar. Caio a segura pelos ombros, soltando-a em seguida para não deixar o copo cair. Gostaria de ressaltar que os movimentos dos atores devem, obrigatoriamente, entrar em harmonia com suas palavras e entonações com um exagero controlado como o de filmes mudos.
JAQUELINE – (desmascarando-se) Eu diria que você sempre teve um péssimo gosto para mulheres. (tranquilidade neurótica) Ela não vai ser a primeira, nem a última porcaria que você vai comer pela rua. (riso) Cuidado com a indigestão.
Caio dá um murro na porta depois de beber todo o conteúdo do copo, segurando-o com as duas mãos trêmulas.
CAIO – (ameaçador, quase descontrolado) E se eu te desse uma surra? Até te deixar quase morta. Chamaria a polícia? Me deixaria ir embora, ser preso? (caindo em sua mediocridade) Não, isso não. A minha prisão é você: meu inferno, meu castigo. (patético) Mal consigo me olhar num espelho. Eu... já estou preso. (suplicante e agressivo) Por favor, me deixe ir. Não me procure, não me persiga como antes.
Jaqueline olha para ele, muda. Levanta-se, ajeita o sutiã e as alças do vestido. Aproxima-se dele, toca suas sobrancelhas, quase o beijando, mas afasta-se para lhe dar um tapa. Sua fisionomia é de placidez.
JAQUELINE – (com convicção) Nunca! Vai ser assim assado e cozido, meu filho. Você não sabe com quem está mexendo. Do que eu sou capaz. (transitiva) Minha irmã. Eu pedi a ela que te procurasse. (pragmática) Melhor com ela que com uma dessas suas alunas paquitas, tão durinhas, tão bonitinhas, bundudinhas, estilo “ai, motel cinco estrelas, por favor, sim, Bem”. (galhofeira) Vê se te manca, ô, cara.
CAIO – (vitorioso) Eu sei. Ela me disse. (pensativo) Aliás, quanta coisa ela me contou sobre vocês.
JAQUELINE – (perturbada) Não diria. Ela mentiu. (desesperada) O que aquela “peido vivo” disse? Fala, anda! Responde!
CAIO – Como, não? (ágil) Enquanto contava o dinheiro, fez questão de me contar sobre o seu médico. Lembra dele? Te chamava de “Pequena”.
JAQUELINE – (cega, muda, surda) Cala a boca! Cala a boca!
Abraça Caio forte. Ao ouvir o que ele tem a dizer deixa seu corpo cair até o chão, muito devagar, aos seu pés.
CAIO – (ressentido) Me contou que você só gosta de velho. (violento) Sua porca imunda, puta escrota. Chama sua irmã de vagabunda, mas fodia desde os doze com um pedófilo filho da puta. (transpirante) Me contou que ele não queria, que você contou que tinha sido você o tempo todo que insistia, insistia. (com nojo) Que quando ele quis terminar, ficou com medo, você ameaçou contar pra todo mundo e ele meteu uma bala na cabeça.
JAQUELINE – (ondulante) Mentira! Ela é uma mentirosa. Isso nunca. (sonhadora, baixo) Meu doutor. Meu doutor.
Jaqueline joga-se na cama. Toca o próprio corpo com volúpia. Enquanto contempla o abandono de seu marido a demência.
CAIO – (triunfante) Quer saber porque eu bebo? Porque eu não te amo mais? Porque me sinto um verme quando te toco. (ofegante) E dizer isso me dá um alívio, uma coragem de viver na certeza de que vou enlouquecer em breve. (prudente) Então você continuaria amando um homem que te despreza? Que é capaz de dar amor pra qualquer vagabunda, menos pra você?
Caio atravessa o palco, vira-se e aponta para ela. Jaqueline pula da cama e tenta agarrar-se em suas pernas, mas ele foge, com nojo.
JAQUELINE – (ferida) Ainda. Sempre. Te perseguiria se preciso fosse. Seria a sua sombra. (carinhosa) Até você entender que tem que me amar, que é só meu, mesmo não sendo forte, nem generoso – mas franco você é, e as mulheres amam apenas dois tipos de homens: os que gostam de sexo e os que precisam de nutrição e abrigo. Você consegue ser os dois, mesmo sendo um fracassado.
CAIO – (confuso) Mas, por que, criatura? Raciocina. Existem outros velhos por aí. Tem sempre um pau querendo entrar. Até mesmo uma degenerada como você deveria enxergar isso. Eu estou velho, velho. De nada valho pra você.
JAQUELINE – (no limite da loucura) Você não vai me deixar sem nada. Me tirou de casa, larguei faculdade, amigos, briguei com a minha família. Não tenho mais nada na vida. Sem mim você não é nada. Não presta pra nada. (rindo) É um “pomba leza”.
Jaqueline sai pelo palco derrubando coisas. Olha para um punhal de abrir cartas sobre o criado mudo. Olha para Caio e para o punhal diversas vezes.
CAIO – (contraído) Olha pra essa casa. Olha. Não consegue ver? Não enxerga que nem bichos moram assim? A gente se odeia! (lúgubre) Ódio! Não é amor!
JAQUELINE – (ameaçadora) Não vai! Não deixo! Não quero! Te chamo de viado! Minto que é viado! Que só gosta de cu de garotinhos!
Corre até ele e o empurra, duas vezes. Ele a pega pelo pescoço, mas desiste de agredi-la.
CAIO – (amargo) Sua merda! Você não é normal. Não pode ser normal. É louca. Louca!
JAQUELINE – (desafiadora) Que foi? Quer me bater? Vai? Então bate, vem! Não tem coragem? É covarde. Sempre foi, sempre será. As mulheres que você fode sabem que dão o rabo pra um covarde? Me diz, hein?
CAIO – (Exausto) Eu devia te... Não vou bater, não... Não vou dar o que você quer. Estou no limite. Pra mim chega!
Avança para a porta, mas Jaqueline barra-lhe a passagem abrindo os braços. Olhos arregalados, começa a se arranhar e rasgar as próprias roupas.
JAQUELINE – Não, Caio, não! Não me deixa aqui sozinha. Eu tenho medo de ficar sozinha. Olha, escuta, me ouve. Vem.
Agarra seus cabelos e tenta beijá-lo à força Caio desvencilha-se jogando-a na cama em seguida. Subitamente sente uma espécie de loucura erótica invadindo sua alma. Levanta o vestido de Jaqueline, que chora enquanto brinca com os biquinhos dos seios e a chupa com força. Choram juntos enquanto fazem amor com raiva, por trás, com uma intensidade violenta, passional, desesperada.
JAQUELINE – Me bate, Bem! Me bate! Soca amor, soca a tua puta! A tua pequena, doutor!
Enquanto a cavalga agarrado a seus cabelos, de quatro, Caio apanha o pequeno punhal no criado mudo. Arma-se e o levanta o mais alto possível como se fosse apunhalar Jaqueline pelas costas enquanto o brilho de sua lâmina cega seus olhos. Agora aponta a Lâmina para seu próprio coração. Medita enquanto adentra ainda mais em suas ancas. Desiste, deixando o punhal cair lentamente da mão.
CAIO – (desvairado) Suicídio é viver.
Depois de gozar, Caio cai chorando convulsivamente enquanto Jaqueline levanta-se devagar com um sorriso triunfante e insano no rosto. Olha para ele, maravilhada. Enxuga a coriza com as costas da mão. Passa os dedos no esperma que desliza em suas cochas. Chupa os dedos com deleite, depois corre até o mini bar e prepara um dry Martini. Coloca na vitrola a música “O dizer das coisas” e acompanha Iva Rothe, cantando:
JAQUELINE: “... meu coração desanda se você desponta... na esquina da minha alegria faz sol...”. Como no ano passado. Igualzinho, querido. Como sempre.
Fala consigo mesma, enquanto passa os dedos pelos cabelos desgrenhados. Segura o copo com as duas mãos. Olha para os lados, para cima, para baixo. Diz, com um sorriso nervoso:
JAQUELINE – Você é mau pra mim.
CAIO – Monstro!

FIM DO 2º QUADRO

Meiga, a Esquerdinha I (de Marcos salvatore)

Trilha Sonora: Reggae engajado.

Conheci Meiguinha no Carnaval de 1994: num forrozinho universitário muito do pé-de-chinelo - não vou entrar em detalhes. Queria apenas dizer que aquela "coisinha do Pai", tímida, discretíssima, aprendiz de Carola, iria se tornar (com o tempo) a mulher da minha vida - e, é claro, tesourar, marcando em cima, o meu lado rock'n'roll.
- Como é, Princesa? Vai liberar, ou não vai? Me diz.
- Você só pensa em sexo: o Plano Real ainda nem deu o recado e você, aí, pensando só no seu pauzinho.
- Porra, Meiga! Sermão tem hora certa, criatura. E eu não penso só o em mim coisa nenhuma. Você "Bete Balança" e ainda fica com o líquido, porra!
- Cafajeste. Me dá! Devolve a minha apostila do Kant!
- Então me dá um beijo. Um beijo não, dois: uma na boca - e de língua, que eu não sou otário -, e outro na cabeça da minha pomba. Depois eu quero ket, ket, ket!
- Então tá, só isso? Que bicho-de-sete cabeças. Me dá aqui que eu faço até mais.
- Falou! Tá, mas não esquece da linguine, tem que ter linguine, minha filha. (...) Espera, espera. (...) Está me olhando assim, por quê? (...) Solta, Meiga, eheheh. Qualé? (...) Escuta, olha: Eu te levo, te levo no "Se rasgue", ou sei lá. (...) Para, Meiga. Porra! SOLTA A CABEÇA DO MEU PAU, CARÁI!!!!!!!!

CONTINUA...

Anorexa, Tu! - 4ª Parte (de Marcos Salvatore)




O TELÉGRAFO
Um brinde esnobe. Olho em torno. Sinto-me estranhamente protegido por esses personagens tão desconhecidos quanto dessemelhantes. Que lugar! O que eu fazia ali? O que fizemos lá? Para onde? Vinte e uma horas e a cidade está vazia... assim como eu. Minto. Eis a verdade: a alegria otimiza menos a fome: além do leite vem a energia. A luz da cidade apaga as estrelas com seu despudor, sua depravação. E depois de algum tempo sem ser notado, você passa a não notar mais ninguém. Boa noite, dependência.
Duas quadras depois, exaustos de tanto correr (aqueles tamancos não ajudavam), dobram na passagem Brasília e se deparam com um beco sem saída.
Quinze anos de experiência investigativa diária dera a Wanderley uma espécie de pragmatismo emotivo, uma lucidez passional ao mesmo tempo derivada e original. Era uma pessoa que a tudo compreendia com um sorriso sincero e pleno. Era da opinião de que existia um motivo para tudo. Nunca deixara nenhum caso sem solução. Conhecia a cidade em que estava como a palma da mão e tinha informantes nos lugares mais inóspitos e perigosos.
- Meus caros, chega a hora de estabelecermos as prioridades: estamos sem carro, estamos em seis, vestidos de mulher e sendo perseguidos por um bairro inteiro. O que sugerem?
- Temos uma arma... – Castro diz isso levantando a saia e mostrando o revolver preso à sua cinta liga: - Ainda restam quatro balas no pente.
Vila, que ficou calado durante toda a perseguição, arranca sua peruca e a joga no chão; tira os cílios postiços e nota que lhe falta alguma coisa:
- Preciso de um cigarro. Um cigarro, por favor. Pra pensar preciso dar um trago, um trago só.
- Só tenho um – diz Sávio, contemplativo: - vamos rachar, só quero um vinte.
Estavam sob a luminária falha de um velho poste, em frente a uma venda de açaí. Fumam em silêncio até que a misteriosa garota da boate se levanta languidamente e pergunta para Sávio, numa espécie de angústia (...) mas antes dela falar, preciso dizer que ela era linda! Linda! Uma Panicat do michê, com melhores modos, porém (Paquita, não!):
- Então... você não foi lá por minha causa?
- Sinto muito, não me lembro de você, não me lembro de nada. Estou sob custódia da polícia, provavelmente até o final da noite estarei preso por assassinato ou pior: morto... e nem ao menos sei o porquê. Me desculpe.
- Mas, como aconteceu?
- O que eu prometi a você? Qual o seu nome?
- Se você não se lembra, não importa mais.
Aloísio explica, em poucas palavras, tudo que acontecera desde que o flagraram fugindo do local do crime.
- Nos encontramos outra noite. Umas semanas atrás. Na verdade não foi bem um encontro. Não tive clientes e no final da noite ele apareceu. Ficamos juntos e eu gostei dele. Parecia tão sincero e foi tudo tão... verdadeiro. A pessoa mais amorosa, mais carinhosa... foi a primeira vez que alguém me tratou como uma mulher.
Castro se aproxima e pergunta sobre o que conversaram. Quem sabe alguma informação poderia esclarecer a presença do rapaz numa cena de homicídio.
- Contei a ele do meu sonho mais profundo, mais secreto. Ele prometeu que voltaria um dia e me levaria para ver o mar. O mar.
- Está nos dizendo que alguém que você jamais vira, promete lhe levar numa praia? E uma puta acreditou nisso?
- E porque não? A vida é tão curta, não é? Ou não é? (...) Esperei por ele todas essas noites e quando o reencontro me aparecesse com policiais e sendo perseguido.
Wanderley, impressionado, delibera: - “Puta, não: Meretriz. Meretriz! Mas isso é outra história, Professor Castro. Todos são inocentes até que se prove o contrário. Não sabemos quem você era ou foi. Tudo que sabemos é que temos um corpo estirado numa cama, num quarto motel vagabundo e que o Sávio aqui, é a única pessoa que sabe da verdade”.
- Com essas roupas não vamos longe – diz Aloísio para Wanderley: - Ô, Mano, você não conhece algum lugar pra tirarmos estas roupas e pegarmos um carro?
- A Seccional do Telégrafo, mas é o primeiro lugar que vão cercar. Não temos passagem.
- Eu tenho uma idéia: O Cacareco.
- O que é isso?
- É um bloco de Carnaval.
- Mas não estamos no Carnaval.
- Eu sei. Mas hoje tem festa Dark por lá. Entramos por trás, tem os banheiros, pelos quintais da passagem União e roubamos as roupas de alguém. Estão procurando por travestidos.
- Então vamos lá.
O CACARECO

Saindo da Brasília, vêem uma senhora na janela, pequenina, moreninha. Pedem um pouco d’água. Ela entra, anda com ajuda de uma muletinha. Trás a garrafa e um copo que é dividido por todos. Olha para suas roupas, maquiagem e sorrí como uma mãe para todos: - “Guenta! Tem doido pra tudo. Desconjuro!”.
Caminham pela curta passagem União tentando fazer todo possível para não chamar a atenção. Wanderley sabia que batalhas de gangues aconteciam muito por ali, por isso o deserto e o silêncio da rua. Porém, já era tarde. Na esquina da passagem Santa Cruz um grupo de pelo menos dez suspeitos os esperavam.
- E agora? Não dá mais pra voltar.
- Vamos passar por eles, então.
- Por mim tudo bem. Quatro balas resolvem.
- Também estão armados.
- Eu não tô nem lá. Cansei de passear. Tá na hora da diversão.
Se aproximam e o líder a gangue dá um passo à frente e diz:
- Vocês devem ser aquele bando de bichas que fugiram do NAIPE, não é? Não quero problemas com vocês. Só queremos esses dois, aí – aponta para Sávio e a garota. Eles valem mais vivos do que mortos. E somos oito contra seis.
Wanderley se aproxima do líder e faz uma proposta irrecusável:
- Tenho uma idéia melhor. Vamos brigar apenas nós dois e quem ficar de pé se manda com tudo, inclusive as armas. Cada um pega o seu rumo.
- Por quê se eu posso erguer a mão e matar todos vocês de uma vez?
- Porque um líder de gangue que recusa um desafio não é considerado. E eu te desafio na frente de todos os teus. Aqui e agora. Como é? É covarde?
- Velhote! Eu vou te surrar tanto que vão dizer que eu te bati com uma tábua.
Wanderley entrega seus pertences para Sávio: - Segura garoto, que faz tempo que eu não pego um palhaço desses.
Todos abrem espaço e a briga começa. Wanderley leva os três primeiros socos apenas para medir a força do oponente. Cai no chão uma, duas, três, quatro vezes. Por entre risadas seu rosto sangra enquanto todos se contém a seu pedido. A cada soco Wanderley ri cada vez mais e mais alto. Sua idéia era chegar perto o bastante para dar um único golpe.
- Para de rir! Para de rir!
É nesse momento que seu adversário se aproxima o suficiente pra levar um quebra-perna de Wanderley, caindo em seguida aos berros.
Wanderley o segura pela camiseta e o arrasta até a vala mais próxima; diz:
- Meu rapaz. Posso quebrar a outra perna ou te fazer beber água da vala. Qual vai ser?
- Vai te foder!
- Boa escolha. Você é quem sabe. Vai comer merda agora.
Com destreza, enfia a cara do bandido na vala várias vezes, quase o afogando. Chega perto de Sávio e se lembra: - Porra, esse vestido até que é do caralho.
Depois de pegar a rua sem maiores problemas, atravessam os quintais de terrenos baldios e chegam finalmente na entrada de trás do Cacareco. O Pink Floyd Cover fazia um dos seus melhores shows.
- Parece um velório em preto e branco.
- Pelo menos não é um show de aparelhagem.
- Merda! O jogo já deve estar no segundo tempo.
Roubaram as roupas de quem apareceu pra mijar.
- Vamos tomar pelo menos uma antes de ir embora. Só pra ver se cola.
Enquanto tomavam seu drink, não sabiam que uma figura de óculos escuros e aparente interesse em todos se aproximava.
O OBSERVADOR

- Boa noite, senhores. Vejo que trocaram de roupa. Essa está melhor.
- Quem é você? – pergunta Castro, segurando de leve em sua arma.
- Sou um Observador. Chancei, ao seu dispor. Estou aqui para ajudar e trazer notícias dos outros.
- Que outros?
- Do delegado e do advogado. Eles chegaram bem e estão interrogando o padre nesse momento. Estão na Igreja das Novenas. O garoto já lembrou?
- Não. Ainda não.
- Já sei o que houve na Santa Cruz. Foi uma boa briga. Boa briga.
- Precisamos de um carro pra sair daqui.
- Daqui à pouco passa o último Icoaraci. Perto do Curro Velho. Se o pegarem podem descer na Praça do relógio em pouco tempo.
- E você?
- Eu não vou. Eu fico. Não tenho nada com isso. – vira-se para o garoto e diz: - E lembrem-se: talvez a chave de tudo não seja o garoto afinal. Posso distrair quem estiver esperando por vocês lá fora enquanto todos correm. Nos vemos depois da festa.
Quando saem, percebem que o lugar realmente está repleto de figuras mal encaradas.
- No meu sinal vocês correm em direção da Pedro Álvares.
Chancei então puxa duas armas e começa atirar em todas as luminárias dos postes, depois os pneus dos carros. Dá o sinal e todos correm para o semáforo. Acontece que na encruzilhada outros raptores os esperavam para uma armadilha. Pularam um muro que dava pra uma casa fechada. Casa esquisita, sem fachada, nem janelas, apenas vitrôs. Entram todos pela cozinha e bloqueiam a entrada com a geladeira e o fogão. Sobem uma escada giratória estreitíssima até um minúsculo terraço de onde puderam ver o tamanho da encrenca em que se meteram: de todos os lados da Arthur Bernardes e da Pedro Álvares Cabral, armas apontavam para cima. Começa então um tiroteio que acaba com toda a munição.
- Estou vendo o ônibus. Está chegando perto.
- Então vamos ter que pular.
Preciso falar um pouco do sargento Vila: era um homem sem medos, porém nada o assustava ou confundia mais do que grandes alturas. Por vezes, da janela do seu apartamento (janelas com grades) olhava para baixo e pensava: - “E se eu pulasse e saísse voando? Não cairia nunca. Nunca!”. Estou exagerando, desculpem, mas quem não se pergunta isso? O certo é que seu território sempre fora o chão. Então aquela situação parecia decisiva: pular ou não pular para ele lhe tirava o fôlego só em pensar. Mesmo assim, antes da hipótese suicida de pular surgir, pensou: - “Um pôr-do-sol daqui deve ser do caralho!”.
- Ele parou! Parou! Se corrermos e nos jogarmos no teto do ônibus estaremos salvos.
Aloysio toma distância e se joga, caindo em seguida com segurança em cima do teto do ônibus que estava bem perto deles. Wanderley, Sávio e a garota o seguem sem problemas. Ao perceber a jogada, os bandidos embaixo começam a atirar. Castro vira para Vila sôfrego;
- Pula, porra!
- Não posso, não consigo!
- Então ficamos aqui, os dois. Não vou te deixar aqui pra morrer, seu cagão!
Vila fecha os olhos, toma distância e antes de se jogar tropeça e fica preso pela jaqueta entre o ônibus e um ferro solto no vitrô, do segundo andar.
- Espere não se mexa, só mais um pouco. Ainda tenho dois tiros. Prometi usar todas essas balas hoje.
Castro então mira com sua Magnum 44 e atira, soltando o amigo. Pula em seguida, pouco antes do motorista, desesperado pisar fundo, quase jogando-os de cima do ônibus.
- Estão todos bem? Todos bem?
- Não, acho que vamos ter que dar uma parada.
- O que houve?
Sávio sorri nervoso antes de virar para todos e mostrar o sangue no peito.
- Puta merda.
Aloisio passa a mão pela cabeça. Todos se entreolham enquanto o rapaz é agarrado pela garota em prantos. Dois carros os perseguem.
- Ele está sangrando muito!
Ônibus em disparada já estava indo para a garagem depois da última volta. Castro se arrasta até abertura da porta superior e consegue entrar. Aproxima-se do motorista e grita:
- Pare esse veículo que eu vou descer. Essa merda já foi longe demais. Longe demais.
- O que ele vai fazer?
Castro desce e o ônibus segue. Espera pelo melhor momento e dá um tiro certeiro que faz um carro capotar por cima do outro. Um dos bandidos se arrasta atirando e acerta Castro na perna, outro também se recupera e se levanta, aponta a arma para Castro que, indefeso, balbucia: - “Então, é isso!!”. Não vê o ônibus dirigido por Aloisio na contramão, a toda velocidade se aproximando.
O impacto da batida foi tão grande que o bandido foi parar a metros de distância.
- Carona, filhão?
- hehe! Tu sabes.


Na Igreja, depois de ouvir a confissão do padre, o telefone de Seu Iraque, digo, Eráclito, recebe uma chamada a cobrar:
- Que foi, porra? Telefone público? Por que estão demorando tanto? (...) Sei, dois feridos. E o motorista do ônibus? Ok, em segurança. (...) Precisam descer na Dona Roxita pra fazer curativos. É puta velha, vai resolver tudo. (...) Minha mulher já me ligou escroteando. (...) Porra, Wanderley, na minha ausência o comando é teu, cacete. Quero vocês aqui antes do final do jogo. (...) Tá 2X2. Caso sério. O Bocage já tá virando do avesso. E o garoto? (...) Escuta.. escuta... só me ouve. Tem uma garota com vocês, não tem? Isso mesmo. O nome dela é Lucrécia. Lucrécia, ouviu? O padre confessou tudo. Ela é a culpada, Wanderley, a culpada pela amnésia do garoto.

CONTINUA...

Anorexa, Tu! - 3ª Parte (de Marcos Salvatore)


by Helmut Newton



Eu matei. Sim, talvez eu tenha: eu, assassino do que sinto falta. Surpreendo-me com a naturalidade com que me deixo esquecer. Fecho os olhos e ainda vejo, distante, brilhante sobre um fundo preto, o rosto de uma mulher. Lembro-me de amar quando amado, de odiar quando odiado. E cada minuto tem uma profundidade imprevisível, irresponsável. Sou um engodo inusitado, uma isca do mirante do Forte até aqui. Só esqueço de perguntar pelo seu nome, o nome dela.

DEMÉTRIO: O POODLE Nº 0

Os carros pararam em esquinas distantes: Vila, Castro, Aloísio e Sávio. Aguinaldo e Wanderley já estavam a caminho. Seu Iraque, digo, Eráclito; Bocage e dona Aldenora no banco de trás na maior farra riam até de sinal fechado:
- Minha pombinha, dá uma emboladinha aqui, isso devagar com os dentes senão eu não me concentro na materialidade da ocorrência. Cuidado que esse caso é de grande jurisprudência.
- Ai, só gosto de homem que fala difícil. Homens de substância.
Era verdade. Dona Aldenora sentia um atração inominável, desde pequena, menina que subia de saia sem calcinha no açaizeiro, por homens que falavam alto, mais velhos, desembaraçados. Bocage a conheceu durante uma de suas palestras: lá estava ela com seu caderninho de anotações e a cada termo jurídico Bocage percebia que aquela morena de peitos fartos e quadris de “aluna em recuperação” se torcia e retorcia em mil e uma danações. Depois de muitos “datavenias” e “deveras”, soube que tinha encontrado a assistente perfeita para as horas extras.
- Seus imorais. (...) Se a dica do garoto estiver certa, nosso elemento deve estar até o pescoço envolvido com o corpo estirado lá naquela cama – “Oito horas: já vi que vou dormir de novo no sofá”.
- Se Vossa Senhoria me permite, chegando lá, peçamos uma garrafa do melhor whisky e um balde de Red Bull que as Plocs vão “cair matando”.
Entram disfarçados numa boate aparentemente normal, não fosse por um corredor estreito com um poodle minúsculo de guarda.
Aloísio com seu chapéu dos intocáveis (versão em preto e branco) tenta fazer festinha no canino, mas o mutante fica em duas pernas e se transforma num gremlin feroz, botando todos pra pular uns por cima dos outros. Bocage, vestido de motorista de caminhão, acha uma graça infinita e chama dona Aldenora, que estava vestida de mulher que finge que é homem, que finge que é travesti, que finge que é Violeta Parra, para apaziguar a fera.
- Vem cá, bonitinho, não liga pra esses mauzinhos.
Passam todos: Vila de sandálias havaianas, bermudão e camiseta do Iron Maiden e Castro de hare krishna Prêt-à-porter, que antes de entrar dá um chutão no Nº 0: - Por quê essa pavulagem com cachorro? Está quase dando de mamar pra esse pulguento.
O delegado que estava vestido de ator pornô dos anos 70, olha por cima dos óculos ray ban e pergunta para Bocage:
- Ô Bocage, tu ainda tem desconto nesse antro?
- Mas é claro, camarada: cinquenta por cento. Quer ver só? – para o “leão-de-chácara” da entrada: - Nossa amizade, eu sou amigo do fulano de tal, que é dono daqui e gostaria de um abatimento nas entradas, meu nome é Doutor Bocage, mas pode dizer que aqui é o Sabá.
- Por quê Sabá? – pergunta Aloísio, coçando o cavanhaque – Puta nome tosco, anárquico-carnavalesco.
- Ganhei esse apelido quando frequentava o “Nas Coxas”. Só ia no sábado, nada demais. Minha reputação me precede.
O funcionário entra e volta no mesmo instante com uma voz nasalada que deu o que pensar:
- O patrão falou que fiado só amanhã.
Depois de muita conversa vencida há uma coleta e todos entram. Castro ainda pergunta se aceitam Meia Entrada, mas leva um puxão de braço de Vila que a tudo desconfiava no lugar.
E que lugar: padres, freiras, pastores, rabinos, bicheiros, reitores, funcionários públicos, políticos de todas as raças negociando o amor de meninas e meninos de no máximo 17 anos. O maior circo de parafilias nervosas (e influentes) já visto. Puro Ensino Médio em flor, das melhores famílias e escolas da cidade. A surpresa de todos foi tanta, que Seu Iraque, digo, Eráclito, conclui severo: - “Essa é a verdadeira “Corda do Círio”, o resto é piada. O verdadeiro significado das ações... é o significado das ações”.
Desconcertado, Vila pensa: - “Será que vai dar tempo de pegar o segundo tempo do jogo? Aposto que a idéia do plebiscito saiu de um buraco como esse”.
Bocage, lúdico: - “E pensar que é assim que se constrói um país. É por isso que o perdão custa caro: pra financiar o pecado”.
Castro faz as contas e resume para todos: - “Se esse é o Nível Médio, como será o Superior?”.
- Provavelmente mais caro – diz Aloysio que até desliga o celular para ver e ouvir melhor aquela cena grotesca de puro Satyricon. Satyricon não: Sallon Kitty. Dona Aldenora começa a sentir uma coisa, uma coisa.

DZI BIGODES

- Vamos nos espalhar – diz Seu Iraque, digo, Eráclito, cauteloso. Já sabem a quem procuramos. Agora, só tem uma coisa, hein? Se eu pegar alguém de relaxação, vai pro xilindró. Vila, cuida do garoto. Vê se ele lembra de mais alguma coisa.
- Sávio, o que você fazia aqui?
- Procurava por alguém, eu acho.
- Acha? É melhor ter logo certeza de algo, senão, eu acho que vou te largar uns cascudos. Lugarzinho estranho esse, não é? Cadê o sujeito? Cadê o velho que levou a menina?
Um pastor, desses de gelatina milagrosa, brincava de cavalinho com uma ninfetinha de no máximo quinze aninhos, que o chicoteava nas nádegas, dizia: “Opera, minha filha, opera”.
Bocage, aproveitando a oportunidade de tantas autoridades juntas sai distribuindo seus cartões, enxerga de longe o procurado. No palco, o caçado: um padre - ou seria abade? - dançava chupando um picolé de taperebá, agarrado a um índio de vestido cor de rosa e tênis futsal.
É impressionante como a concorrência para catequização de pagãos ainda está na moda. Todos os caminhos levam a Roma, não é “vero”?
- Isso, isso, isso! Vai lá, Pai.
Aloísio tranca a porta, enquanto Castro saca sua Magnum 44 e dá dois tiros numa caixa de som – “Porra, de tecnobrega!”.
- Epa, epa! Que é isso? Que é isso?
O delegado sobe numa mesa e comunica:
- Seus depravados! “Vamo” acabar com essa cornada, porra! (...) Calma, minha senhora, pode continuar com o seu boquete. Nosso assunto é com um único “pó de broca”: aquele ali. Queira se apresentar, por favor. (...) A sua “bença” padre, sabe que o senhor é mais simpático ao vivo que na TV?
O eclesiástico toca de leve os dedos do delegado e diz, afetadíssimo: - “Barazer, Abatezza Zibody. Hoje é beu dia de folda”.
- Ih, mais essa, agora: o velho é tatibitate, “homem-rapaz”! Que marmota é essa? Vamos precisar de tradutor. Tenho uma missa pro senhor rezar. (...) Vila, tá na hora do confessor se confessar. Pode levar. (...) Porra, Castro, eu disse pra não trazer arma nenhuma, cacete!
- Tá aqui no cu deles que eu vinha pra cá desarmado.
Um brutamontes da segurança pega no ombro de Vila e diz:
- Perdeu, perdeu!
Vila calmamente olha para aquela mão em seu ombro e nota que sua camiseta do IRON MAIDEN amassou um pouco:
- Eu perdi e tu achou. Toma o do Natal!
Vila dá um murro que quebra o nariz do segurança e a porrada geral começa bem na hora que Aguinaldo e Wanderley aparecem segurando o poodle nº 0. Wanderley, vestido de Cowboy Fora da Lei, dá o comando: - “Pega Demétrio, pega”!
A gremlin avança em todas as bundas. Aguinaldo, que estava vestido de punk, derruba logo uns três, virando uma mesa cheia de pênis e xoxotas de plástico, sopa de merda e suco de mijo e vômito, pro banho romano – verdadeiro bufê parafilítico.
Como muita gente ali estava amarrada por gostar de bondage, acabaram levando umas lambadas também. Meninas (Duca! Duca!) que vestiam seus uniformes (com os pais presentes), na pressa de correr do flagrante, esqueciam seus cadernos e carteirinhas de meia-passagem.
Peço aos leitores para imaginarem, em câmera lenta, o caso de amor à primeira vista entre o investigador Wanderley e o sistema de som dolby sunrround do recinto que foi possuído por ele ali mesmo, na frente de todos.
No meio de tudo, além do som das cadeiras e mesas se quebrando, além dos latidos assassinos do cachorro, era possível ouvir claramente a risada de Bocage e dona Aldenora dando umazinha atrás da cortina. Todo mundo aproveitando pra tirar umas casquinhas. Putaria, sacanagem e violência. A moçada do “arroz com mel” (enemas) tentava inutilmente correr com aquela coisa enfiada na bunda.
Quando tentaram sair, outros seguranças aparecem no corredor. A porta é trancada e eles ficam sem saída. É quando Sávio puxa o delegado e dá a solução:
- Tem uma porta atrás daquele quarto que vai dar num outro quarto que vai dar nos camarins da boate.
- No, no. Então é isso mesmo. Por aqui, todo mundo.
Antes de sair pela fuga, Castro ainda volta pra chamar todo mundo de bunda mole:
- Seus “gala seca”, bando de frouxos. Agora eu me invoquei, chega todo mundo que eu meto é bala!
É puxado pela camisa por Aloísio e Vila enquanto Wanderley calmamente termina o seu drink, curtindo um som do Uriah Heep que acabara de colocar no volume máximo.
- “Bora”, porra, que a gente roubou umas garrafas de whisky tantos anos.
- A “Abadessa”, protestava: - “Calba, calba! Bor vavor, zim, Bem? Dão be gombrometa. Bor vavor, Negron!”.
- Essa égua tá falando que nem apresentador de telejornal empolgado. Arrasta!
No camarim a única saída era pelo palco e o único jeito de saírem sem ser reconhecidos era o de se travestir e sair dançando (o padre gostou).
E foi isso, quando “Relance”, da Gal Costa começou a tocar, aquelas figuras andróginas deram um show tão bacana que duas mocinhas chamadas Ivone e Marta, invadiram o palco enlouquecidas para agarrar os dançarinos. O jeito foi leva-las com eles.
Antes de correrem para os carros, Sávio teve a impressão de ter visto alguém. Alguém que não poderia estar vivo. É repentinamente tocado no ombro por uma mulher, alguém que parecia reconhecê-lo:
- Veio cumprir seu juramento?
- O quê?
- Não se lembra mais de mim? (...) Talvez disso você lembre.
Agarra-o pelos cabelos e lhe dá um beijo apaixonado, sem fim; depois morde seu lábio inferior até sair sangue. Diz sorrindo, com uma tristeza terna, doce:
- Me leva com você.
- Então vem.
Aloísio acha muito louco, e puxa os dois pra dentro do carro, para junto dos outros. O carro não pega e o jeito é descer todo mundo para empurrar correndo (e vestidos de mulher) ladeira abaixo. Chegando no declive o plano dá errado e Wanderley perde o freio e o controle do carro que está prestes a cair no canal da Ponte do Galo. Os seguranças da boate atirando enquanto o carro de Bocage e Aguinaldo, levando as meninas, diminui a velocidade para que o padre e o delegado entrem pela janela. Wanderley se joga do carro, antes que este mergulhe das margens barrentas, salvando-se. O som do carro, que estava no máximo, ainda tocava os últimos acordes do maior sucesso do Alice in Chains.
Dentro do outro carro, enquanto dirige, Aguinaldo pergunta preocupado, para o delegado:
- Pra onde, Chefe?
- No, no. Só tem um lugar pra levar essa santa: para a igreja das Novenas. Não se preocupe com os outros. Eles chegam até lá de alguma forma e antes do final do jogo.
Bocage ainda teve cabeça para organizar uma porrinha com o whisky roubado e embebedar de vez as meninas. Ivone e Marta já estavam na quinta rodada.
O grupo se divide ao atravessar a ponte: Vila, Castro, Aloísio, Wanderley, Sávio e a garota tem que atravessar, do Telégrafo até a Cidade Velha a pé, destino igreja das Novenas.
Os seguranças retornam. Mas isso não vai ficar assim.
Do lado de fora da boate, num cartaz com a foto da mulher mais estupidamente gostosa que vocês puderem imaginar, estava escrito:

DESSE NAIPE VOCÊ SÓ PEGA AQUI!

CONTINUA...

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