sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Talidomida Mon Amour (de Marcos Salvatore)


Num apartamento vazio, semi iluminado pelas luzes da noite que invadem a janela, um homem senta, encosta-se na parede, acende um cigarro, e, taciturno, olha para um telefone.
No andar de baixo, alguém deitado no chão da cozinha, olhando para o teto, ouve seu disco preferido dos Stereophonics:

No apartamento em frente, um casal faz amor no corredor entre o banheiro, o quarto, a sala e a cozinha. Sussurram num diálogo só de diminutivos.
No décimo, uma jovem que chora, limpa a maquiagem borrada, sozinha. Ao seu redor, jogados com raiva no chão, pequenos pedaços de papel, rabiscados com pequenos poemas alados. Linhas, linhas.
Numa janela aberta para a noite, dois velhinhos juram, mais uma vez, amor eterno. Ela fecha os olhos e se enrubesce, aceita um beijo no peito do seu único e verdadeiro cavalheiro, se entregando de novo, de coração aberto.
Ao mesmo tempo, uma criança se diverte, assiste a um programa de TV, toma seus remedinhos de ninar nenê. Um a um pro dodói parar de doer.
Janta devagar pra não deixar de comer, faz dever com dedinhos lindos de morrer, brinca o pé com o cachorro e o cachorro com o seu pé.
Um telefone toca e do outro da linha uma voz de mulher, voz cheia de carne e sangue, num tom de quem chorou noites inteiras:
- Sou eu. Estou indo até aí pra te matar.
- Não se atrase. Os comprimidos logo vão fazer efeito.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Vastos Bigodes (de Marcos Salvatore)

by Namio Harukawa

O extrato absoluto de ervas e plantas altamente afrodisíacas deram origem ao espermicida oral "Vastos Bigodes".
O melhor estimulante sexual, com sabor agradável, sensacional, delicioso e exótico de gengibre e cravinho.
Concentrado de frutas e ervas conhecidas popularmente como altamente afrodisíacas a base de:
Catuaba, cordão de são francisco (nó de cachorro), damiana, marapuama, vergateza, tribulus terrestris, ginseng, guaraná, maca-peruana e melancia.
"Vastos Bigodes". Quanto mais alto se voa, mais longe se vai.
Agora em nova embalagem para cremes, supositórios, espumas ou geléias especiais.

Ravina (de Marcos Salvatore)

by Guido Crepax

Amor de carne e osso
Meu desgosto é estar livre
Sem você pra me prender

Amor, paixão, obsessão
Já te chamei de tanta coisa
Que só me resta o horizonte

Já te falei pra viver mais
Deixei pra trás o que há em tudo
O que é o amor você levou


Voz e coração II (de Marcos Salvatore)

by Angelo Agostini

O amor é um presente
Que só pode ser dado ou recebido
Com desespero
O futuro do presente,
O lado esquerdo do peito
Embebido por gotas de estrelas e
Pegadas coloridas de certezas.
Um mundo inteiro
Um sim e um não
A vida cabal, global, integral
Buscando um chão, um tão, uma opção
Uma voz... um coração.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SETE (de Marcos Salvatore)


Primeiro Eva e a Cobra bateram um papo calcinha que a própria Pagu anotaria em seu diário. Depois, a fuga genial do Paraíso. Caim matou Abel por ciúme incestuoso da Mãe. Adão viveu e morreu no ostracismo da fruta: aquém, além, amém. Gostaria muito de saber o que aconteceu com o seu terceiro filho.

SETE (de Marcos Salvatore)
Trilha Sonora: Nina Simone, Iron Maiden, ACDC, David Bowie, Lou Reed e Waldick Soriano

Sete era órfão. O pai se suicidou depois que todos descobriram seu romance com a própria tia – estourou os miolos na sua presença, e quando a polícia chegou, ela ainda catava pedacinhos de miolo pelo chão. A Mãe ficou meio triste com a história e um dia saiu com Sete pra comprar cigarros e o abandonou numa esquina movimentada. Nunca mais foi vista. O menino foi encontrado num semáforo fazendo malabarismo (não sabia fazer truques) por uma assistente social da prefeitura. Não se lembrava do próprio nome, por isso uma freira, que o acariciava muito, lhe batizou com um nome bíblico. Fazia isso com todos os menores recolhidos sem nome, para não se esquecer de rezar por eles.
Menino tímido, cresceu, saiu do orfanato, começou a trabalhar como apanhador de cachorros (merdeiro também era uma opção) e casou com uma moça de família, com pai baiano e a mãe pernambucana. Foi chamado e a conversa foi mais ou menos assim:
O PAI (brincando de relógio com uma peixeira que estava sobre a mesa – the book is on the table): O senhor sabe que eu na sua idade, já era um homem feito. Trabalhava numa fazenda de bodes. E... sabe como é que se castra um bode, e porque?
SETE (meu Deus!): Não senhor.
O PAI (gesticulando de acordo): Eu lhe digo. Você pega o bode pelo saco, faz assim, aperta bem e amarra com linha forte. Espera uns dias, num sabe? É claro, nem sempre dá certo...
SETE (banhado em suor): O bode que o diga.
O PAI: O senhor falou o quê? Bom, deixa pra lá. O fato é que num belo dia você percebe que os culhões murcharam. É eu acho que a gente tem que cuidar muito bem dos nossos bagos. O senhor não concorda seu moço?
SETE (com a boca seca): Pode apostar.
Então casou, no civil e em três religiosos. Tudo para agradar a família da noiva. Na festa do casamento um tio, que tinha hemorróidas, chegou atrasado e porre, bateu em seu ombro e perguntou: - “Daqui é voltando, ou do outro lado é ainda?”
Não demorou muito pra perceber que tinha se casado com uma bruxa: Marli não raspava o cabelo das pernas, nem do sovaco. Apareceram pêlos de bigode, verrugas, as sobrancelhas então, nem se fale. De noite, na cama, o negócio era pior, pois Marli só gostava de ir por cima e nunca deixava Sete gozar, pois tinha nojo de gala. Mandava que ele fosse depois pro banheiro terminar. Jamais raspava os pêlos da xota, mas o obrigava a chupá-la incondicionalmente. O que ele fazia como uma espécie de penitência por ser tão azarado.
Um dia Marli até tirou uma foto com a cara do coitado enfiada em sua vagina, olhando assustado. Metade rosto, metade periquita. A foto ficou tão engraçada que seus pentelhos pareciam um bigodão tipo Viva Zapata. É claro que ela apelidou a foto de “O bigode do meu tio”.
Láo Tsé dizia que cada ganho é equilibrado por uma perda. Não sei se Confúcio concordaria; provavelmente, sim. Mas eles não conheciam a Marli. Só sei que as estações passaram como o vento.
Desde pequeno, Sete só tolerava gatos, aliás, só via graça em bichanos. Por isso, quando Marli apareceu em casa com um cachorro, ficou louco: -“Ficou doida, merda? Não sabe que eu odeio cachorro?”
- Sei.
- E aí?
- E aí, que você não sai comigo, não me leva pra lugar algum. É um Liso. Fico presa em casa. Por isso só pra te desacatar, comprei este labradorzinho lindo, seu Trouxa.
- E com que finalidade? Porra, neste lugar não cabe nem nós dois.
- Bom, já que você não me come direito. Pelo menos vou ter uma língua bem grande pra me lamber a buceta.
Era verdade, Sete não dava assistência à patroa há um bom tempo. Não que estivesse broxa, ou algo assim, mas é que ela o humilhava em público, o destratava de todas as formas. O motivo: Sete estava desempregado. Num daqueles períodos negros em que tudo dá sistematicamente errado. Porém a perspectiva de ter um cão em casa, mesmo sendo uma miniatura o irritou profundamente. Lembrou de um amigo vendedor de espelhos contando:
- Diz uma antiga lenda que no sétimo dia, Deus resolveu convidar todos os cães do mundo para uma grande festa. Afinal, o melhor amigo do homem merecia. A única condição que, divertido, impôs, foi que o porteiro recolhesse o cú de todos na entrada da festa; o que ele fez, não sem se atrapalhar um pouco. No meio da festa alguém deu em cima da cadela de alguém e a porrada comeu legal. Na correria, todos pegaram o cú errado na saída. É por isso que até hoje, toda vez que um cachorro cheira o rabo do outro e sente um cheiro familiar, pensa logo: -“Esse cú e meu!”, e o pau quebra de novo.
Quando sua mulher saía pra trabalhar de manhã, deixava instruções maciças: - Limpar o cocô do Gato (foi o nome que deu pro bichinho, só pra sacanear ainda mais o marido), dar comida na hora certa, etc. etc.
Apesar do banho do filhote ficar por conta de Marli (insistiu muito para isso, levava horas), a pior de todas as tarefas era sair com Gato para passear na pracinha em frente ao prédio. Disso, até gostava. Era um dos poucos momentos que tinha para respirar melhor. Longe do inferno que sua vida se tornara.
Certa vez, cruzou com uma coroa jeitosa, cheia de corpo, levando seu dobermann para passear: “Hum! Essa dona ainda dá muito caldo!”
Papo daqui, papo dali, e... sabe como é... Com a desculpa de dar ração pro cachorro, subiram pro apartamento. Antes, deixaram o doby amarrado numa árvore, sem água e sem comida.
Depois de um bola gato da moda, arregaçou aquelas pernas preparadas pro abate e começou a castigar, sem transição - frito, assado e cozido. Quando, de repente, sentiu algo estranho, inusitado mesmo, uma sensação de exultação e cócega, como se estivesse se cagando sem sentir: Era Gato, que lambia seu saco com meiguice.
- Porra Gato!
A coroa se animou ainda mais, pois a ponta da língua do gato pegava nas beiradas do seu buracão.
- Não, não. Não pára não, papaizinho. Continua, não pára, assim, assim. Humhum. Ai mamãezinha! Ai mamãezinha.
Foi um caso sério. Humpfrey Bogart, seria ótimo para o papel de Sete.
Outra de lascar aconteceu quando a mulher viajou. Sete se sentiu livre pra sair pra beber com os amigos do Bazar do Rock. Como não tinha com quem deixar o cachorro, levou Gato consigo.
Foi um sucesso! Pela primeira vez choveu mulher na horta de Sete: pegou telefones, deu uns “coelho” com uma garota de cabelo verde. Um amigo seu, o Teco Trovão, analisou logo a situação: - “Seu Sete, cuide bem desse dog, que ele lhe dá sorte com mulher”. Outro amigo, o professor Maurício, sentado na sua cadeira, tomando a sua cervejinha, também fez seu comentário: - “se quiser vender, eu compro”.
E assim, os roqueiros se revezavam nos parênteses: O Maurão veio com essa: - “Esse bacana deve ser de pedigree.”; O Renato: - “Ô meu, troca esse nome tosco”; O Fabião: - “Ele sabe fingir de morto?” e o Marlon: - “Ei cara, vamos dar um gole de Biotônico Fontoura pra ele?”
E, assim, nos meses seguintes, Sete comeu todas as vizinhas que também tinham cachorro, saiu com todas as mulheres interessantes dos telefones anotados, até arrumou um emprego de secretário, descolado por uma das conquistas, diretora de escola. Seu mundo era só de água fresca.
Gato também cresceu e se tornou um cão muito bonito. Impressionava pelo tamanho, pela postura e pela docilidade que conservara desde filhote.
Um dia sete chega mais cedo em casa. A vida já não era um inferno. Até melhor estava seu relacionamento com a mulher. E ela também nem pegava mais no seu pé, parecia outra. Estava confiante, alegre, de bem com a vida.
Sobe até o quinto andar. Abre a porta – ia tomar um banho selvagem e encontrar uma figura que ele mesmo classificava como “um par de rabo”. Entra e ouve um uivo fundo, grosso, quase masculino. Reconheceu a voz. Atravessou a sala, dobrou no corredor, avançou pelo quarto e viu: era Gato, fazendo sexo com sua mulher, com loucura.
Deu meia volta. Lembrou do resolver do seu pai. Foi encontrá-lo numa caixa, embaixo da pia. Carregou o tambor pacientemente – ainda ouvia os gemidos da mulher. Foi até o quarto e atirou sem parar, uma, duas, todas as vezes. Mulher e cão já mortos e ele ainda atirava, mesmo sem balas, continuava atirando, tranquilamente.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ecumenia (de Marcos Salvatore)

by Hieronymus Bosch

Ando apaixonado por efeitos colaterais.
Queria explicar pra vocês... mas não sei falar sobre isso.

Abraços.

Padre Sávio.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Hemoptise (de Marcos Salvatore)

by Caravaggio

Ainda moleque me senti sozinho pela última vez
Aos sete anos me joguei de um vigésimo segundo andar, durante um ano, todo mês
Com dez me apaixonei: sofri, vomitei, me nem sei
Aos quatorze anos bebi veneno de rato, depois me masturbei
Com dezessete me apaixonei por comprimidos – sofri, vomitei, me nem sei
Depois o amor, a culpa, a vontade, a idade...
Aos vinte e um não tive coragem de cortar os pulsos, não me pergunte o porquê, que eu nem sei
Com vinte e oito me separei da ressaca – aquela puta escrota – pela primeira vez
Aos 31 descubro que ainda me restam três mandamentos de verdade.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

COXAS PERFUMADAS (De Marcos Salvatore)

by Alex Varenne

Uma mulher grávida, dentro de um ônibus super lotado. Eu, sentado no lado do corredor, sentido na cara o umbigo deslavado daquela fecundação. Acordo puto, mas tento ser gentil:
- A senhora quer sentar?
- Se eu quisesse ir sentada, pegaria um táxi.
- Então, ta legal – na verdade o que pensei foi: - “Ok, foda-se”.
Fechei os olhos e tentei voltar a dormir. Não me saia da cabeça aquela resposta, ao mesmo tempo grosseira, sem rodeios, destemida, altiva. Acho que o fato dela estar grávida e do ônibus estar lotado não contribuiu para aquilo. Tem gente que se estressa numa boa. Senti um presságio de degeneração a caminho.
Fiquei de pau duro. Comecei a me aproveitar da situação, adorei o roçar do meu ombro naquela buceta e da sensação dos pentelhos não aparados, equivalentes a oito meses de “pregnantismo”. Suas coxas exalavam um cheiro de mulher indecente que me inebriavam. Mais ainda, o fato de estar me aproveitando daquela “resposta”. Era meu álibi. Ali eu era um gentil, não um fauno. Fingia estar dormindo. E ela roçava a barriga na minha orelha – “ah, safada”. Ela também estava se aproveitando da situação. De mim.
Sempre durmo em ônibus. É irresistível o movimento lerdo de qualquer ônibus, qualquer itinerário. Manhã, tarde ou noite. Amém. Rezei por nós dois. Acreditei na palavra pecado, nas lendas urbanas do sexo casual, marginal. Um anti-credo pelo amor.
Bucetas peladas são melhores pra chupar. Todo mundo sabe disso. Mas eu prefiro aquelas estilo “quase peladas” – não sei por que, lembrei da Margaret Thatcher.
Senti vontade de tocar no seu cabelo. Sangrar a sua boca com beijos. Algumas fêmeas precisam ser fecundadas por mais de um macho. A natureza nos reserva lugares e horas impróprios. Julgamos a vida sem levar em conta o gosto da comida. O leite materno é a gala da mulher - líquido da vida. Então poderia até dizer que gozar na boca deixa a mulher mais forte. Pelo menos eu nunca vi uma atriz pornô gripada ou com sarampo. A gala é uma vacina do amor. A brancura da porra em contraste com a pele rosada de uma fêmea chorosa sempre me deixou emocionado.
O ônibus foi esvaziando. Passamos o shopping, passamos o viaduto, passamos outra cidade. E ela não se sentou, ou melhor, recusou outros convites. Parecia conceder aquilo. Agora se esfregava deliberadamente em mim. A conquista é um dos pesos do mundo e do homem. A mulher sempre se deixa, quer sempre se deixar. O homem é que não liga pra porra nenhuma.
Tomei a liberdade de enrolar um pouco do seu vestido no meu dedo médio. Brinquei com aquilo, conheci sua solidão, tão irmã da minha. De forma que somente nós dois soubéssemos. Senti os pelinhos da perna, o joelho. Era o nosso segredo. E cada segredo é um infinito. É um mínimo daquilo que foi prometido.
O destino chegava. Comecei a sofrer. O fato de ter que descer me doeu tanto, que me fez lacrimejar. Perdi algo mais além do sono. Não queria que ela fosse embora. Não sem mim. Ela agora era minha. Apenas, somente... minha - não estou conseguindo criar a imagem certa.
Queria escrever nas suas costas com as minhas unhas. Tocar nas suas reentrâncias e ela nas minhas. Passar minha língua no seu cú como um dono, uso capião total da sua bunda. Gravar sua virgindade gotejante no meu peito estrelado... então, eu acordei.
Ela foi embora. Desceu em frente ao Pronto Socorro. Não era mais a mesma. Sua voluptuosidade desapareceu completamente. Eu estava errado. Foi uma alucinação.
Uma outra mulher, que desceu com ela, gritava para o filho cheio de piolhos: - “Desce Michael! Para de coçar a cabeça”.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

MONO (de Marcos Salvatore)

by David Sweeney

Atravesso a rua para ler melhor. A placa diz: “Abraços grátis”.










“Abraços grátis” ouço. Alguém dançando. Aqui, ali. Abraçando os transeuntes.
Preciso ficar mais um pouco. Me acostumar com a idéia de também precisar de um abraço. "Eu também quero".
Uma dançarina de Butoh: dança da sombra.
Precisava de mais. Sempre as danças orientais de um dramaticidade ao mesmo tempo bela e delicada.
Batí um fio pra minha irmã. Ela me disse que tem uma professora chamada Maria Delícia. Nome de margarina. Também erótico, relaxante. De Lupanar luxuriante.
Tenho uma tia que chama a todos de “Culhão”.
Um tio cujo apelido de porre é “Mato Fino”.
Um primo que odiava que o chamassem de “Saia Velha”.
Outro Tio que chama meu primo Leonel de “Luner” – meu irmão chama ele é de “Cú”.
A Mãe-Vó dizia sempre: - “Desconjuro!”.
Linda a minha Vó: à noite, quando faltava energia, a gente corria pra rua, atrás dos vagalumes. Tentem imaginar uns trinta moleques da pior espécie e caráter procurando. Trazia pra ela e sempre ouvia uma história diferente de prêmio. Uma foi de um cara que se apaixonou por um braço, numa estação de trem. Ficou tão obcecado que correu atrás de informações, conheceu a família e tal. O Pai ainda perguntou: - “Tem certeza? Não quer conhecer primeiro? Depois não tem volta, não. Ah, isso não”. Casou-se sem avaliar a figura, nem os riscos. Agora, adivinha? O braço era realmente lindo, mas a dita cuja era feia de dar nó. Porém, uma criatura de alma pura. Apaixonou-se com loucura pelo pobre diabo arrependido. Conseqüência: quando ele bebia, batia nela, batia tanto que um dia ela não se mexeu mais, devido a um pontapé na cabeça, ficou lá em contemplação estática, olhando para ele... enamorada.
Mesmo tendo vindo de tão longe, aquilo me trazia de volta: “abraços grátis”. Proust poderia me ajudar agora. Nelson Rodrigues dizia que certos sentimentos são anteriores a sí mesmos.
Podia jurar que bastava dobrar a esquina para descobrir porque me tornei tão insensível. Quando? Todo mundo nasce com um dom. Tem talento pra alguma coisa, não é? Está certo?
“Abraços grátis”. Faz tanto tempo.
Tenho estado ocupado. Sem tempo pra nada. Nem ninguém. Tem uma porção de coisas que eu nunca vi, nunca tive:
1) Um pôr-do-sol de mãos dadas;
2) Um filme mexicano com tequila;
3) O amor de duas irmãs. Sexo com duas irmãs;
4) Ganhar na loteria - jogo do bicho também serve, vá lá;
5) Plantar uma árvore;
Coisas assim. Mas isso é canja. “Maria Delícia”, vejam só. Isso sim, é algo difícil de se ver todo dia.
Não sei o que me deu. Tirei os sapatos, desabotoei a camisa, joguei para longe o relógio. Meus bagulhos se espalharam pelo chão. Corrí para o abraço - talvez um beijo.
Cheguei bem perto dela. Devagar. Por um momento eu quase...
Aplausos. Aplausos. Todo mundo contribui. Eu também. Mas junto minhas coisas. Ninguém me percebeu. Ainda bem, ainda bem.
Onde o meu ego está quando preciso dele? Deve estar violentando a minha cara de pau, numa casa abandonada, num terreno escuro e baldío.
Antes de dobrar a esquina fico tenso. Eu sei. Era ela, olhando pra mim.

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