sexta-feira, 23 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 16 (de Marcos Salvatore)

Nada descreve o horror de Ageu Pazoud e o meu quando passamos pelo Portal, ontem à noite, e nos deparamos com os inéditos tambores evangélicos do espaço, furibundos em roda de desejo operário. Os bigodes peruanos da Tiazinha me desidratavam de desejo insuspeito: - "Voouu reezaar poor vooêê. Quaal éé´oo seeuu noomee?". Não passava uma agulha. Ruim era o medo de nos cercarem e gritarem: - "Pega". O Ageu tentava não gaguejar na esperança de convencer um garotinho inquisidor que insistia nebulosamente que ele aceitasse Jesus mais uma vez "só pra conferir se era verdade". Antes de sairmos correndo dali, a Tia pergunta o meu nome com a voz mais rouca, queria rezar muito por mim, mas só tenho culhão de responder: - "É Zenaldo".

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 15 (de Marcos Salvatore)


O cadáver deixado para trás, pelo marido, ou amante, estava intacto. Quando chegamos ao necrotério pude notar uma certa alegria faunesca nos olhos dos médicos-legistas. Realmente ouvi o seguinte cochicho:
- Hoje tem “janta”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ANSIEDADE NOTURNA (de Marcos Salvatore)

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Tenho muitas tolices
Fungos envenenados
Parasitas que crescem do corpo de insetos famintos e confusos
Depois de os matarem lentamente
Não sem antes serem jogados para baixo, fora do galho e do ninho
Por um dos seus
A queda é incidental, talvez oportuna
Hora de checar as dúvidas
Inconsequências apuradas, mensuradas
Preencher espaços – quem precisa disso?
Quem sabe sobre a vida?
Esta é a minha e o seu rótulo esfarelado está, pelos meus dedos
Devido à umidade da garrafa
Lente de aumento bronzeado, improvisada
Para dar função e textura exagerada de pele suada
Cenas de sexo sem rosto
Sim, eu as tenho e sustento sobrando
Troncos femininos
Costelas em relevo, em antítese
Cinzeiros e xícaras, leite derramado
E o que falta?
Nunca descubro palavras relacionadas
Se encontrasse não acharia uma pronúncia razoável para elas
Apenas me anoiteço calado e inundo
Antes de entrar mais uma vez nesta história

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

DISSÍDIO COLETIVO (de Marcos Salvatore)




Artwork by Kurt Cobain

Renê enterrava bonecas,

tinha um cemitério e tudo pra elas,

matava e as enterrava depois

 

Marcos caçava vagalumes

Tinha uma rua inteira sem luz, pra isso

Caçava e os guardava depois, pra servir de lamparina orgânica

 

Celi procurava alguém mais cedo, que achasse Drummond quente

Tinha uma oportunidade inteira sacada pra isso

Procurava, mas não encontrou ninguém, bem que eu gostaria

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

DESBOTADO (de Marcos Salvatore)




Photo by Bob Seidemann

 A cidade ontem esteve desbotada e mega-exposta às mesmas impressões.

Tiros, fogos de artifício, barras de ferro, bombas caseiras. Quem apostou em pelo menos uma morte ganhou.

A pregação vazia e interesseira rondou bairros em busca de sexo e gado, eleitores inscritos.

Voltei pra casa com um puta sono, prévia da insônia, depois, sonhei com luzes de da Vinci, um baita som de fudê das frenéticas no rádio, e cheiro de alguém ao lado.

Quanto a mim, só acredito em milagres de graça.

Agora, bom dia... eu acho.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Janelas Discretas Nº 11 (de Marcos Salvatore)

Encontros e desencontros nas esquinas escorregadias de Belém, segundas intenções, lembranças da Radio Cidade e da perda de identidade. Combinação perigosa sujeita a tempestades dialéticas de quinta.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 9 (de Marcos Salvatore)




Amanheceu em segredo. Lá fora, uma terça de vontade algo débil, quer perder-se no mistério e no ridículo da florada pai d'égua.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 8 (de Marcos Salvatore)


Existe algo de menstrual numa segunda-feira pós Eleições, pré Cirial. Difícil absorver um corrimento tão contraceptivo. Portanto, sangue frio e sandálias para mais um dia útil.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Janelas Discretas nº 7 (Marcos Salvatore)


Colocou o neto no colo, enquanto se balançava na cadeira, o consertador de cucos: - "Vamos contar urubus". Um, dois... e o pequeno dormiu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CREOSOTO (de Marcos Salvatore)


a dignidade intelectual que se foda
viva o subconsciente coletivo
também o cerveja gelada
a algazarra condenada
com penitência de três sábados, dois domingos
trocentos feriados largos
bem acompanhados em papo furado
em território de caça
um ou dois tragos num cigarro emprestado
você me olhando, lá do outro lado
tem gente que te espera pra bater um papo
pra curtir um som desembaraçado
viva até aquela tremenda mancada
bebeu demais, falou demais
rolou assim
pouco grana mas muito amigos
tanta coisa pra se ouvir
pra falar
pra curtir
pra sentir
prostíbulos da cidade, bares cavernosos
colo de puta que escuta
o mundo é grande, é vida nova
é dessemelhante por uma leitura
não existem interpretações mútuas
somente pensamento soltos
uma intenção desfruta um grande sonho
inteiro e quente, doce-amargo,
flor despetalada, fantasiosa
mal-me-quer engarrafado
artesanal
como qualquer invento
me saca às terças e quintas
me carrega e acha pouco
e aqui me encontro, eu acho
de novo no Chaco

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 4 (de Marcos Salvatore)

Não vou me convidar pra tua vida

Mas espero que mereça

E entenda

Sem danos

Que eu amanheça em outra festa


CONSUELO, SUPORTE (de Marcos Salvatore)

by Frida Kahlo


Nada mais patético do que ruas e praças com nomes de santos e políticos. Sempre pensei muito nisso. Tudo besteira, porque estamos sempre procurando, mesmo, é uma chave para o nosso coração.

Por isso, gosto de ligar pra Consuelo e ouvir ela murmurando em dois pólos (acha que todo mundo pensa que ela é doida), cada dia mais gostosa, ao telefone:

- "Depois da tarde chuvosa um anoitecer de lânguida contemplação do ser e do nao ser, bom pra cair de cabeça em piscinas secas e sentir o sangue, quentinho escorrer...".

Esse é que é o papo, super rebimboca da parafuseta.

Ela nunca lê um livro inteiro (auto ajuda é dose), só passa a vista nas orelhas e resenhas curtas, nunca fala coisa com coisa. Culpa dos remédios tarja preta, dos barzinhos de abraço (onde todo mundo está sempre feliz) e das mudanças trimestrais de Igreja Evangélica - acaba sempre dando para todos os pastores.

Em época de eleição, vai e vem lá está ela, apaixonada por algum candidato de sobrancelhas juntas, comedor de fetos e velhinhas.

Ela chora em falsete, toda sentida: - "Ninguém admite Sal, e pode até ser neura minha, (cai no choro, logo, de vez) mas sinto que o paraense odeia carimbó... (lembram do Zacarias chorando?) o pior que eu também, que merda, (tenta segurar a coriza e o chorro ao mesmo tempo, mas se engasga) queria tanto dançar essa porra - Uuuuuhhhh, uuuuuhhhhhhh, uuuummmmmm. O paraense não gosta de ninguém!".

Dramático, não? 

Do outro lado da linha eu tento ser mais indulgente: - "Eles que se fodam, baby! A burguesia politizada só quer saber do dela e aparecer. MORTE AOS PARASITAS!".

A Consuelo adora quando eu falo alto. Lembra do Pai dela. Depois disso, topa tudo. Paga todas.

O pior vocês nem imaginam: houve um tempo em que ela achava que eu era o cara pra ela; me ligava umas trinta vezes por dia. Quando sacou que não ia rolar novela mexicana, bebeu Q-Boa. Deixou um bilhete escrito assim: "Se me ama, morre comigo. Ainda tem chumbinho na gaveta debaixo da pia. Só não te esquece de deixar a porta aberta, que ninguém tem bola de cristal".

Passou. Quando me disseram que ela estava legal, fumei o quinquagésimo sétimo cigarro e depois subi. Ela dormia bem. Saí. Fiquei um tempo rondando as janelas da cidade. Nada lá fora. nem sombra, nem verde. Sem músicas novas, sem propostas novas. A gente merece estar assim, passando o tempo todo pelo medo de ficar de fora. Pagando mico. Gato por lebre total. Pura burrice.

Meses depois, ela me liga para contar uma grande novidade: estava convertida e tinha emagrecido dez quilos através uma dieta religiosa que consistia em mantras inspirados em leituras diafragmáticas de bulas de remédio, prisão de ventre induzida por purê de banana, masturbação (pelo menos sete vezes ao dia, sapatos apertados, bobó de camarão frio e doses matutinas de xixi. Isso mesmo. Xixi humano.

Nem preciso dizer que a vida sexual da Consuelo virou do avesso. Vocês sabem o que é Urofilia? Bom... digamos que certa madrugada, em plena Rodoviária, acompanhada de minha pessoa, Consuelo começa a passar mal. Tinha bebido muitíssimo e se alimentado pouco.

- Sal. Se eu te pedir uma coisa tu fazes?
- Claro. O que é? Desenrola.
- Dá uma mijadinha, bem quentinha, na minha boca?
- Tu tá doida, caralho? Tá pensando o quê? Que novidade é essa?
- Mas eu tô passando mal. Mal!!

Mordido com a falta de noção da Consuelo e também com a falta de bares de rock contemporâneo na cidade, sou levado por ela até a rua de trás do Amarelinho. Ela ajoelha enquanto eu entorno uma latinha vorazmente.

- Já?
- Peraí (solto um arrôto paralelepípedo). Bora.

Não sei bem como descrever a cena, mas... lembram dos biscoitos Scooby? Pois é. Enquanto eu me sentia o próprio Riachão, Dona Consuelo quase desmaia pelos múltiplos orgasmos.

Tento convidá-la para um programa mais light, mais cool:

- Tem alguém te comendo ultimamente?
- Ando muito mal fodida. Por quê?
- Ué, o de sempre. Da Toca a gente desce, ou sobe, dependendo da ressaca paudurecente.

E foi assim que nos tornamos bons e velhos amigos de foda. Até que um dia você se olha no espelho e tudo que vê é um homem morrendo numa cruz. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 3 (de Marcos Salvatore)


O melhor momento do amor é aquele, segundos antes de se perceber apaixonado.

Um mistério une os sorrisos.

Boa tarde, é quarta-feira - O calendario esta repleto delas.

Isso é bom.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 2 (de Marcos Salvatore)

Bom dia a todos.

Olho pela janela e a manhã nublada me dá uma vontade de fumar que puta que o pariu!

Existe um bom motivo para nunca acordar cedo à terças-feiras.

Será que ainda dá tempo de ir atrás dela?

Talvez, quem sabe até, pegar minhas chaves de volta.(...) Quem sabe?


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

CIRCO NAVEGANTE (de Marcos Salvatore)




Não sei quem você é
“Não saber” da minha vida
Danço por amor
Nem altura ou cor, nem credo

Dorme sobre as minhas costas

Uma verdade mais simples que o meu sexo solo
Contra ou através as cordas do desembaraço
Eu não sei
Percepção nem sempre é realidade

Nem se posso te salvar
Me salvando talvez possa
Mesmo sendo assim
Um descuidado hipo-monstro de pesar

A ponto de procurar não procurando
De não ser o que eu como
E, sim, o que eu escrevo

Pisciano mal criado. Inteiro demais, trabalhador
Camiseta vermelha em listas pretas
Suado amante palavroso de coxas
Contador das  nuances dos cabelos colados nas costas

Não te encontrei por me querer demais
Me querer muito e a todos os trapézios
Por comer, por fumar, por beber
Por foder demasiadamente com tudo

Não tenho escolha dentro do que compreendo
A não ser desconfiar que é você naquele olhar
Do outro lado da rua, da vitrine, do sorriso
Quero tanto acreditar, que me atropelo

Em cada gesto discreto de atenção
Em cada entonação sussurrada em subtextos de orgasmo cochichado
Matéria de luz e calor
Arruaça espontânea, circo navegante de dois




terça-feira, 31 de julho de 2012

PORRE DE ONTEM BLUES (de Marcos Salvatore)

by Jan Saudek




minimize
minimize a cada dia,
mês e ano
a sua fome, a sua carne

muitos bares não são raros
nos dão a elza e o Raul
ficam os calos
uns leves trocados

agora eu pago o preço
daquela falta que a gente marcou
hum, meu bem, um bocado
você bem que tentou me passar tantas pernas

quero aquele gozo de volta,
que rolava firmeza, bem no começo
as gírias, os backs, as pipas
um tcc baseado nas carreiras de tosco desejo

cantando um som de obcecado, de louco
música do avesso, ilegal
as estrofes e as rimas berradas
nesse famigerado blues, refestivo

baixo astral
reticente recomeço
madrugadas e esquinas
nenhum amigo

é claro, é claro
eu sei bem disso que eu já sou
estou tentando me largar, sem levantar, sem reagir
pra você tropeçar, me ferir

jogar um trocado


segunda-feira, 30 de julho de 2012

O LARGO DA PÓLVORA (de Marcos Salvatore)

by unknown




perdão pela confissão...
mas eu precisava disso para relaxar,
já não me sinto tão sufocado.
o problema é que eu não consegui me conter,
mas já ficou tudo bem,
tô relaxado,
é que às vezes as coisas se perdem na minha cabeça
e isso parece que quer me devorar,
sinto sensações mais fortes do que eu,
talvez seja culpa dessa coisa "religiosa" que faço:
andar corajoso e sem rumo por aí
na cama com a pouca sorte
talvez eu sinta necessidade de me sentir um vadio
de vez em quando

reparo numa jovem que esperava alguém
sei lá se esperava mesmo
mas gosto de pensar que ela aguardou por essa pessoa
durante muito, muito tempo
não me parecia diferente de outras daqui
mocinhas com suas bucetinhas aborrecidas da
brasileira família cristã
lírio mimoso
todas casadas com fantasmas de turistas

ela puxa um cigarro de piteira
ascende e quase imediatamente
começa a dançar naquela bruma
enquanto a brisa do pós chuva da tarde lhe soprava o dia
do outro lado da rua
não adivinhava o quê do propósito de tantas mangueiras
tantas sombras ao vento
ainda mais com a água de chuva secando em seu único vestido
colado no corpo

uma vontade de também fumar...
um gostar macio de varrer terra, sentir vento de luz, soprar fumaça
conto as moedas e compro um mais barato... bem mais em conta
depois do primeiro trago descubro o porquê da promoção
fumei mesmo assim, numa turbulência que não deixa estragos
e lá estava eu...
testemunha ocular e auditiva do acidente voluntário

nossos olhares se cruzaram o quê?
uns dois segundos, no máximo
de não deixar em paz
que continuaram sendo
e ela não virou o rosto
nem mesmo quando aquele “Tamoios – UFPA” a colheu pela raiz

quase na encruzilhada do IEP com Manoel Pinto.

ah, Morte
me fala toda essa gente de um jeito...
insegura anfitriã,
que eu entenda

- “atravessou a rua cantando”, alguns dizem.

em Belém não há esgotos, apenas céus abertos.
por isso não demorou para as moscas se juntarem
falavam em morte, em destino, experiências espíritas no fundo de seu quintal etc..
gente linda me dá nojo
como amam, necessitam de detalhes sórdidos
sacrifícios populares

um calafrio de costelas,
como uma lavagem estomacal,
me calou os ouvidos em tempo de resistir contra a cor dos seus cabelos colados ao sangue no asfalto.
limpou meu interior, toda a grama do largo
correu pelas esquinas da praça em ereção involuntária
acordou mendigos em diarreia pré-agônica
gritando, ameaçando abatidos transeuntes
religiosos, cativantes amigos de ombros e copos

todos juntos aqui,
longe de casa

sexta-feira, 27 de julho de 2012

CIDADE, VELHA AMIGA (de Marcos Salvatore)

by Andre Kertesz




Estou jogando ideias fora, escrevendo pra mim, por isso, não me levem tão à sério.

“Belém é o abismo de um inferno letárgico” - Minha caligrafia é péssima - mal entendo; mas consigo me lembrar da caneta atrás da orelha: Tinha acabado de usá-la antes de atender a última porta. Amigas de foda sempre querem na hora, bem quando você pode estar “marromeno” ou “impinimado” com a saudade de ter mais uma chance.
Pensamentos ao portador para um feliz desaniversário. Dia criado para venda de selos e equilíbrio dos perdões. Durante a chuva nem parece julho. Observo formigas lá embaixo e tento rir das mesmas piadas, gostar das mesmas músicas, decorar os mesmos pontos de vista da pequena tribo – é foda, Padre.
No papel também estava escrito “Não perca tempo tentando me perdoar... nunca mais”. E assim começa mais uma insidiosa sexta-feira 13. Festival de um fugitivo no verão. Esquina de praça centenária.
Bloco do Canalha lá fora, mais tarde, mulheres líquidas, greve das universidades e escolas técnicas federais. Fotos antigas da cidade me fazem muito bem. Histórias antigas. Sinto falta da máquina de escrever, dos cinemas de rua: sobrou apenas um. Sinto a falta daquela garota - a gente mal conversou, depois de tantos meses de saborosa ambiguidade.
Minha Caixa de Entrada não traz muitas novidades e o calor me fez tomar dois banhos a mais. Não saí de casa; a musa de Fellini foi a culpada: Giulietta Masina; Gelsomina – tão sem saber o que dizer ou o que pensar. Tão como...
Não sei o porquê, mas comparo este sobrado com um tipo de masmorra. Mas pensar assim simplifica demais e me torna uma pessoa impulsiva. Não sou assim e vou indo. A fome é um luxo de quem só tem uma janela.
The Hissing Of Summer Lawns – obrigado, Joni. Bati uma pra ti mais cedo, mas antes de esporrar lembrei de outra pessoa. Acho que a fatalidade me pegou de jeito hoje e eu juro que não há ninguém em quem posso descontar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

INVISÍVEL BLUES (de Marcos Salvatore)


by Mary Ellen Mark



então tá meu irmão, é isso aí, bicho
não precisa contar com conversa ou tristeza
com o ovo no cu da galinha

de manhã vem pra casa
e esquenta a sobra do almoço na lata do lixo
mistura tudo num engulho de choro e sardinha

restos de farofa, porrada e garapa
descaminho desnudo de cheirar ou fumar

de esquina em esquina uma criança num sinal
enquanto isso a gente espera o carnaval

eu mal sei direito o que devo ser ou fazer
se sou marginal, invisível
a que preço me vender

- ei, tio, me arruma um trocado em troca de uns órgãos?
aqui tem chiclete, palavras cruzadas
um coração embriagado de fome
minha idade e o meu indigno rabo

um pouco de brinquedo, de história
talhada em madeira molhada, modesta ou sucata

de esquina em esquina


segunda-feira, 25 de junho de 2012

PURGATÓRIO CINCO ESTRELAS (de Marcos Salvatore)


by Mariel Clayton

o mundo me tateia,
encontra os lábios
me verifica os dentes
depois lava as mãos

entretanto,
conserva a distinção, o instinto primal
entre o preconceito e a luta de classes:
fornicação, fornicação, fornicação

me esparrama pelo chão -
“se não for apanha o bolo”.
se eu não luto, não bato, não grito,  não morro
nunca tenho opinião, não corro

entretanto,
me oprime sem reservas:
pão que o diabo amassou
- subconsciente coletivo,ansioso.

me joga às feras do circo.
purgatório cinco estrelas, duvidoso:
vendo o meu corpo por almoço, por janta
também minhas certezas, sentimentos, incertezas

entretanto,
me agarro a qualquer esperança:

bom dia de gente
qualquer riso de alegria, qualquer um mesmo
de criança, de velho, de humano,
que cora ao sorrir

Mas só dá pra acender um cigarro
E esperar, e escrever minha fossa
- Desenhar minha fala na mesma medida
Em que viver puder ser parecido com... viver

eu queria chorar,
talvez um dia eu possa


segunda-feira, 21 de maio de 2012

PROFUNDO RASO (de Marcos Salvatore)


by Hans Bellmer


E quando eu te queria
Caído, bebido, tomado
Embriagado de amplificação,
Você sorria com alarme divertido:

-----quem sabe um dia, meu amor adiado.

Último dia, mais um mês,
Barras, pontos em seguida, ponto e vírgula,
Vida de mendigo burguês,
Português, um ameríndio

Consumidor de dias santos
Cristão novo comemorativo
Qualidade urgente como a idade
Quitação do débito frágil do amor

Para garantir

o bom estado do meu coração
Meu quinto dia útil no paraíso farpado
Vaga num melhor hotel



segunda-feira, 16 de abril de 2012

ANTIBASEADO EM FADAS E BRUXAS (de Marcos Salvatore)


by Mary Ellen Mark

Um tempo atrás parecia fazer parte
Mas não rolava aquela rima, aquela bossa
Pelos bares, pela idade
Por onde eu adormecia e acordava

Com meus sonhos e pensamentos
Com meus pés procurando
Os compassos dos seus pés
Em um chão descalço de vexames

E mais dia menos dia aconteceu,
Pode crer que a gente finge que se esquece
Olha, a história que eu te dei, que eu te contei
Vai perceber que era verdade

Dessas coloridas de lembrar
De desenhar por um momento
Por algum tempo ensandecido
Enquanto a gente se torna sem tentar

Antibaseada em amizade
Em meio às bruxas e as fadas da cidade
Que de alguma forma
Pegam leve, mas não são nem somam a metade

Do que eu tenho pra te dar:
Um mar de experiência viva
Mar tanto para atravessar em braçadas vorazes
Os seus abraços

E descobrir um mundo novo
No entender de se achar
Algo sem tradução

segunda-feira, 26 de março de 2012

TINTA (de Marcos Salvatore)


by Van Gogh

Não dá mais pra repartir
O que eu não sei te dar
Nem me abandonar com você
Da mesma altura

É só o tempo de me despedir
Não posso mais ficar te acumulando
Nem esperar que a tinta seque
A despedida de tantas palavras

Não dá nem pra reprisar
A preta e branca ou colorida
Pose das fotos caladas na parede

Só sei nadar fugindo da rede
Na contramão do rio
Aqui fora as portas não têm chave mestra
Ainda arrombo uma por uma

Em busca de amor, pena e papel


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