segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

ÁRVORES ENTRE AS CADEIRAS (de Marcos Salvatore)


 
Continuei correndo. Estava bêbado e ninguém ia me pegar. Mas pegaram. Levei uma surra tão grande que, na metade dela, comecei a pensar no Beija-Flor, isso ajudou. O sofá onde eu dormia ficava lá, na quadra 7. Eu não tinha dinheiro, nem um pingo de vergonha por estar tentando ir para a subjetiva casa onde se come. Marituba, cidade morta a pedradas. Objetivo.

Meu cachorro, Eliaquim, sempre sabia quando eu estava para chegar. Choramingava no portão. Nunca liguei para horários componentes. Eu sou também um fragmento torturante.

- Eu te ajudo a controlar o futuro. Assim tu não chegas lá; não único, aqui. Ajudo. Vem!

Voz de mulher. Loira de calças listradas. Olhos grandes e luminosos. Tom de voz macio. O Decouville é longo e sinuoso. Estrada ou rua? Não sei dizer. Ela era bonita? Feia? Também fico devendo essa. Fui com ela sem zelar por paz. Havia a estrada e um macho ferido. Sem lidar.

Manquei ao seu lado da saída para a BR até perto da antiga madeireira. Paramos lá. Vozes de gente cantando nos espreitavam por dentro do bosque adornado em tons de verde e azul. Lá.

Um céu estrelado e sem lua - nem sinal da lua. A oeste, um pálido clarão. Pandeiros. Público.

Eu não tinha medo. Queria companhia para morrer. Sentia o sangue escorrendo das perfurações nas costas e os ossos pareciam se desparafusar a cada passo, como se eu pudesse simplesmente me desmontar a qualquer instante. No começo, como se chamava isso? Libido?

- Temos que sair daqui. Mas antes, preciso mijar nas tuas costas. Te enterrar no barro e...

Não pude reagir. Fui jogado na margem lamacenta de um leito. O que tinha sobrado da camisa foi rasgado e só senti o calor daquele jorro. E como me fez bem para o frio experimental da carne e da alma. Vi que não me preocupava mais. Dos seus mamilos rosados escorria leite.

Ela me cobre com lama. Deixa meu pau de fora, minhas narinas, minha boca, meus olhos. Senta no meu pau, que cresce com o seu roçar atencioso. Uma flor presa aos seus cabelos.

- Isso é para os ferimentos. Não se perturbe se eu gemer, gritar ou rir. É um atributo antigo.

Vem um gozo sem ejaculação me queimar o rosto. – “Vai começar”, ela diz. “O show vai começar”. “Levanta e dança conosco?”. “Não é sempre que tem para todos”. “Tu vens?”.

Luzes por todos os lados. Audiência vazia. A Plastic Ono Band passa por mim para assistir ao show do Gibamones. Curtem. Sobem e tocam “9 Dream”. Brigam. Ouço os gritos de Yoko apanhando de um choroso John. Depois suas gargalhadas. A gala dele escorre do seu cu.

Poderes ao meu lado me fazem pensar no estéril “Poema” de Cazuza: - “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua, que vai ficando no caminho...”.

A mulher me banha e sopra num igarapé conciso e sem sobrenome. Me enxuga com os seus cabelos longos e trigais. Pergunta se eu gosto de romance, de filmes noir.  Cigarrinhos de palha são distribuídos. Não quero. O cara do som faz uma turnê sonora pelos últimos setenta e sete anos de jazz e blues. Gosto e peço para repetir aquela do Bird – posso morrer sem nunca ter mandado um telegrama na vida; ele enviou mais de cem em uma única noite a quem amava.

Yoko, encostada em uma árvore se abaixa e me diz: - “Tu gostas de ilusões perdidas. Mas uma vida normal tem quatro níveis de entendimento; e tu estás lidando com cinco”. Em 16 canais.

Agradeço meio assim: - “Valeu”. Suando uma gordura brilhante, durmo junto daquela perspectiva.

Não há lua para iluminar quando as luzes se apagam e sigo o meu caminho. Sem feridas, apenas cicatrizes e a impressão de que quem desapareceu fui eu, sem nenhuma explicação.

Uma segunda chance. Quantas eu já tive? Ainda há força nestes velhos braços sem raízes? Vida cheia de adversidades. Pálido reflexo deixado pela sombra de um amor desabafado. Amor?

Raul diria que agora amanhece, amanhece... amanhece o dia. Tarde demais para o choro do melhor amigo, rente ao portão. Antes de entrar, lembro que é Natal, e ligo minha árvore. Volto sem as armas da morte dos tiranos e monstros que deixei pelo caminho. A despeito das consequências da cruzada, muito bem acompanhado.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

PLACAS TERMINADAS EM ZERO (de Marcos Salvatore)

Patrick Earl Hammie


- Não sei por que fazem estes quitinetes com vitrô ao invés de janelas. Nunca senti tanta falta de janelas, de ar. Não se pode sentir o vento, a chuva ou o sol. O barulho lá fora parece regravado em fita k-7. O que eu não daria por algumas cortinas voando?
- Tu tens um pau bonito. E uma bunda de negro. De vez em quando sonho com dietas à base do teu esperma. Poderia engarrafar e vender. Tem gente que compra de tudo. Só precisas diminuir um pouquinho a barriga.
- Minha família é de pretos, branquelos e índios. Vai ver que foi por isso que saí meio amarelo. Cabelo crespo e peito pelado. Ah, já deixei a roupa de molho. Par ou ímpar para espremer?
- Deixa que mais tarde eu dou um jeito. Vem pra cá. Ainda tem vinho? Daquele que a gente comprou, lá, no posto? Quando o meu ticket sair a gente compra um Red.
- Humhum. Eu te levo. Quer presunto com queijo?
- Sempre gentil. Outro noite acordei, e tu estavas aí, mesmo, pelado, olhando pra dentro da geladeira. Bebeste água na boca da garrafa. Depois veio até mim, ficou me olhando um tempão, de pau duro, sem perceber que eu estava acordada. Me embrulhou, dobrou minhas roupas, guardou meus sapatos, depois se deitou e me comeu muito delicadamente, tocando minhas costas com a ponta dos dedos, me ninando com beijos na nuca, para que eu não acordasse. E, quando gozamos, tu me abraçaste de um jeito que, de uma maneira que... me deu até vontade de chorar.
- Não é um drama. Eu sabia que tu estavas acordada.
- Tu me amas?
- Gosto de pensar que sim. Tu não me dá trabalho para gozar e ainda racha comigo o aluguel. É uma adivinhona, como diria o Gonzagão. Gosto até dos teus pentelhinhos no sabonete.
- E quando não estás pensando nisso, o que sente por mim?
- Fico apavorado por estar em minha própria companhia. Fumo demais sem limpar os cinzeiros. Muita louça suja, roupa suja. Penso em grana – muita grana, pouca grana, grana emprestada. Isso sem contar com aquele hábito infantil de bater punheta todos os dias.
- Amor, me dá teu travesseiro, dá? Deita aqui, no meu colo. Assim. Tem um cravo enorme, bem aqui, na tua testa. Deixa ver. Não respondeste, ô arrogante.
- Eu sei. Não sei o que sinto. Penso em mim. É egoísmo fácil, voyeurismo de puleiro. Quem não faz o mesmo? É só ligar a TV. Ah, baby, pintou uma monitoria num concurso. Cem contos. Vamo nessa?
- Hamham. Só os normais. Mas tu não és nada normal. Imagina? Como pode ser comum, uma pessoa que na primeira trepada pede licença pra chupar os peitos da parceira?
- Ei, pera lá. Tu estavas fazendo o maior cu doce pra cima de mim. Tentei ser gentil porque estava nervoso. Nunca tinha conhecido uma crente antes. Achei até que tu ias orar na cabeça do meu pinto antes de meter na boca.
- Eu te amo. Me deu vontade de dizer isto enquanto tu me chupavas. Pensei ter te ouvido dizer o mesmo. Se tu dissesses eu ia acreditar e talvez até me casasse contigo.
- Minha língua estava ocupada, baby. Só faço uma coisa de cada vez. Como nadar, ouvir música, falar mal do partidão. Pra casar seria necessário transarmos menos.
- Seu sacana. Pelo menos pensaste em me dizer? Ou o meu pinguelo se prendeu nos teus dentes?
- Tua buceta tem um caldo bom. É macia e aconchegante para a boca. Tens o gosto que pareces ter. Toda mulher sabe dar quando quer alguma coisa em troca. Tu tens crédito pra...
- Cínico. Liga à cobrar. Nunca sei quando estás me elogiando ou mudando de assunto. Sempre fazes isso – fala de outra coisa; agradável, mas, outra coisa.
- Nossa história é banal. Não vai demorar para começarmos a implicar um com o outro. Aí, tu vais me trocar por um Mauriçola, fã de luta livre, cujo único sentimento maior vai ser o do tesão pelo próprio carro. Comigo tu levas um poeta fingidor, um escritor amargurado, um cachaceiro mal amado, um palhaço de filme mudo e um amante de pornô dos anos setenta, pelo preço de um vagabundo.
- Vai te foder! Vou para a igreja hoje pedir uma benção. Sabe o que eu vou pedir? Pra te tirar da minha vida. Seu Perda de Tempo. Hoje eu recebo essa benção.
- Ah, hum, sei. E, como é que funciona esse negócio de benção? Tu pagas o dízimo e é sorteada ou algo assim? Como nas rifas?
- O inferno é pouco pra ti. Aliás, tu és o inferno. Meu inferno. Peixes com Virgem deveria ser amor, não isto, aqui. E, de vez em quando eu ainda pago a tua luz. Burra, burra!
- Escuta aqui, ô filhinha. Tu tens que decidir entre a novela e a paz do Senhor. Eu te conheço - menina mimada pelo Pai, Cinderela da Mãe, namorava otários, mas dava, mesmo, era pros professores... quer que eu continue?
- E tu, hein? E tu? Com essa cara toda lambida de três casamentos e um funeral? Metido a escritor sem escrever. Viciado em ser um podre de escroto.
- Porra, tudo isso porque eu não disse o que tu querias ouvir? É uma ceninha atrás da outra, agora? Caraca, eu tô ouvindo isso tudo de alguém que pega a maior fila pra comprar um sutiã na promoção. Tem dó!
- Não... não. Pelo jeito, tu és daqueles que mobíliam a casa de acordo com as prestações. Daqueles que testam a amostra, mas só levam se estiver em uma caixa.
- Aonde tu vais? Agora que a discussão estava ficando legal.
- Lavar o meu cu. Esqueceste que gozaste dentro dele? Ah, claro – isso é banal, não é, mesmo? A gala escorrendo do meu rabo é banal. Ouvir que alguém te ama e depois...
- Ei, calma. Só quis dizer que se separar é a coisa mais normal do mundo. De repente não rola com a gente. Será que não pode ser simplesmente bom? E só?
- Só!? Humhum. Panos quentes.  Como sempre. Covarde. Tu que não me enganas – dois livros implodidos, casamentos então; começou a beber e a fumar porque levou fora de mulher gostosa, perdeu pra um cara mais bonito e talentoso e agora só come quem quiser te dar, porque conquistar o que tu queres, mesmo, tu nunca aprendeste.
- Desisto de abrir meu coração pra ti. Como a água está?
- Banal.
- Certo, ok. Lava bem que depois eu quero mais.
- Mais, é o caralho! Tu mereces é um soco na cara pra aprender a ser gente. Pode me passar a toalha?
- Só se eu puder te ensaboar um pouquinho, antes, Rosinha.
- Não me chama assim que eu não gosto, seu besta.
(...)
- E, então?
- Sai daqui. Não me toca.
- Caramba! Será que pra vocês, mulheres, propriedade é a única coisa segura? É isso que eu sou, além de uma pica?
- Não. Também é o cara mais sem graça, deprimente e sem transporte que eu conheço. Se ao menos tu não tivesses essa voz tão bonita, esse jeito de desnutrido. (...) Ai, eu adoro fazer amor contigo! Não me morde aí, quer parar? Não faz, não. Dedinho, não. Lambe o joelho, ai.
(...)
- Minha gatinha. Sabe como os gatos tomam banho? (...) Ah, chorando por quê?
- Chorando tá lá! Eu vou embora. Tu nãos gostas de mim. (...) Gostas?
- Não quero que tu vá embora. Quero que fique aqui, comigo e me ajude a dar risada da vida. Me desculpa. Eu sou mesmo um puto. Fica fria. Vai ficar tudo bem. Depois eu faço aquele macarrão pra gente comer sem talheres, com as mãos. Meio frango, lá embaixo é doze contos.
- É sim, um filho da puta. E um dos bem grandes. Do tipo que espalha a praga.
- Êh, êh, êh.
- Tá vendo, só? Seu viciado de merda. Me larga. Não, não me larga, não. Me abraça mais um pouco. Tá tão bom, assim, os dois molhadinhos. Gosto de foder contigo socando a minha bunda embaixo do chuveiro.
(...)
- Olha. Um passarinho. Como ele entrou? 
- Está olhando para nós. Pega.
- Deve ser um espião da Gestapo, treinado para empatar fodas. Vem cá, que eu vou te fritar com penas e tudo.
- Foi pra debaixo da cama.
- Vou levantar a cama e tu pegas ele.
- Mas, eu tô nua.
- E daí, e eu num tô? Ele foi pra lá, tá ali, em cima do criado mudo. Tomara que não cague bem em cima do meu Trópico de Câncer.
- Peguei. E agora?
- Não sei. Joga na privada e dá descarga. Acho que ele não passa pela abertura do vidro. Abre a porta e joga ele.
- Não tem janela no corredor, também. Esqueceu, lerdo? O que está fazendo. Pra quê essa cadeira?
- O que eu devia ter feito há muito tempo. Vai pra lá, que vai ser caco de vidro pra todo lado.
- Estás quebrando o vitrô.
- Não, baby, não. Estou fazendo uma janela. Trás o penoso.
- Arrebentou tudo. Mas ficou uma janela perfeita. Deixa eu abrir a mão, assim, ó.
- Como voa! Vai nessa, Brother.
- Lá embaixo. Aquilo é uma mangueira.
- Sim. E do outro lado da rua tem outras e outras. Olha aquela mulher sendo assaltada. Pegou o bandido. Tá dando de sombrinha nele.
- Poucos carros hoje.
- É quarta-feira, é normal. Para escoar melhor o trânsito.
- É. Deve ter alguém procurando um endereço. Alguém tentando chegar na hora certa. Alguém... de malas prontas ou desarrumadas.
(...)
- Baby?
- Hum?
- Eu te amo.
(...)


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 16 (de Marcos Salvatore)

Nada descreve o horror de Ageu Pazoud e o meu quando passamos pelo Portal, ontem à noite, e nos deparamos com os inéditos tambores evangélicos do espaço, furibundos em roda de desejo operário. Os bigodes peruanos da Tiazinha me desidratavam de desejo insuspeito: - "Voouu reezaar poor vooêê. Quaal éé´oo seeuu noomee?". Não passava uma agulha. Ruim era o medo de nos cercarem e gritarem: - "Pega". O Ageu tentava não gaguejar na esperança de convencer um garotinho inquisidor que insistia nebulosamente que ele aceitasse Jesus mais uma vez "só pra conferir se era verdade". Antes de sairmos correndo dali, a Tia pergunta o meu nome com a voz mais rouca, queria rezar muito por mim, mas só tenho culhão de responder: - "É Zenaldo".

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 15 (de Marcos Salvatore)


O cadáver deixado para trás, pelo marido, ou amante, estava intacto. Quando chegamos ao necrotério pude notar uma certa alegria faunesca nos olhos dos médicos-legistas. Realmente ouvi o seguinte cochicho:
- Hoje tem “janta”.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ANSIEDADE NOTURNA (de Marcos Salvatore)

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Tenho muitas tolices
Fungos envenenados
Parasitas que crescem do corpo de insetos famintos e confusos
Depois de os matarem lentamente
Não sem antes serem jogados para baixo, fora do galho e do ninho
Por um dos seus
A queda é incidental, talvez oportuna
Hora de checar as dúvidas
Inconsequências apuradas, mensuradas
Preencher espaços – quem precisa disso?
Quem sabe sobre a vida?
Esta é a minha e o seu rótulo esfarelado está, pelos meus dedos
Devido à umidade da garrafa
Lente de aumento bronzeado, improvisada
Para dar função e textura exagerada de pele suada
Cenas de sexo sem rosto
Sim, eu as tenho e sustento sobrando
Troncos femininos
Costelas em relevo, em antítese
Cinzeiros e xícaras, leite derramado
E o que falta?
Nunca descubro palavras relacionadas
Se encontrasse não acharia uma pronúncia razoável para elas
Apenas me anoiteço calado e inundo
Antes de entrar mais uma vez nesta história

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

DISSÍDIO COLETIVO (de Marcos Salvatore)




Artwork by Kurt Cobain

Renê enterrava bonecas,

tinha um cemitério e tudo pra elas,

matava e as enterrava depois

 

Marcos caçava vagalumes

Tinha uma rua inteira sem luz, pra isso

Caçava e os guardava depois, pra servir de lamparina orgânica

 

Celi procurava alguém mais cedo, que achasse Drummond quente

Tinha uma oportunidade inteira sacada pra isso

Procurava, mas não encontrou ninguém, bem que eu gostaria

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

DESBOTADO (de Marcos Salvatore)




Photo by Bob Seidemann

 A cidade ontem esteve desbotada e mega-exposta às mesmas impressões.

Tiros, fogos de artifício, barras de ferro, bombas caseiras. Quem apostou em pelo menos uma morte ganhou.

A pregação vazia e interesseira rondou bairros em busca de sexo e gado, eleitores inscritos.

Voltei pra casa com um puta sono, prévia da insônia, depois, sonhei com luzes de da Vinci, um baita som de fudê das frenéticas no rádio, e cheiro de alguém ao lado.

Quanto a mim, só acredito em milagres de graça.

Agora, bom dia... eu acho.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Janelas Discretas Nº 11 (de Marcos Salvatore)

Encontros e desencontros nas esquinas escorregadias de Belém, segundas intenções, lembranças da Radio Cidade e da perda de identidade. Combinação perigosa sujeita a tempestades dialéticas de quinta.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 9 (de Marcos Salvatore)




Amanheceu em segredo. Lá fora, uma terça de vontade algo débil, quer perder-se no mistério e no ridículo da florada pai d'égua.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 8 (de Marcos Salvatore)


Existe algo de menstrual numa segunda-feira pós Eleições, pré Cirial. Difícil absorver um corrimento tão contraceptivo. Portanto, sangue frio e sandálias para mais um dia útil.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Janelas Discretas nº 7 (Marcos Salvatore)


Colocou o neto no colo, enquanto se balançava na cadeira, o consertador de cucos: - "Vamos contar urubus". Um, dois... e o pequeno dormiu.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CREOSOTO (de Marcos Salvatore)


a dignidade intelectual que se foda
viva o subconsciente coletivo
também o cerveja gelada
a algazarra condenada
com penitência de três sábados, dois domingos
trocentos feriados largos
bem acompanhados em papo furado
em território de caça
um ou dois tragos num cigarro emprestado
você me olhando, lá do outro lado
tem gente que te espera pra bater um papo
pra curtir um som desembaraçado
viva até aquela tremenda mancada
bebeu demais, falou demais
rolou assim
pouco grana mas muito amigos
tanta coisa pra se ouvir
pra falar
pra curtir
pra sentir
prostíbulos da cidade, bares cavernosos
colo de puta que escuta
o mundo é grande, é vida nova
é dessemelhante por uma leitura
não existem interpretações mútuas
somente pensamento soltos
uma intenção desfruta um grande sonho
inteiro e quente, doce-amargo,
flor despetalada, fantasiosa
mal-me-quer engarrafado
artesanal
como qualquer invento
me saca às terças e quintas
me carrega e acha pouco
e aqui me encontro, eu acho
de novo no Chaco

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 4 (de Marcos Salvatore)

Não vou me convidar pra tua vida

Mas espero que mereça

E entenda

Sem danos

Que eu amanheça em outra festa


CONSUELO, SUPORTE (de Marcos Salvatore)

by Frida Kahlo


Nada mais patético do que ruas e praças com nomes de santos e políticos. Sempre pensei muito nisso. Tudo besteira, porque estamos sempre procurando, mesmo, é uma chave para o nosso coração.

Por isso, gosto de ligar pra Consuelo e ouvir ela murmurando em dois pólos (acha que todo mundo pensa que ela é doida), cada dia mais gostosa, ao telefone:

- "Depois da tarde chuvosa um anoitecer de lânguida contemplação do ser e do nao ser, bom pra cair de cabeça em piscinas secas e sentir o sangue, quentinho escorrer...".

Esse é que é o papo, super rebimboca da parafuseta.

Ela nunca lê um livro inteiro (auto ajuda é dose), só passa a vista nas orelhas e resenhas curtas, nunca fala coisa com coisa. Culpa dos remédios tarja preta, dos barzinhos de abraço (onde todo mundo está sempre feliz) e das mudanças trimestrais de Igreja Evangélica - acaba sempre dando para todos os pastores.

Em época de eleição, vai e vem lá está ela, apaixonada por algum candidato de sobrancelhas juntas, comedor de fetos e velhinhas.

Ela chora em falsete, toda sentida: - "Ninguém admite Sal, e pode até ser neura minha, (cai no choro, logo, de vez) mas sinto que o paraense odeia carimbó... (lembram do Zacarias chorando?) o pior que eu também, que merda, (tenta segurar a coriza e o chorro ao mesmo tempo, mas se engasga) queria tanto dançar essa porra - Uuuuuhhhh, uuuuuhhhhhhh, uuuummmmmm. O paraense não gosta de ninguém!".

Dramático, não? 

Do outro lado da linha eu tento ser mais indulgente: - "Eles que se fodam, baby! A burguesia politizada só quer saber do dela e aparecer. MORTE AOS PARASITAS!".

A Consuelo adora quando eu falo alto. Lembra do Pai dela. Depois disso, topa tudo. Paga todas.

O pior vocês nem imaginam: houve um tempo em que ela achava que eu era o cara pra ela; me ligava umas trinta vezes por dia. Quando sacou que não ia rolar novela mexicana, bebeu Q-Boa. Deixou um bilhete escrito assim: "Se me ama, morre comigo. Ainda tem chumbinho na gaveta debaixo da pia. Só não te esquece de deixar a porta aberta, que ninguém tem bola de cristal".

Passou. Quando me disseram que ela estava legal, fumei o quinquagésimo sétimo cigarro e depois subi. Ela dormia bem. Saí. Fiquei um tempo rondando as janelas da cidade. Nada lá fora. nem sombra, nem verde. Sem músicas novas, sem propostas novas. A gente merece estar assim, passando o tempo todo pelo medo de ficar de fora. Pagando mico. Gato por lebre total. Pura burrice.

Meses depois, ela me liga para contar uma grande novidade: estava convertida e tinha emagrecido dez quilos através uma dieta religiosa que consistia em mantras inspirados em leituras diafragmáticas de bulas de remédio, prisão de ventre induzida por purê de banana, masturbação (pelo menos sete vezes ao dia, sapatos apertados, bobó de camarão frio e doses matutinas de xixi. Isso mesmo. Xixi humano.

Nem preciso dizer que a vida sexual da Consuelo virou do avesso. Vocês sabem o que é Urofilia? Bom... digamos que certa madrugada, em plena Rodoviária, acompanhada de minha pessoa, Consuelo começa a passar mal. Tinha bebido muitíssimo e se alimentado pouco.

- Sal. Se eu te pedir uma coisa tu fazes?
- Claro. O que é? Desenrola.
- Dá uma mijadinha, bem quentinha, na minha boca?
- Tu tá doida, caralho? Tá pensando o quê? Que novidade é essa?
- Mas eu tô passando mal. Mal!!

Mordido com a falta de noção da Consuelo e também com a falta de bares de rock contemporâneo na cidade, sou levado por ela até a rua de trás do Amarelinho. Ela ajoelha enquanto eu entorno uma latinha vorazmente.

- Já?
- Peraí (solto um arrôto paralelepípedo). Bora.

Não sei bem como descrever a cena, mas... lembram dos biscoitos Scooby? Pois é. Enquanto eu me sentia o próprio Riachão, Dona Consuelo quase desmaia pelos múltiplos orgasmos.

Tento convidá-la para um programa mais light, mais cool:

- Tem alguém te comendo ultimamente?
- Ando muito mal fodida. Por quê?
- Ué, o de sempre. Da Toca a gente desce, ou sobe, dependendo da ressaca paudurecente.

E foi assim que nos tornamos bons e velhos amigos de foda. Até que um dia você se olha no espelho e tudo que vê é um homem morrendo numa cruz. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 3 (de Marcos Salvatore)


O melhor momento do amor é aquele, segundos antes de se perceber apaixonado.

Um mistério une os sorrisos.

Boa tarde, é quarta-feira - O calendario esta repleto delas.

Isso é bom.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

JANELAS DISCRETAS Nº 2 (de Marcos Salvatore)

Bom dia a todos.

Olho pela janela e a manhã nublada me dá uma vontade de fumar que puta que o pariu!

Existe um bom motivo para nunca acordar cedo à terças-feiras.

Será que ainda dá tempo de ir atrás dela?

Talvez, quem sabe até, pegar minhas chaves de volta.(...) Quem sabe?


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

CIRCO NAVEGANTE (de Marcos Salvatore)




Não sei quem você é
“Não saber” da minha vida
Danço por amor
Nem altura ou cor, nem credo

Dorme sobre as minhas costas

Uma verdade mais simples que o meu sexo solo
Contra ou através as cordas do desembaraço
Eu não sei
Percepção nem sempre é realidade

Nem se posso te salvar
Me salvando talvez possa
Mesmo sendo assim
Um descuidado hipo-monstro de pesar

A ponto de procurar não procurando
De não ser o que eu como
E, sim, o que eu escrevo

Pisciano mal criado. Inteiro demais, trabalhador
Camiseta vermelha em listas pretas
Suado amante palavroso de coxas
Contador das  nuances dos cabelos colados nas costas

Não te encontrei por me querer demais
Me querer muito e a todos os trapézios
Por comer, por fumar, por beber
Por foder demasiadamente com tudo

Não tenho escolha dentro do que compreendo
A não ser desconfiar que é você naquele olhar
Do outro lado da rua, da vitrine, do sorriso
Quero tanto acreditar, que me atropelo

Em cada gesto discreto de atenção
Em cada entonação sussurrada em subtextos de orgasmo cochichado
Matéria de luz e calor
Arruaça espontânea, circo navegante de dois




segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O TELÉGRAFO SEM FIO (de Marcos Salvatore)

by Greg Tochini


O quarto na Passagem Brasília, perto do terreiro de Dona Erundina, não fedia muito, mas sentiu um cheiro estranho quando acordou pela musiquinha meio tecno-Beethoven do carro de gás que passava em frente:
- Olha a Tropigás!
Sentou na rede e acendeu um cigarro, coçou a perna esquerda (- Que mania, pequeno!), a vontade de cagar foi instantânea depois do primeiro trago; correu. A ressaca antropofágica dividia o seu tempo entre a náusea e a diarreia de carnaval – No Telégrafo é sempre Carnaval.
Mas não estamos no Carnaval, estamos? - Não. (:) Meados de junho, ao som de bombinhas e “escapoles-bole-bole” dos moleques, lá fora a “psica” rola solta. Ele se lembra de nunca ter aprendido direito a fazer papagaios (tinha medo de não conseguir e rirem dele), seu forte era o cerol, mas isso não interessa agora, porque o celular pré-pago tocou. Ele pensou: - “Porra, não tenho crédito, duas da tarde, bem na hora de cagar, essa merda toca. Vou retornar essa porra à cobrar”.
Era o “Dotô” Delegado.
- Ô, Painho?
- Fala Bezerra (“Quê que esse animal tá me ligando?).
- Homicídio para ti.
- Mas assim (...)? Combinei que levava a merendeira do Stélio Maroja, aquela nega condicional, para Outeiro amanhã de amanhã (- Tu és um puto, Painho, mas eu gosto de ti). Ponha a mão na consciência, meu patrão! Ela tem uma tia doida e solteirona que pensa que está sempre de resguardo. Vamos ter que despachar a velha para algum parente mercenário qualquer.
- Tô sabendo que tu já estás salivando para ela entrar na goma faz tempo, mas eu tô sozinho, aqui, com um taxista em estado de choque e dois defuntos no banco de trás.
- Puta que pariu! Tá ruim “mermo” o negócio, por aí?
- Um eleitor inscrito, matou a mulher com três tiros em frente a igreja do Perpétuo Socorro, depois deu um tiro no peito. O taxista veio direto para cá. Chegou todo mijado. Tô até despachando direto pro Renato Chaves.
- Tu sabes que eu entro em férias amanhã...
- Isso é besteira. Só para saber o porquê e eu te libero. Relatório besta de fazer. É coisa só para ti, bonita a moleca.
- Égua, Bezerra, vai-te para merda! Tô indo “praí”.
- RÊ, RÊ, RÊ, RÊ! Pago duas depois, lá, no Mauro’s.
No necrotério chegou, uma hora, na contramão, depois do trânsito infernal. O Moscoso, velho amigo de farra e médico legista veio recebê-lo com sua eterna camiseta escrito “Lula Lá”:
- E, aí, Moscoso?
- Peitinhos de pomba, bucetinha raspada, tacha na língua. Uma putinha.
- Fodeu antes de morrer?
- Não, mas vai. Quem sabe foi por isso que morreu. Dá-se um jeito a tudo.
- Tô perguntando contextualmente, filho da puta, tarado, do caralho! Quero acabar logo com isso.
- Três tiros fatais na mulher: coração, pulmão e outro no coração de novo, à queima roupa. Mas ele demorou cinco minutos pra morrer: o tiro pegou no estômago. Até parece que ele queria sofrer bastante.
- Tranquileza. O que tinha nas roupas?
- Duas meias passagens nos dois e um recibo de manicure-pedicure no bolso de trás da calça da moça. (...) Tu achas que vai demorar para reclamarem o corpo?
- Talvez umas 24 horas, por quê?
- Tu sabes...
- Vai te foder, Moscoso. O inferno é pouco para ti.
- Não se despensa uma mulher de touca, meu caro. Desse naipe só lá no Cosanostra.
Tinha amigos estranhos, realmente, mas isso não interessa, não interessa. O que importa é o papo que ele teve com o derradeiro condutor dos finados passageiros.
- Derrama, brother.
- Hã?
- Fala, desembucha, desenrola, vomita tudo, porra!
- Ele matou ela.
- Eu sei disso, caralho. Me conta como é que foi. Tô pronto para apresentação.
- Mas, “num” fui eu.
- Eu sei, filho da puta. Como ele matou ela, (...) por quê?
- Ele atirou nela.
- Porra, é por essas e outras que a gente senta a borracha... (!) Olha, “vamo” de novo: o que eles conversaram?
- Só ouvi os tiros. Ele falava baixinho. Só deu para ouvir o que ela disse depois dos tiros.
- E o que ela falou, porra?
- “Ai, Jurandir”.
- E depois?
- Depois do quê?
Painho precisou dar umas porradas grátis no taxista por desacato a sua inteligência; copinhos esses que foram úteis, porque finalmente ele lembrou que tinha pego os dois na altura da passagem Santa Rita e que em frente a igreja ele atirou nela e que antes do sinal de Pedro Álvares com Arthur Bernardes atirou na própria barriga.
- Não consigo esquecer do cheiro de sangue com merda. (...) Posso ir agora?
- Sai da minha frente! Não, não! Volta, que tu vais me levar nessa manicure.
- Mas, mano, eu tenho que devolver o carro e...
- Que conversa é essa? Vai me levar, sim. Senão te deixo, lá, com o Bezerra. E, ele adora gordinhos feitos tu. Ele diz que nem sentem “quando enterra”. Bora, merda, procurar essa tal de dona Djeca, do recibo.
Entramos na Santa Cruz [“ulha” (!), perto de casa] e a dona Djeca já fuchicava com outra:
- Na hora, lá, né? que eu disse que eu... eu fui.... e ela disse que era 12, mas é 15... hum... achiiii, ... tá qui, enxerida! Vai “fudê” e ainda quer desconto? Égua de ti!
Foi o suficiente pro Painho saber que estava em casa:
- Boa noite, esse negócio de parágrafo D é comigo mesmo.
Dona Djeca se levanta, põe o molho de chaves dentro do sutiã; não para mais de falar:
- Olha, eu não devo nada, entendeu?
- Mas... é só...
- Não, que vocês que ficam por aí com as piriguetes e agora vem aqui.... que não sei que mais lá, não sei das quantas...
- É sobre esse recibo, porra.
- Quê que tem?
- A dona desse recibo está no necrotério agora, morta por três tiros. Bonita. Provavelmente era cheio de vida e...
- Ih, meu filho, provavelmente pegou do gastoso para gastar com o gostoso.
- E quem é Jurandir?
- Ela fez unha ontem e disse que do trabalho ia para quadra junina dançar na Praça Waldemar Henrique. Jurandir deve ser o nome do bofe.
- Sei...
Dona Djeca, depois de muito falar e falar, esclareceu que eles ensaiavam na quadra de futsal do Colégio Santo Afonso.
- Valeu, Tia. A gente se vê no próximo baile da saudade do Cacareco.
- Mas, tu és apresentado...
O nome do taxista era Aminadaby, mas isso não interessa, o que importa é que ele virou taxista porque tinha medo de um monte de gente junta, tinha cachorro e gato em casa, o que também é problema dele, não nosso.
- Ô, Derby, estaciona em frente a igreja que eu quero fazer o sinal da cruz antes de entrar.
- Mas o meu nome é...
- Eu sei, porra, mas um nome desses ninguém decora, Pequeno!
A quadrilha já estava de saída para a Praça e Painho diz:
- Polícia, porra! Jurandir, eu quero um tal de Jurandir.
Um dedo duro (sempre e em todo lugar) só faz apontar: - “É aquele, o puxador”.
- Vem cá. Quero falar contigo.
- Onde tu estavas hoje, por volta do meio dia?
- Tava em frente ao shopping, fui pagar uma conta de luz atrasada.. cortaram a luz de casa.
- E o quico?
- Como?
- Deixa para lá, só quis imitar a minha namorada (mentira!). Por falar nisso... e tu?
- Eu o quê? O senhor me conhece?
- Não precisa. Eu sou da polícia e o meu amigo Derby prata, aqui, é taxista.
- Sim, e eu o quê?
- Tu tens namorada?
- Olha, eu gosto de mulher se o senhor quiser saber e estou esperando minha namorada e...
- Calma, garoto, calma, calma, eu acredito.
- E qual é o nome dela?
- Tina... Justina. Por quê?
- Olha, rapaz. Sei que não é a melhor hora, mas eu preciso te notificar que...
Contou tudo ao garoto. Esperou a reação. Não houve reação. Jurandir limitou-se a dizer:
- Eu a amava desde pequeno. Depois que ela largou o namorado ficamos juntos. Ele batia nela. Prometeu se vingar por causa dos ciúmes. A gente ia casar depois da competição de quadrilhas. Minha inscrição na COHAB estava em cima. Ela dizia que eu era um bom puxador. Mas eu nunca acreditei, no ensaio eu errava muito. Disse que tinha um presente para mim depois que a gente ganhasse. Mas não vamos ganhar sem ela dançando.
- Ela dançava aqui?
- Sim, o ex-namorado era o parceiro. Eram os principais.
- E, ainda vais competir depois de saber de tudo isso?
- Fazer o quê? Prometi para ela que seria o puxador dessa noite. Tenho que cumprir.
- Eu te levo até lá, garoto. Vamo.
Painho odiava quadrilhas, mas, naquela noite, pode assistir àquele rapaz se despedir da mulher que amava. E, como dançou aquele menino, como levou alegria para todos. E, depois de ganharem, depois da última dança, pôde ver o garoto, banhado de papel picado, olhar para o alto e finalmente... chorar.

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