segunda-feira, 30 de julho de 2012

O LARGO DA PÓLVORA (de Marcos Salvatore)

by unknown




perdão pela confissão...
mas eu precisava disso para relaxar,
já não me sinto tão sufocado.
o problema é que eu não consegui me conter,
mas já ficou tudo bem,
tô relaxado,
é que às vezes as coisas se perdem na minha cabeça
e isso parece que quer me devorar,
sinto sensações mais fortes do que eu,
talvez seja culpa dessa coisa "religiosa" que faço:
andar corajoso e sem rumo por aí
na cama com a pouca sorte
talvez eu sinta necessidade de me sentir um vadio
de vez em quando

reparo numa jovem que esperava alguém
sei lá se esperava mesmo
mas gosto de pensar que ela aguardou por essa pessoa
durante muito, muito tempo
não me parecia diferente de outras daqui
mocinhas com suas bucetinhas aborrecidas da
brasileira família cristã
lírio mimoso
todas casadas com fantasmas de turistas

ela puxa um cigarro de piteira
ascende e quase imediatamente
começa a dançar naquela bruma
enquanto a brisa do pós chuva da tarde lhe soprava o dia
do outro lado da rua
não adivinhava o quê do propósito de tantas mangueiras
tantas sombras ao vento
ainda mais com a água de chuva secando em seu único vestido
colado no corpo

uma vontade de também fumar...
um gostar macio de varrer terra, sentir vento de luz, soprar fumaça
conto as moedas e compro um mais barato... bem mais em conta
depois do primeiro trago descubro o porquê da promoção
fumei mesmo assim, numa turbulência que não deixa estragos
e lá estava eu...
testemunha ocular e auditiva do acidente voluntário

nossos olhares se cruzaram o quê?
uns dois segundos, no máximo
de não deixar em paz
que continuaram sendo
e ela não virou o rosto
nem mesmo quando aquele “Tamoios – UFPA” a colheu pela raiz

quase na encruzilhada do IEP com Manoel Pinto.

ah, Morte
me fala toda essa gente de um jeito...
insegura anfitriã,
que eu entenda

- “atravessou a rua cantando”, alguns dizem.

em Belém não há esgotos, apenas céus abertos.
por isso não demorou para as moscas se juntarem
falavam em morte, em destino, experiências espíritas no fundo de seu quintal etc..
gente linda me dá nojo
como amam, necessitam de detalhes sórdidos
sacrifícios populares

um calafrio de costelas,
como uma lavagem estomacal,
me calou os ouvidos em tempo de resistir contra a cor dos seus cabelos colados ao sangue no asfalto.
limpou meu interior, toda a grama do largo
correu pelas esquinas da praça em ereção involuntária
acordou mendigos em diarreia pré-agônica
gritando, ameaçando abatidos transeuntes
religiosos, cativantes amigos de ombros e copos

todos juntos aqui,
longe de casa

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