quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CONSUELO, SUPORTE (de Marcos Salvatore)

by Frida Kahlo


Nada mais patético do que ruas e praças com nomes de santos e políticos. Sempre pensei muito nisso. Tudo besteira, porque estamos sempre procurando, mesmo, é uma chave para o nosso coração.

Por isso, gosto de ligar pra Consuelo e ouvir ela murmurando em dois pólos (acha que todo mundo pensa que ela é doida), cada dia mais gostosa, ao telefone:

- "Depois da tarde chuvosa um anoitecer de lânguida contemplação do ser e do nao ser, bom pra cair de cabeça em piscinas secas e sentir o sangue, quentinho escorrer...".

Esse é que é o papo, super rebimboca da parafuseta.

Ela nunca lê um livro inteiro (auto ajuda é dose), só passa a vista nas orelhas e resenhas curtas, nunca fala coisa com coisa. Culpa dos remédios tarja preta, dos barzinhos de abraço (onde todo mundo está sempre feliz) e das mudanças trimestrais de Igreja Evangélica - acaba sempre dando para todos os pastores.

Em época de eleição, vai e vem lá está ela, apaixonada por algum candidato de sobrancelhas juntas, comedor de fetos e velhinhas.

Ela chora em falsete, toda sentida: - "Ninguém admite Sal, e pode até ser neura minha, (cai no choro, logo, de vez) mas sinto que o paraense odeia carimbó... (lembram do Zacarias chorando?) o pior que eu também, que merda, (tenta segurar a coriza e o chorro ao mesmo tempo, mas se engasga) queria tanto dançar essa porra - Uuuuuhhhh, uuuuuhhhhhhh, uuuummmmmm. O paraense não gosta de ninguém!".

Dramático, não? 

Do outro lado da linha eu tento ser mais indulgente: - "Eles que se fodam, baby! A burguesia politizada só quer saber do dela e aparecer. MORTE AOS PARASITAS!".

A Consuelo adora quando eu falo alto. Lembra do Pai dela. Depois disso, topa tudo. Paga todas.

O pior vocês nem imaginam: houve um tempo em que ela achava que eu era o cara pra ela; me ligava umas trinta vezes por dia. Quando sacou que não ia rolar novela mexicana, bebeu Q-Boa. Deixou um bilhete escrito assim: "Se me ama, morre comigo. Ainda tem chumbinho na gaveta debaixo da pia. Só não te esquece de deixar a porta aberta, que ninguém tem bola de cristal".

Passou. Quando me disseram que ela estava legal, fumei o quinquagésimo sétimo cigarro e depois subi. Ela dormia bem. Saí. Fiquei um tempo rondando as janelas da cidade. Nada lá fora. nem sombra, nem verde. Sem músicas novas, sem propostas novas. A gente merece estar assim, passando o tempo todo pelo medo de ficar de fora. Pagando mico. Gato por lebre total. Pura burrice.

Meses depois, ela me liga para contar uma grande novidade: estava convertida e tinha emagrecido dez quilos através uma dieta religiosa que consistia em mantras inspirados em leituras diafragmáticas de bulas de remédio, prisão de ventre induzida por purê de banana, masturbação (pelo menos sete vezes ao dia, sapatos apertados, bobó de camarão frio e doses matutinas de xixi. Isso mesmo. Xixi humano.

Nem preciso dizer que a vida sexual da Consuelo virou do avesso. Vocês sabem o que é Urofilia? Bom... digamos que certa madrugada, em plena Rodoviária, acompanhada de minha pessoa, Consuelo começa a passar mal. Tinha bebido muitíssimo e se alimentado pouco.

- Sal. Se eu te pedir uma coisa tu fazes?
- Claro. O que é? Desenrola.
- Dá uma mijadinha, bem quentinha, na minha boca?
- Tu tá doida, caralho? Tá pensando o quê? Que novidade é essa?
- Mas eu tô passando mal. Mal!!

Mordido com a falta de noção da Consuelo e também com a falta de bares de rock contemporâneo na cidade, sou levado por ela até a rua de trás do Amarelinho. Ela ajoelha enquanto eu entorno uma latinha vorazmente.

- Já?
- Peraí (solto um arrôto paralelepípedo). Bora.

Não sei bem como descrever a cena, mas... lembram dos biscoitos Scooby? Pois é. Enquanto eu me sentia o próprio Riachão, Dona Consuelo quase desmaia pelos múltiplos orgasmos.

Tento convidá-la para um programa mais light, mais cool:

- Tem alguém te comendo ultimamente?
- Ando muito mal fodida. Por quê?
- Ué, o de sempre. Da Toca a gente desce, ou sobe, dependendo da ressaca paudurecente.

E foi assim que nos tornamos bons e velhos amigos de foda. Até que um dia você se olha no espelho e tudo que vê é um homem morrendo numa cruz. 

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