quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MADREPÉROLA (de Marcos Salvatore)

Raymond Depardon


 
Quase acordo com uma ligação do Fabio, um dos meus companheiros de pena. Não percebo um corpo ao meu lado, nem os seios imensos, nem seu ronco alcoolizado. Não consigo atender de tão bêbado. Não retorno, pois estava sem crédito (como sempre).
Um detalhe sobre o Fabião, é que ele é como um protetor de todos nós. Supra sumo do bom sujeito. A benção, meu irmão.
Tentei lembrar como consegui voltar pra casa – fiquei devendo um conto pro Maurão, mas amanhã eu pago. Ontem ganhei um “protetor auditivo em tamanho único”. Foi a primeira coisa que ganhei de uma aluna em tanto tempo. Ainda não sei pra que serve - deve ter sido uma indireta, pois vinha com uma camisinha de brinde. Aposto que vocês pensam que eu vou descrevê-la como um negocinho; pois é, não vou (mas que ela tinha um par de coxas... hum! Isso ela tinha).
Cada presente é uma coisa qualquer que não conheço, que me confunde. É um momento do avesso. Tenho uma timidez agressiva. Mas como eu dizia:
Ônibus vazio. Eu, eu mesmo e a mim. Motorista, cobrador. Uma mulata “boca de ferro” subiu no ponto seguinte. Sentou ao meu lado, mesmo existindo lugares vazios à vontade. Lentes de contato, cabelo loiro, unhas grandes (duas quebradas), pintadas com árvores de natal.
Tento dormir, mas o perfume amanhecido não me deixa. Um cheiro de suor velho exala dos seus peitos generosos. Os bicos profissionais só faltavam furar a blusa - quando eu era moleque, transei com uma coroa parecida com essa, que bebia perfume quando estava na fissura. Chupava por cinco contos (xota era quinze); promoção de feriado: “barba, cabelo e bigode”, vinte e cinco pratas. Toda vida se engasgava com porra. Trepar com ela era chocante: meu pau sempre ficava com um cheiro de alfazema ou jasmim.
Antes, no bar, me toquei que já eram três e vinte: - “Preciso estar no trampo às oito”. A embriaguez é um coito sem ejaculação. Acho mesmo que, de vez em quando, eu recomeço o recomeço disso. Vai ser vagabundo assim na puta que o pariu!
Uma moça (linda, linda), se aproxima e me pergunta: - “Aquilo que você escreve. É tudo verdade? É mesmo?”. Também gostaria de saber. Tenho andado sem controle sobre isso.
Não tenho tempo de responder – nem tempo de decidir se queria responder, pois ela logo em seguida me pede: - “Escreve pra mim? Escreve?”.
Pego um lenço de papel e escrevo: “Tenho precisado de alguém pra dividir um cigarro, uma guimba, um pouco de vida... um prato de comida”. Assino e entrego. Vejo seu colar e me lembro dos monges que colocavam imagens do Buda dentro de ostras.
O Marlon sempre dá o gancho: Política, poesia, cinema, putaria - que bom que a gente se entende. Bernardo e Heloísa também foram mencionados. Esse cara é um Augusto dos Anjos com melhores modos.
Tenho fé nos olhares tristes de quem nos percebe tão sem nós pra desfazer. Seja quem for, mal sabe dos nossos dias partidos. Queria muito ter um sorriso generoso, como o do meu Brôu Maurício. Sempre de bem com a vida e com todos.
Bar da Toca outra noite: mesa cheia, som, amigos – um casal valsa ao som de músicas tristes. Olho para eles - olho bem para eles. O amor é gerado por cenas como essa. Não deixo de me perguntar de onde venho, onde estou. Me visto com os andrajos de uma vida baldía. Temo o frio e o calor em demasia. Por isso bebo só pela fantasia. Vítima espontânea das tatuagens feitas por cima das camisas.
Sentia falta de mijar fumando – miro o jato quente num pentelho abandonado: “Errei, porra!”. Associo sensações parecidas: mijar, cagar, espirrar e gozar. Tive uma namorada que era doida pra me ver cagando:
- Amor?
- Tem gente. Que foi, porra?
- Ah, me deixa ver se afunda ou se fica boiando. Só um pouquinho, vai?
- Inferno! Sai de trás da porta, mulher! Que novidade é essa, porra?
Filha da puta fazia de propósito: deixava a porta aberta, insistia, insistia, me forçava a ver, até que, por fim, aquiesci a seu alternativo plano de realidade. Um amor fecal, desinibido, despudorado, despecado e alegre. Um dia ela tentou me matar. Mas isso não interessa. Por isso sou fã de Nina Simone. Não sei falar sobre isso.
Quando descemos o túnel do Entroncamento (que merda!), a Rê Bordosa ao meu lado resolve desmaiar e babar no meu ombro. Senti meu porre triplicar nessa hora. Antes disse: - “Me leva pra casa contigo, Bem? Me deixa te chamar de Bem?”. (...)
Tentei lembrar da farra:
Não é difícil amar a rapaziada do bar: todos eles chovem, fazem sol. Tenho a impressão de poderem fazer crescer pernas, braços e olhos num pedaço de pão mofado: - “Com memória afetiva não se brinca”, já dizia a Eva.
Lembrei de um sabonete que, segundo as informações de embalagem, “tirava o medo”. No verso, um detalhe “de foder”: “Essência sólida só para queimadores”. O Renato achou genial. Quase compramos, mas os trocados só davam pro cigarro, então, entramos no carro conformados e saímos cantando letras erradas dos Beatles.
Grande Aloísio. Tem uma camiseta mágica (lembrei agora do flautista mágico), a que só usa quando está a fim de aprontar. Uma camiseta que enlouquece as mulheres em volta. Certa noite o The Beatles quase fechou por causa dela.
Caio da cama com um cutucão da Rê Bordosa. Olho assustado e ainda a vejo coçando os pentelhos com uma das unhas quebradas. Engatinho até a porta. Entro no banheiro, me ajoelho em frente ao vaso sanitário e, antes de rezar... choro.
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