segunda-feira, 3 de outubro de 2011

bombordo [ou livre para ler com uma mão só] (de marcos salvatore)

by http://thethoughtexperiment.wordpress.com/


bêbado. completamente besta. acordo no chão da sala com esses escritos me cobrindo o corpo. entre um sábado e um domingo. repetindo chet baker, nina simone, portishead. sei do que se trata, mas resolvi publicar tudo como estava.

ando deprimido
busco o amor dentro de cada palavra,
nos rótulos das garrafas
solos de baixo sem escala, aeroporto pra pousar
não me recuso a pagar o preço da vida
mas a vida tem que aceitar o fato
de que vai ter que ser a prazo... e sem entrada,
nem fiador,
nem garantias,
nem telefones de contato
desde então
meu coração é um vinil riscado
por agulhas usadas
violino de uma corda só
sofro de doença primária, crônica, progressiva e fatal
está tudo aqui, não lá fora. anestesia geral.
dentro de mim tem um animal em profunda hibernação
mas não quero matar a pessoa errada.
- me apeguei aos pregos das asas machucando minhas costas.
seria estupidez
mas, em todo caso
- me traz mais uma música, on the rocks
mesmo sabendo que o mundo não precisa de mais ninhos
também existe o círio; festa pagã
- não há evidência de milagre nessa época
com seu espetáculo de fé do povo
            - o amor perde feio pro sexo.
viva o povo brasileiro
viva a foda laica
prostíbulos lotados,
bares enchidos,
altos índices de violência e criminalidade
lembro da corda
do frio da manhã
somos noivos de outubro
nesse eterna despedida de solteiro
o derrame de baba vaginal é um sinal de dias melhores
dias inteiros
olho pra baixo e encorajo mais um vôo
é claro, arranho um violão, depois tento de novo
canto trancado no quarto, com o volume
no volume máximo
claramente sem sabor
apaziguo a tristeza com masturbação consciente
dou em cima de qualquer mulher de olhar desafiador,
onisciência, terceiro olho em sua testa
em suas tetas, sua buceta
depois digo, na maior: “não me tente”
também venho consumindo enlatados de segunda mão
calçados e roupas usadas
pão com mortadela, pratos de arroz com feijão
não dispenso um vinhozinho barato
(cinco e cinquenta a garrafa)
economia
nem me sentir como um animal
- diz que me ama, me arruma uns trocados
- faz de mim um samba de terreiro de vila
- me dá café na cama
- despois senta a porrada
“me dá pastel.
te pago aqui.
essa fome me deixa quase morto”
cheguei tarde,
perdi a chance de me atrasar
e a palavra aconteceu sem permissão
algo em você que me calou
consegue adivinhar o que seja?
depois diz que me ama
olha só
me amarra cordas nos braços, nas mãos
depois as pernas
depois sai por aí de praça em praça
me apresentando de graça
quer me cortar as asas
quer me comer de garfo e faca
costumes, poesia-pé-na-estrada
melhor parar agora
antes que eu te leve a sério
e comece a me encontrar em outro lugar
percebeu?
não?
ou quer que eu explique?
então esquece.
e termine de me ler agora
ou então me ame logo de uma vez
rasgue o que escrevi em mil pedaços
faça chover papel picado
que eu estou com pressa de ir embora
de mãos dadas com suas mãos
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